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Um livro que nasce do encontro entre uma amizade literária, uma reflexão sobre o envelhecimento feminino e décadas de leitura da literatura escrita por mulheres. Assim é “Círculos onde envelheço” (Tercetto), livro com poemas de Adriane Garcia e Thaís Guimarães em homenagem a escritoras brasileiras com lançamento neste sábado (27/6) em Belo Horizonte. Por meio de versos urdidos com rigor e precisão, as duas estabelecem diálogos com autoras de diferentes origens e séculos, unidas pelo desejo da escrita.
Das pioneiras Maria Firmina dos Reis (1822-1917) e Narcisa Amália (1852-1924) a nomes que estão em plena atividade como Adélia Prado e Conceição Evaristo, as poetas contemporâneas fazem uma interlocução com a vida e obra de 34 autoras. “Em determinado momento, nos perguntamos como as escritoras que admirávamos haviam vivido ou elaborado a experiência do envelhecimento. A partir daí surgiu a ideia do livro e começamos então a fazer uma pequena lista afetiva de escritoras brasileiras que nos formaram”, lembram, em entrevista ao Pensar do Estado de Minas.
Responsável pela revisão do livro, a poeta e ativista Luciana Tonelli afirmou que ainda não fazia ideia do “engenho que sustentava o projeto”. “Imaginava um fértil diálogo entre duas poetas de dicções marcantes, mas o que me aguardava ia além: o gesto inicial parte das afinidades eletivas das autoras para adensar a rede da poesia assinada por mulheres, ancorando liricamente a experiência feminina em suas diversas facetas, por uma extensa linha do tempo”, destaca. “Impossível atravessar essas páginas sem ser tocada de alguma maneira.”
Tonelli tem razão. Por meio de leituras e releituras, as poetas teceram suas criações em “inusitada rede literária”, como destaca a professora Constância Lima Duarte, na apresentação do livro. “A leitura de um texto conduz a outro, pleno de novas significações. Há momentos em que as poetas parecem assumir a persona da homenageada, ou, pelo viés biográfico, deixam registrado um sugestivo biografema nos textos. Mas nada disso impede que cada uma sustente, a seu modo, a própria dicção literária”, observa Constância.
Se os versos aludem eventualmente a episódios biográficos ou temas recorrentes nas criações das homenageadas, as autoras fazem questão de ressaltar: “Não fizemos um livro de pesquisa, mas um livro de poesia. São os poemas que precisam falar por si.” Apresentados cronologicamente, de acordo com o ano de nascimento das escritoras, os versos reunidos em “Círculos onde envelheço” prescindem de notas bibliográficas ou informações adicionais para serem apreciados. Têm seiva e suor, rugas e riscos, cicatrizes e segredos.
Movidas pela miragem de encontros, Adriane Garcia e Thaís Guimarães mergulham em um abismo de espelhos e unem palavras capazes de estender os fios de vidas esquecidas. “Não podemos parar/nunca repousar/ nem por um instante/ não há descanso quando se ousa o gozo”, lembra o poema de Thaís dedicado a Sônia Queiroz. “Quando tudo tiver terminado/Continuará eterna a sua canção/Na moldura de outro reflexo”, sentencia Adriane não somente para Cecília Meireles, mas para todas as mulheres que, por meio da escrita, conseguiram superar o apagamento e ir além do fim.
Leia a entrevista de Adriane Garcia e Thaís Guimarães ao Pensar do Estado de Minas.
Como nasceu a parceria de vocês para este livro?
Estávamos há um tempo conversando sobre nosso próprio envelhecimento, principalmente sobre questões de menopausa, climatério e reposição hormonal, a partir da nossa diferença geracional. Falávamos das transformações do corpo, das mudanças na percepção de nós mesmas e dos desafios que ainda cercam o envelhecimento feminino numa sociedade que valoriza excessivamente a juventude.
Em junho de 2023, surgiu a ideia de realizar um projeto conjunto de escrita e percebemos que esse tema já ocupava um lugar importante em nossas reflexões. Em determinado momento, nos perguntamos como as escritoras que admirávamos haviam vivido ou elaborado a experiência do envelhecimento. A partir daí surgiu a ideia do livro e começamos então a fazer uma pequena lista afetiva de escritoras brasileiras que nos formaram.
Assim nasceu “Círculos onde envelheço”: do encontro entre uma amizade literária, uma reflexão sobre o envelhecimento feminino e décadas de leitura da literatura escrita por mulheres.
