“Tudo aconteceu rápido demais. Ou devagar demais.” O início da demência de uma mulher cheia de vida é narrado em “Por que são tão lindos os cavalos?”, romance autobiográfico de Julieta Correa, em capítulos curtos. Alguns mal preenchem uma página. E as lacunas se juntam a lapsos, silêncios, anotações esparsas e fragmentos dos diários de Sari, a mãe da narradora, falecida em abril de 2024. O livro registra as reações ao ocaso de uma pessoa “que vai se desintegrando aos poucos”, mas também é a investigação de uma perda e o memorial de uma existência luminosa.
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“Revisar o passado, reconstruir a história, reter tudo aqui e agora. Não faz sentido nenhum. Se não o fizéssemos, daria na mesma. Escrever isto aqui. Não tem consequências para os demais, muito menos para Sari. Não faz diferença nenhuma para ela. Mas eu quero entender (...). Vai acontecer comigo também?”
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Nascida em Buenos Aires em 1989, Julieta Correa fez carreira em comunicação cultural e trabalha no Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba). Ela estará na programação principal da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), de 22 a 26 de julho, no Rio de Janeiro. Divulgará a edição brasileira do primeiro romance, lançamento da coleção Fábula, da Editora 34. “Desde que Samuel Titan Jr., editor da coleção, me mostrou o selo do cavalo crioulo que aparece na capa, soube que ficaria muito linda. Mas, além disso, foi muito emocionante para mim o trabalho com Mirella Carnicelli, que fez a tradução. Apesar de eu não conhecer bem o idioma, desde o primeiro momento a sensibilidade e a graça dela me deram muita confiança, e adorei ter alguns encontros para tirar dúvidas”, conta a autora, em entrevista ao Pensar do Estado de Minas.
Reproduzidos na capa em selos de um peso, os cavalos do título se referem a uma das lembranças mais marcantes da mãe, preservadas em diário. “Quando monto um cavalo, vivo minha versão mais feliz e genuína. Absorta na contemplação e observação do que me rodeia, da natureza”, escreveu Sari quando deixou Buenos Aires e foi morar em um sítio em Chascomús, a mais de 300km da capital argentina. “Ela gostava da gente do campo, o jeito de falar e os assuntos. O tempo. Tirava fotos, tomava notas, desenhava. O lugar onde era mais feliz (...). Passou quase três anos mais tranquila, acordando com o nascer do sol para cuidar dos animais. Agora que não podemos mais viajar, leio para ela alguns fragmentos dos diários desses anos mais luminosos”, narra a filha.
Descrita como uma mulher “graciosa, alerta, afiada, mordaz”, Sari deixou dezenas de cadernos com anotações e desenhos registrados durante mais de quarenta anos. “Ela brincava com as palavras, trocava-as, virava-as do avesso e contava as melhores histórias, piadas, anedotas, disparates”, conta a autora.
A alternância da descrição de instantes felizes om os mais sombrios, alguns deles marcados por sucessivas internações, traz um diferencial para a onda de lançamentos que assola a literatura contemporânea nos últimos anos com narrativas autobiográficas sobre perdas de familiares próximos. “É preciso ajustar um pouco as rédeas do luto”, constata Correa, no livro. “Sem lugar para a autocompaixão, a filha de Sari registra o momento em que a cabeça de sua mãe se desorganiza e perde as palavras, ao mesmo tempo em que vai armando o relato que Sari não deixou de contar e que, tragicamente, não pôde contar até o fim”, afirma a escritora argentina Sofía de la Vega, na apresentação de “Por que são tão lindos os cavalos?”. “Em uma época em que o luto é protagonista de tantos relatos, Julieta Correa nos traz um livro sobre a vida.”
Se a memória da mãe foi se apagando como uma chama (“Me recuso a acreditar que tudo o que ela era e sabia desapareceu completamente”) por causa da demência (“Doença que não tem como contar-se a si mesma”), a autora encontrou na escrita a possibilidade de permanência. “Pensar nas palavras, amá-las, desfrutá-las é um lindo legado e uma forma de conversar secretamente com ela”, afirma a autora ao Pensar. Afinal, como escreve no livro, mesmo quando dão as costas ou “se misturam todas na boca como comida na barriga”, as palavras são chaves que abrem significados.
Leia, abaixo, a entrevista de Julieta Correa ao Estado de Minas.
Como surgiu “Por que são tão lindos os cavalos”?
