“Buscando apartamento”
A pele em que habito
Coberta de saudade
A pele em que habito
Encontrando a língua do sentir
Profunda feito ferida de coração
A pele em que habito
Nunca abandona meus afetos
A pele em que habito
Longe, Longe, perto
A pele em que habito
Mais colorida que o preto
*
“Perguntas para respostas”
Existem poucos poemas
da minha gente
pouquíssimos
E nenhuma história
Porque as letras se afogam
se afogaram
no mar
O mar morto está em toda parte
Gritos de afirmação de vida
Da fundura mais profunda
Só se curam sob a luz da ancestralidade
Tempestade furiosa na superfície
Silêncio na profundeza
O silêncio que precede o silêncio
Viver
Não é para todo mundo
Viver,
só quem morre pode viver,
diz quem sobrevive
Por que você escreve
as histórias da sua gente?
Porque preciso
coletá-las
pescá-las
Letra
por letra por letra
Tirá-las do mar
Do fundo do (a)mar
*
“Poesia”
Poesia embriaga
Faz (a gente) vaguear
Pensamentos dançam
Bem singelos
Bem ternos
Palavras ganham asas
E o silêncio entre as linhas é então preenchido
Poesia abre portas e janelas
Farpas e
Vislumbres
Cada palavra é uma viagem cheia de alma
Poesia ajuda a aguçar a liberdade em si mesma
Ela é quieta
É barulhenta
É real
É brutal
Ela embriaga
Ela é minha
Poesia é minha língua.
SOBRE A AUTORA E O LIVRO
Nascida em Berlim em 1978, a poeta Stefanie-Lahya Aukongo representa uma tradição de literatura de autoria negra na Alemanha. “Grávida, a mãe namibiana de Lahya Aukongo foi levada à Alemanha Oriental para tratamento médico, após ter sido gravemente ferida durante a Batalha de Cassinga, em Angola, em maio de 1978. Aukongo nasce em setembro do mesmo ano com sequelas de estilhaços de granada e fica aos cuidados de uma família de acolhimento alemã. Em 1980, a criança e sua mãe são deportadas para Angola, mas, ainda doente, Aukongo volta a Berlim em 1981 para seguir com o seu tratamento, cres cendo, assim, na Alemanha. Em 2009, publica sua autobiografia – Kalungas Kind [Criança de Kalunga] –, narrando sua história”, conta Gislayne Tavares, na apresentação da edição brasileira.
Além da poesia, Stefanie-Lahya fotografa e faz curadoria do One World Poetry Night, em Berlim, onde poetas se apresentam em encontros destinados à Spoken Word (poesia oral). Para Gislayne Tavares, a tradução de “Nada além de flores” para o português “é de extrema importância, porque permite a expansão de diálogos entre poéticas diaspóricas contemporâneas. Desde o meu primeiro contato com os textos de Aukongo, percebi que existia muito de escrevivência ali. Esse conceito de Conceição Evaristo joga com as palavras “escrever”, “viver”, “ver-se” – escrita e vivência. Nesse sentido, a escrita de experiências da diáspora nunca é somente individual; elas emergem de vivências de um povo”, afirma a especialista.
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“Por isso, quando Aukongo poetiza suas experiências de racismo, seus processos de cura pela poesia ou o reencontro com sua ancestralidade, isso me toca profundamente – a mim, mulher negra da periferia de Guarulhos, São Paulo”, afirma a graduanda em letras (português e alemão) pela Universidade de São Paulo (USP). “A poética de Aukongo rompe fronteiras nacionais alemãs e dialoga com todas as diásporas, mesmo as de fora do continente europeu. E as intromissões poéticas de ‘Nada além de flores’ atravessam sujeitos diaspóricos de todo o Brasil, e sei que o fazem com uma potência curativa”, complementa Gislayne, ao refletir sobre a obra da escritora, poeta e ativista namibiana-alemã.
No início da semana, a autora apresentou o livro em eventos realizados em São Paulo e em Brasília.
“NADA ALÉM DE FLORES”
De Stefanie-Lahya Aukongo
Tradução de Jess Oliveira e Raquel Alves
120 páginas
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R$ 59,40