Por que definem como ‘colaborativa’ a escolha das homenageadas? Como foi o processo? Nomes que gostariam de ter incluídos ficaram de fora?
Definimos como colaborativa porque a escolha das escritoras não se deu por disputa, hierarquia ou divisão rígida de territórios. O projeto nasceu justamente da confiança entre nós duas. Cada uma trazia nomes de autoras com as quais desejava dialogar, e a outra acolhia a escolha, desde que ela estivesse dentro do recorte que havíamos definido: escritoras brasileiras que tivessem vivido ou estivessem vivendo o envelhecimento.
O processo teve algo de lúdico, quase como um jogo de dizer nomes alternadamente. Em muitos casos, uma autora lembrada por uma poderia estar na ponta da língua da outra. Mas isso não se colocava como problema. O que importava era a complementaridade do conjunto, não quem escreveria em diálogo com quem. Essa decisão, que foi muito natural, já era em si mesma a antítese da competição.
Num primeiro momento, chegamos a algo em torno de dez nomes. Na etapa seguinte a 26 nomes, seguindo o critério inicial: escritoras que estavam na nossa memória imediata. Nesse momento, decidimos enviar o livro, ainda inacabado, para o Prêmio Cidade Belo Horizonte e ficamos finalistas. Uma sinalização que nos animou.
Durante o processo, cada uma se voltou para suas escolhas. Revisitamos textos, mais atentas às marcas de linguagem, aos temas, aos procedimentos formais, mas também à vida das escritoras homenageadas. Não realizamos um trabalho exaustivo de pesquisa. A releitura das obras das escritoras teve como ponto de partida as nossas próprias estantes.
Só depois percebemos que aquela lista poderia também se desenhar como uma linha do tempo da literatura de autoria feminina no Brasil, pela representatividade simbólica dos nomes escolhidos.
Decidimos formatar o projeto e fomos selecionadas no edital Minas Literária do Fundo Estadual de Cultura para finalização e publicação do livro. Trouxemos outros nomes de escritoras, e foi preciso também estabelecer um limite formal para que a obra encontrasse sua arquitetura.
Muitos nomes ficaram de fora, inevitavelmente. Muitas outras escritoras poderiam estar no livro. Consideramos que elas estão presentes de alguma forma no simbolismo da empreitada a que nos propusemos: a construção de um livro que, além de um diálogo entre nós, fosse também uma espécie de convocação à nossa memória leitora.
Como se deu a “construção entre pontes e linguagens”, como afirma Constância Lima Duarte?
Os poemas foram trabalhados em uma simultaneidade de prismas, já que revisitamos os textos das escritoras também atentas a várias outras questões que extrapolam a passagem do tempo.
São várias as pontes, portanto. Em alguns poemas, há diálogo com procedimentos formais e imagens recorrentes na obra da escritora homenageada; em outros, a aproximação se dá pela vida, por uma posição diante do mundo ou por uma questão ligada ao corpo, ao desejo e à escrita.
Ao mesmo tempo, há a presença das nossas próprias personas-líricas, cada uma com sua dicção. Por isso, há uma circulação entre tempos diferentes: as escritoras homenageadas, as obras que elas deixaram, as nossas leituras e a nossa própria experiência como mulheres e poetas contemporâneas.
Nesse sentido, os poemas de “Círculos onde envelheço” são pontes entre tempos diversos, entre as escritoras e as poetas que as homenageiam, entre a leitura e a criação literária.
A circularidade do livro vem daí: uma voz chama outra, uma leitura conduz a outra, e essas linguagens continuam se desdobrando em um círculo que não se fecha, porque não termina.
O livro é dedicado a “todas as escritoras que nos precederam”. O que une a trajetória das homenageadas?
O que une essas escritoras — e também as une a nós — é, sobretudo, o desejo da escrita. Cada uma, a seu modo, encontrou na literatura uma forma de existir, pensar, nomear o mundo e afirmar uma voz própria.
São trajetórias muito diferentes, atravessadas por épocas, estilos, origens e experiências diversas. Mas há entre elas uma força comum: a persistência em escrever apesar dos obstáculos impostos por uma sociedade historicamente machista e, muitas vezes, misógina.
Muitas dessas autoras enfrentaram apagamento, desconfiança crítica, silenciamento ou leitura insuficiente de suas obras. Ainda assim, escreveram. E é essa permanência que nos interessa: a literatura como modo de atravessar o tempo, de resistir ao esquecimento e de chegar até outras mulheres que escrevem depois.
