Primeira leitura: 'Eu vi as tamareiras', de Radwa Ashour
Solidão, memória e dignidade: obra da escritora egípcia chega ao Brasil pela editora Tabla
compartilhe
SIGA
“Contos breves” (Tradução de Maria Carolina Gonçalves)
Ela trouxe para ele o grito da alma e suas luzes cintilantes. Ele trouxe para ela cimento para os muros da casa e farinha para os pães. Ela foi até ele correndo e cantando, e continuou se dedicando a fazer a fatira para o jantar da família. Ela disse, chorando: “Você não me vê”. Ele ficou incomodado, quase sofreu, depois lhe deu um tapinha nas costas e foi preparar um chá para ela.
Ela deu a ele um jardim cheio de jasmins, coroou a cabeça dele com cachos de uva e o presenteou com o afeto da alma e a camisa lavada todas as manhãs. Ela o encontrou ajoelhado no pequeno galinheiro, tentando roubar as galinhas da vizinha.
Ele nasceu no país dos figos, das azeitonas e do grande sol. Foi atirado pelo seu tempo nas cida des cobertas de neve. Bateu à porta dela, que disse: “Pois não?”, e os dois se casaram. Apesar do teto e das crianças, ele passou a vida toda deixando a luz acesa e o aquecedor ligado, pois ainda tremia de solidão e frio.
Ela olhou para o espelho e viu o mar, os pescadores e a imensidão bordada de gaivotas. Entregou o espelho a ele, que viu uma prisão sufocante, uma árvore seca e um corvo grasnando.
Sobre o livro
Publicada no Egito em 1989, a coletânea "Eu vi as tamareiras" é o primeiro livro de contos da egípcia Radwa Ashour, uma das escritoras mais importantes da literatura árabe contemporânea. Professora universitária, crítica literária e romancista, Ashour construiu uma obra comprometida com a justiça, a liberdade e a representação das experiências femininas e coletivas, informa a editora Tabla, responsável pela publicação no Brasil. A coletânea que chega às livrarias brasileiras apresenta os elementos que definiriam posteriormente toda a sua trajetória literária: a atenção profunda às pessoas comuns, às memórias que moldam o presente e à luta silenciosa pela dignidade. As narrativas nesta página integram conjunto de 30 minicontos, os chamados "Contos breves". A tradução de "Eu vi as tamareiras" é de Maria Carolina Gonçalves, doutoranda pelo Programa Letras Estrangeiras e Tradução (PPG-LETRA) da USP e bacharela em Letras com habilitação em Árabe, também pela USP. A tradutora residiu no Egito entre 2018 e 2019, onde estudou árabe padrão moderno e árabe dialetal egípcio no Instituto Francês do Cairo.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Sobre a autora
Radwa Ashour (foto) nasceu em 1946 no bairro de El-Manial, no Cairo. Foi romancista, tradutora, crítica literária e professora de literatura na Universidade Ain Shams, no Cairo, onde chefiou o Departamento de Inglês entre 1990 e 1993. Obteve o bacharelado e o mestrado na Universidade do Cairo e concluiu, em 1975, o doutorado em Literatura Afro-Americana na University of Massachusetts, Amherst (EUA). A resistência palestina ocupou um lugar de destaque em sua escrita, interesse possivelmente fortalecido por sua relação amorosa e posterior casamento com o falecido poeta palestino Mourid Barghouti. A obra publicada de Ashour inclui romances, novelas, contos, memórias, ficção autobiográfica, ensaios críticos e estudos acadêmicos. Em 2011, Radwa Ashour recebeu o Al Owais Prize, em reconhecimento pela importância literária e cultural de sua obra no mundo árabe. A escritora morreu em 2014.
"Eu vi as tamareiras"
- De Radwa Ashour
- Tradução de Maria Carolina Gonçalves
- Tabla Editora
- 128 páginas
- R$ 73,00