Eu sempre escrevi um diário. Antes, agora e, durante a pandemia, talvez um pouco mais (como muitas outras pessoas). O que aconteceu naquele ano foi que a minha mãe começou a ter comportamentos cada vez mais desconcertantes e preocupantes, e eu fiz muitas anotações sobre isso. Em algum momento, não me lembro quando, abri um novo documento de Word e coloquei ali todas as coisas que tinham a ver com ela (as frases diferentes, as idas aos médicos), mas também as leituras que fiz sobre doenças e luto. Essa foi a origem de um texto no qual trabalhei muito e ao qual eu voltava permanentemente, que depois se transformou em livro.
Como definiu a estrutura do livro, com capítulos muito curtos?
Acho que cada vez mais se escreve e se lê de maneira fragmentada. Isso tem a ver, claramente, com as redes sociais e o ritmo interrompido do consumo de hoje. Em relação a isso, mas talvez também porque foi o que consegui fazer, fui escrevendo em pequenos blocos de texto separados por asteriscos que continham cenas, ideias (na melhor das hipóteses), lembranças, etc. A decisão de colocar cada um desses blocos em uma página foi da editora, Marina Yuszczuk, e acho que foi muito boa. Além disso, posso dizer que, em algum ponto, a estrutura emula as características de “lacunas” e brancos que um cérebro com demência pode ter, mas isso aconteceu de uma maneira mais misteriosa do que deliberada.
“Me recuso a acreditar que tudo o que ela era e conhecia tenha desaparecido por completo”, você escreve. O livro é o resultado desta recusa?
Certamente é um dos motores do livro. Tentar que a memória dela não desapareça, tentar uma continuação de seus diários, tentar entender, tentar prestar-lhe uma homenagem, tentar continuar conversando.
O que mais a impressionou nos diários escritos por sua mãe, Sari?
Os diários de Sari ocupam dezenas de cadernos que aparecem por toda a casa e dos quais eu li apenas alguns e por alto. Estão cheios de segredos e escuridão, além de histórias, coisas sem importância e comentários luminosos. Desde que ela morreu, em abril de 2024, não voltei a abri-los. Mas há algo que me impressionou especialmente, respondendo à sua pergunta, e é uma cena breve na qual ela diz que gostaria de viver em um mosteiro dentro de sua cabeça e não sair mais do quarto. Quando li, me pareceu uma espécie de premonição estranha. Compartilhei com meus irmãos e depois foi a primeira coisa que decidi incluir no livro.
“Enquanto eu escrever, estamos conversando.” Por que você decidiu compartilhar essa conversa? O que mudou na sua opinião sobre o que aconteceu com a sua mãe depois de terminar de escrever o livro?
Depois de ter um encontro de clínica com a Marina, ela me propôs publicar o texto como livro. Sari ainda estava viva, embora muito mal, e eu não tinha pensado em publicar o que vinha escrevendo. Eu até faria isso eventualmente, mas naquele momento ainda estávamos com os cuidados e a tristeza muito próximos, então me surpreendeu. Quis publicar mesmo assim e a proposta dela me deu muita felicidade. Por quê? Suponho que por uma mistura de orgulho e narcisismo, com o interesse de que outras pessoas lessem, e curiosidade. Tinha medo do que a minha família pensaria, de não ter leitores, de que odiassem o texto ou pensassem que eu estava ‘expondo’ demais ou comercializando a doença da minha mãe. Mas em todos os pensamentos que tenho o medo aparece e, no geral, tento combatê-lo. Estou feliz por ter publicado. Não só pela oportunidade de passar pelo luto falando sobre Sari com muita gente que se interessa. O livro em si me trouxe muitas alegrias, gosto de como ficou e, além disso, tenho que dizer que nestes anos muitíssima gente me escreveu dizendo que o livro as ajudou e lhes fez muito bem. Isso se deve à solidão do cuidador, o livro é uma forma de companhia. É uma surpresa e uma alegria, e não acho que vá acontecer de novo comigo com outro escrito.
“Cada frase é valiosa como um tesouro.” Esse é um dos maiores legados de sua mãe?
Acho que sim. Pensar nas palavras, amá-las, desfrutá-las. É um lindo legado e uma forma de conversar secretamente, porque agora uso palavras que considero ‘dela’ como uma pequena homenagem ou piada interna.