Entre os diálogos estabelecidos, quais foram pessoalmente os mais desafiadores?
Adriane Garcia: Para mim, foi desafiador escrever sobre as prosadoras, pois eu não tinha o modo como elas escreviam poemas como ponto de partida. Então precisei seguir por outros caminhos: fatos biográficos, temas das obras que li e até mesmo os aprendizados que essas autoras me deixaram.
Thaís Guimarães: Para mim, o maior desafio foi dialogar com escritoras contemporâneas, de uma geração anterior à minha, como Alice Ruiz, Leila Míccolis, Branca Maria de Paula e Sônia Queiroz. Aqui, havia uma delicadeza a mais: algumas dessas autoras fazem parte do meu próprio campo de convivência. Isso exigiu de mim preservar um distanciamento entre a admiração pessoal e o gesto poético, de forma a transcender a homenagem afetiva e alcançar uma realização de linguagem.
O que descobriram durante a pesquisa que não sabiam sobre algumas das homenageadas?
Adriane Garcia: Descobri Chrysanthème em plena escrita do livro. Li “Enervadas”, publicado pela Carambaia, quando faltava apenas um poema para eu escrever e eu já quase havia decidido que seria sobre Julieta Bárbara, poeta modernista. Mas fiquei tão fascinada pela obra de Chrysanthème que acabei escrevendo sobre ela e incluindo Julieta em uma das estrofes.
Thaís Guimarães: Vou mencionar aqui Narcisa Amália, poeta que conheci em 1982, durante uma pesquisa para o CNPq. Ela publicou apenas um livro, “Nebulosas”, há 154 anos. Na época, final do século 19, foi caluniada por um ex-marido, que a acusou de ter recebido seus versos de um “poeta desconhecido”. Reencontrá-la agora me fez, não descobrir, mas, sim, dimensionar o peso da violência contra sua autoria como forma de apagamento e como certas questões enfrentadas por escritoras dos séculos passados ainda ressoam no presente.
Como o envelhecimento feminino é tratado pela sociedade? Ainda há muito preconceito e/ou invisibilização? E na literatura?
O envelhecimento feminino é ainda uma espécie de tabu, é como se não se pudesse falar dele a sério, só por meio de piadas depreciativas. Falar sobre o fim da idade reprodutiva, o climatério, a menopausa, a sexualidade da mulher que envelhece é um desafio.
Há uma indústria inteira sustentada pela negação do envelhecimento feminino. Contra rugas, flacidez e cansaço, oferece-se a promessa de juventude prolongada, vigor, desempenho e artifícios de rejuvenescimento. Tudo nos empurra para a simulação de uma juventude permanente.
Na literatura, essas questões também aparecem pouco, ou aparecem de modo lateral. É um silêncio parecido com o que é lançado sobre fenômenos naturais como menstruação ou masturbação feminina. A literatura ainda traz muito pouco essas temáticas, mas agora, com mais mulheres escrevendo e publicando, certamente mais livros abordando essas questões virão.
Por que levar também o tema do envelhecimento para o livro?
O envelhecimento, a partir do olhar da mulher que envelhece, ainda é pouco presente na literatura. Há muitas representações da mulher jovem, da maternidade, do amor, do erotismo, da perda, mas a experiência da mulher que envelhece, com suas transformações físicas e simbólicas, ainda aparece de forma escassa ou lateral.
A arte registra o seu tempo, e talvez estejamos registrando uma consciência deste tempo. Apesar de toda a indústria da juventude e da pressão para que as mulheres simulem uma permanência artificial na juventude, muitas estão dizendo não a esse imperativo.
Levar esse tema para o livro foi também afirmar o envelhecimento como lugar de linguagem, memória e criação.
Das trajetórias de vida das homenageadas, quais as que consideram mais inspiradoras? E quais delas foram as mais historicamente “apagadas” pela sociedade em suas épocas?
Todas elas são exemplares, mas Maria Firmina dos Reis é um caso extremo de apagamento. Foi a primeira mulher a publicar um romance no Brasil, autora também de livro de poemas e de conto, além de ter escrito o primeiro romance abolicionista brasileiro. No entanto, não aparecia nos livros escolares em que estudamos, sequer era citada. Mulher negra, neta de escravizada, fundou a primeira escola mista do Maranhão e, ainda assim, foi excluída do cânone literário. Somente a partir dos anos 2000 foi efetivamente resgatada por estudos acadêmicos e passou a compor currículos escolares.
