POESIA

Luciany Aparecida faz costura delicada de história e ficção em 'Aziri'

Escritora baiana aprofunda fabulação de mulheres negras traficadas no século 19 e apresenta a protagonista de seu próximo romance

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Edma de Góis - Especial para o Estado de Minas

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“Isso não é sonho, Aziri, isso é água doce que retorna para te relembrar quem somos”. A voz que se dirige à personagem título da mais recente plaquete da escritora baiana Luciany Aparecida atravessa águas, seringueiras, espaços e tempos para reivindicar existências. E o faz ao passo em que outras vozes, obras e escritoras têm assumido a fabulação como método para contar sobre uma experiência da qual só temos acesso a fragmentos, o tráfico de africanos, recentemente declarado o mais grave crime contra a humanidade pela Organização das Nações Unidas (ONU). 

Se em “Mata doce”, romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2024, Luciany Aparecida nos apresenta os efeitos do racismo e do patriarcado no interior da Bahia, por meio da história de Maria Teresa, em sua última imersão no terreno da poesia, a autora recua o século e nos apresenta uma mulher que, contra sua vontade, cruza o Atlântico e é “cumeeira do Novo Mundo”, conforme anunciado na penúltima das onze partes da plaquete. O poema também antecipa aos leitores a protagonista do próximo romance de Luciany, “Tinta da Bahia”, a ser lançado em 2027 pela editora Alfaguara. 

“Aziri” é a segunda plaquete da trilogia iniciada por “Macala” (2022), escrita a partir da fotografia “Mulher negra da Bahia” (1885), de Marc Ferrez, e que se encerrará com “Crioula”, inédita e escrita a partir do retrato de um Carte cabinet. O poema e a imagem de Aziri Dagwa contam da separação de duas irmãs, durante o tráfico de escravizados no século 19, utilizando como base a fotografia “Africana da Nação Mina”, de Christiano Junior, datada de 1864-1865. Capturada criança na região do rio Níger, no Mali, Aziri é embarcada na Costa da Mina, em Uidá, Benim, no Porto Novo, na Porta do Não Retorno. À época, Uidá era um núcleo urbano semelhante às cidades do Brasil Colônia no que se refere às questões mercantis. Chegando ao Brasil, a menina, como tantas outras pessoas que tiveram seus nomes trocados, foi batizada como Francisca Maria, em São Salvador. Adulta, em Valença, Aziri passou a ser conhecida como Chica d’Água.

Luciany investe em um léxico afiado que evoca escritoras de outros tempos e geografias para a sua obra, como a poeta moçambicana Noémia de Sousa (1926-2002), escolhida para a epígrafe da publicação, mas que também é presença na segunda parte do poema em que lemos: “essa centelha passa a circular o corpo de nossa mãe, / uma raiz de orquídea suspensa no ar / trançada entre galhos e flores roxas de seringueira.”. O léxico, assim como o trabalho de nomeação feito por Luciany, sempre interessados e endereçados, abrem caminhos de interpretação do poema. Aziri é um vodum, uma força do mundo espiritual ligada às águas para a nação Jeje do Candomblé. No poema, uma constelação semântica é formada a partir desse vodum: “água-viva”, “água doce”, “casa-margem do rio”, “corpo d’água”, lâmina d’água. Além do nome próprio, as marcas (escarificações) na face da mulher fotografada remetem à iniciação religiosa. Em longa pesquisa a respeito do Candomblé Jeje na Bahia, o antropólogo Luis Nicolau Parés explica que Jeje originariamente se referia a um grupo étnico minoritário em Porto Novo e que, em razão do tráfico de pessoas, incluiu outros grupos com o passar do tempo. O pesquisador esclarece também que o termo “mina” passou a incluir quase todos os povos do Golfo do Benim e corresponde aos povos Jeje na Bahia. Assim, Aziri e o título da fotografia usada por Luciany trazem em paralelo uma referência religiosa e étnica.

Em comum entre personagens e obras da autora, reencontramos a costura delicada de história e ficção, tendo a fabulação crítica, termo cunhado pela ensaísta e escritora Saidiya Hatman, como linha mestra. Luciany Aparecida vale-se da fabulação para criar possibilidades de existência de mulheres negras, separadas pelo sistema colonial. Cabe à fabulação crítica contar “como deve ter sido”, sem se fechar em uma única possível versão. “Aziri”, portanto, acentua o movimento da autora de escrever “contra o arquivo”, ao recuperar vozes de mulheres negras, capturadas e vendidas para o tráfico, e que aos poucos são vistas ocupando as novas páginas da literatura brasileira.

EDMA DE GÓIS é professora visitante na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), doutora em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB) e jornalista.

“Aziri”

De Luciany Aparecida

Círculo de Poemas

32 páginas

R$ 49,90

TRECHO:

III

irmã,

não quis que eles me arrastassem

juro que clamei aos trovões

bati neles-em-mim com meus braços fechados

ainda preservo na água-viva do meu juízo

a escuta do teu gemido

mas agora, mana,

façamos morada nesta achega,

é tempo de regresso

X

na terceira margem desperto

de tamanhas noites insulares

faz frio, teu corpo vento

é cumeeira do Novo Mundo

não sei por que chorei tanto

se as ramas que brotam de nossas cabeças

se alastram por estas terras

afirmando que sim,

na lama viva

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