Outro caso importante é o de Gilka Machado, que não foi propriamente apagada da mesma forma, mas sofreu forte enquadramento moral pela ousadia erótica de sua poesia. Sua obra foi muitas vezes lida mais pelo escândalo que causava numa sociedade patriarcal. São formas diferentes de silenciamento: em uma, a exclusão quase total; em outra, a redução crítica de uma voz poética ao incômodo que ela produziu em seu tempo.
Podemos dizer que “Círculos onde envelheço” é uma contribuição para o debate a respeito do apagamento histórico da produção literária feminina?
Sim, certamente. Mas nossa intenção principal, desde o início, foi exercer nosso ofício de poetas. Portanto, não fizemos um livro de pesquisa, mas um livro de poesia. Ao trazer para o presente escritoras de diferentes épocas, algumas muito conhecidas e outras ainda pouco lidas, o livro participa desse debate e toca diretamente o tema do memoricídio, como bem nomina a pesquisadora Constância Lima Duarte. Mas essa contribuição se dá pela poesia. São os poemas que precisam falar por si. Por mais que se explique o projeto, a força do livro depende da leitura do outro, desse encontro em que a voz do poema se desprende de nós e encontra novas escutas. O que vem depois, não sabemos. Mas seguimos lançando nosso grito e tecendo manhãs cada vez mais possíveis, para que outras vozes, de outras mulheres, possam também ser escutadas, reconhecidas e relançadas no tempo.
“Círculos onde envelheço”
De Adriane Garcia e Thaís Guimarães
Editora Tercetto
156 páginas
R$ 60
Lançamento neste sábado (27/6), das 11h às 14h, na Livraria Ramalhete (Rua Pernambuco, 1.000, Savassi, BH)
Sobre as autoras
ADRIANE GARCIA
Nascida em Belo Horizonte em 1973, a poeta e ensaísta tem diversos livros de poesia publicados desde sua estreia, em 2013, com “Fábulas para adulto perder o sono” (Prêmio Paraná de Literatura), entre os quais se destacam “Eva-proto-poeta” e “A bandeja de Salomé”. Recentemente, publicou “Atlas de Anatomia” (Caos e Letras).
THAÍS GUIMARÃES
Nascida em Fortaleza e radicada em Belo Horizonte, Thaís tem graduação em Letras pela UFMG em 2001. Poeta, escritora para a infância e editora, estreou na literatura em 1983, com “Jogo de cintura”. Quarenta anos depois, publicou “Jogo de Facas”. Vencedora do Prêmio Off-FLIP, em 2019, com “A poetisa”, poema de viés feminista, é também autora de obras infantis como “Bom dia, Ana Maria”, vencedor do Prêmio Jabuti (1988), e “Senhor Relógio”.
Depoimentos sobre o livro
“Rede literária que cruza geografias e séculos”
Daniella Zupo
“34 poemas, duas autoras. Mas o cálculo não é exato. Entre eles, multiplicam-se as vozes de várias escritoras. Adriane Garcia e Thaís Guimarães assumem, neste livro, outras dicções literárias — de “predecessoras que as iluminaram ou forjaram” — em poemas que versam sobre o envelhecimento, tema tão inevitável quanto incômodo em uma sociedade que ainda condena as mulheres à juventude eterna. Somos conduzidos, nesta rede literária que cruza geografias e séculos, ao sagrado lugar da mulher, que é onde quer que ela queira estar. Em Círculos onde envelheço, esse lugar é a poesia.”
“Combinatória de afetos, linguagens e inquietações”
Maria Esther Maciel
“Adriane Garcia e Thaís Guimarães reinventam, neste livro lindo e surpreendente, 34 escritoras brasileiras nascidas entre 1822 e 1953, entrelaçando, por vias imprevisíveis, passado e presente, numa combinatória de experiências, afetos, linguagens e inquietações. As duas autoras — poetas contemporâneas de primeira linha — escavam o tempo com destreza e sensibilidade, em busca dos resíduos do que já não existe, mas permanece como memória. Num jogo de afinidades e diferenças com as vozes que homenageiam, elas trazem à luz — cada uma com sua própria dicção — a sabedoria das mulheres maduras, os ensinamentos do corpo que envelhece e a sensibilidade que se renova nos fluxos e refluxos que compõem o ofício da vida.”
ADRIANE GARCIA em diálogo com
MARIA FIRMINA DOS REIS (1822-1917)
De tudo que vi
Fiz
Um retrato
De meu mundo
(livro)
Tudo contra
Ainda assim o dei
Ao lume
(pari)
Aprendi e ensinei
Rica como poucas
Puderam
(livre)
Todo tempo
De ruir grilhões
(ruí)
Cega e pobre
Voo
Primeira (entre as primeiras).
Hilda Hilst (1930-2004)
Leocádia, velha demais para
Intelectualismos que não diminuem
A indecência do mundo
Prefere ir trepar
Pagar bons mancebos
Que dinheiro é o melhor creme para rugas
A secretária, de quem só lhe interessam
Os peitinhos adolescentes feito iscas
Chama-se Joyce (é uma perseguição intelectual)
Mas nada disso importa
Importa escrever até o fim
Ganhando o gozo para vencer a morte.
Cecília Meireles (1901-1964)
A face não está triste nem magra
Nela se acumulam
Os meus tantos erros vincados
Também perdi em algum espelho
Força, rimas e alma
Mas às vezes me flagro cantando
Sua melodia infinda
Enquanto os dias fingem
Não ser provisórios
Quando tudo tiver terminado
Continuará eterna a sua canção
Na moldura de outro reflexo.
Conceição Evaristo
Suspeito a cor dos olhos
De minha mãe
Algum castanho arrastado
Castanhódio-magoado
O meu é castanho-ressentido
Vingativo, a depender da luz
Pode ser castanho-amoroso
Constantemente úmido
A cor dos olhos de minha avó
Também era alguma derivação de
Castanho, um castanho seco
Castanho-abandono
O tempo não permite
Qualquer exatidão
Prefiro que minhas filhas falem
Sobre a cor dos próprios olhos.
THAÍS GUIMARÃES em diálogo com
Adalgisa Nery (1905-1980)
Cerro os olhos, encerro o visto
O que é externo, retenho
Na espiral dos milênios
Indago a alma do pensamento
Se a razão tem espírito
Onde se divide o tempo dentro da mente?
Tempo vil, ordinário
Que derrota as horas e os dias
Sofrimento em movimento seco
Desintegra meu ser dissidente
A vertigem de um eco
Num abismo de espelhos
Adélia Prado
Não. Deus não suporta a falsa humildade
por isso digo que somos imensos
e não perdemos nada ao revelar
nosso mundo, sempre pequeno
Aos noventa anos
qualquer um sabe carregar sua cruz
com verdade
qualquer um sabe a importância de enigmas
não respondidos
que as manchas contadas em nossas mãos
são estrelas-esfinge
e que as carícias de amor
não exibem vergonha em nenhuma idade
Maria Lúcia Alvim (1932-2021)
Provaste toda doçura
dos frutos deiscentes
e dos pomos
das sâmaras
das bagas carnosas
encerrando flores em sementes
O ovário viçoso
fecundou palavras
abriu-se naturalmente
dispersando o gozo
pelos bichos soltos
na esperança de povoar a terra
Morangos silvestres
amoras e tomates nus
desidratados a céu aberto
revolveram na língua túrgida
o gosto vermelho
ácido
Quisera tanto saber
se o coração inteiro seguiu
incólume
corroído
Orides Fontela (1940-1998)
Qualquer flor se desfolha
O ser que se ergue
atravessa a manhã
um caule aprumado
ao vento que baila
Qualquer flor
a que se olha
esconde uma ideia
sem perfume
que exaure o pensamento
Qualquer flor também
palavra
que se ergue na aspereza
Construção árdua:
a penúria em pétalas
quebradas
O talo vergado em mágoas
Qualquer flor possível
em tempo de destruição
será tempo
desvivido em beleza
Sem lamentos
A pele lúcida
será a mesma
Todas as homenageadas
Maria Firmina dos Reis. Narcisa Amália. Chrysanthème. Gilka Machado. Cecília Meireles. Henriqueta Lisboa. Alaíde Lisboa. Adalgisa Nery. Helena Kolody. Carolina Maria de Jesus. Dora Ferreira da Silva. Lygia Fagundes Telles. Clarice Lispector. Laís Corrêa de Araújo. Hilda Hilst. Renata Pallottini. Ruth Rocha. Lygia Bojunga. Maria Lúcia Alvim. Olga Savary. Adélia Prado. Marina Colasanti. Lélia Coelho Frota. Maria do Carmo Ferreira. Orides Fontela. Maria Valéria Rezende. Líria Porto. Alice Ruiz. Branca Maria de Paula. Conceição Evaristo. Elvira Vigna. Leila Míccolis. Márcia Denser. Sônia Queiroz.