Você cita Joan Didion, autora de “O ano do pensamento mágico”. Foi uma de suas referências? Quais outras obras a inspiraram?
Durante a escrita deste livro, li muitos livros sobre a memória e sobre o luto, porque era o que estava acontecendo comigo pessoalmente, não apenas para escrever. Sei que adorei “Nada se opõe à noite”, de Delphine de Vigan (escritora francesa, autora de “Baseado em fatos reais”), e tomara que tenha me influenciado em algo, porque acho extraordinário. Mas, especificamente para escrever, tentei ler coisas escritas com muita graça, porque me preocupava me tornar solene e sentimental demais. E muito focada em mim mesma. Gostei muito de ler: “Macaneos”, de Sara Gallardo, “O despenhadeiro”, de Fernando Vallejo, “A intempérie”, de Gabriela Massuh, “O esquecimento comum”, de Sylvia Molloy.
Quais histórias de mãe e filha na literatura chamam especialmente a sua atenção?
Não sei se me chamam a atenção especialmente. Gostei muito do livro “Um temporal”, de Ansilta Grizas, mas é sobre o pai, e de “O verão em que minha mãe teve olhos verdes”, de Tatiana Tibulec, que é de uma mãe com o filho. Ou a orfandade e o luto de “Claus e Lucas”, de Agota Kristof, entre muitos outros.
Que autores brasileiros você admira? E entre os argentinos contemporâneos?
Acho que Clarice Lispector é uma das escritoras (e o ‘das’ inclui os escritores) mais importantes do século passado, com sua incógnita, seu talento e sua beleza. Daqui, dos grandes nomes, admiro profundamente César Aira (autor de mais de cem livros, alguns deles lançados recentemente no Brasil pela editora Fósforo) e María Moreno (autora de “Oración – Carta a Vicki e outras elegias políticas”, lançado no Brasil pela editora Mundaréu). Além disso, gostaria de mencionar Sofía de la Vega, que acaba de lançar um livro de contos muito especial e divertido, e Olivia Gallo, que é muito talentosa e publicou várias coisas, entre elas uma novela chamada ‘Não são férias’, que saiu no Brasil (pela editora Tordesilhas).
Em tempos de predomínio da imagem, com a onipresença dos vídeos e das redes sociais, como preservar a atenção para os livros?
Os livros são uma maravilha. É verdade que a saturação, o cansaço e a dispersão da época atentam de alguma forma contra a leitura. Eu cresci sem celular, gosto muito de ler e, ainda assim, me disperso e durmo muitíssimo mais do que antes quando leio. Acho também que os livros são importantes por muitas razões (uma delas é o prazer que causam) e algo do seu ritmo meio na contramão da época fará com que continuem existindo. Ainda assim, é uma responsabilidade. Se as pessoas responsáveis pelas crianças leem, as crianças vão ler mais. Se os educadores forem bem pagos e puderem se dedicar com mais tempo aos alunos em suas leituras, as crianças vão ler mais. Se houver bons programas estatais de fomento à leitura e acesso aos livros, as crianças vão ler mais. Mas não é por um desejo nostálgico de uma época anterior melhor em que se lia mais, etc. Acredito que a leitura é um hábito que se constrói (embora às vezes aconteça de forma bastante misteriosa) e que se pratica, e que é preciso assumir essa responsabilidade.
“POR QUE SÃO TÃO LINDOS OS CAVALOS?”
De Julieta Correa
Tradução de Mirella Carnicelli
Editora 34
208 páginas
R$ 79
EM PARATY
Julieta Correa está confirmada na programação principal da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), de 22 a 26 de julho, no Rio de Janeiro. A escritora argentina se junta ao argelino Kamel Daoud, o italiano Andrea Bajani, o guatemalteco Eduardo Halfón, a alemã Carmen Stephan e os brasileiros Andréa del Fuego e Leonardo Galdolfi. A edição 2026 da Flip marca a estreia na curadoria de Rita Palmeira e homenageará a poeta paulista Orides Fontela (1940-1998).
TRECHO
De “Por que são tão lindos os cavalos?”, de Julieta Correa
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“Cuidar de alguém doente significa pensar na morte o tempo todo. Na própria: não posso morrer agora, tenho muita coisa para fazer. E na outra, a que se espera, se teme, com a qual se especula e se fantasia. Nessa morte pensamos o tempo todo. Quando o celular toca ou quando não toca. Quando acordamos tarde ou se temos insônia ou se sonhamos com ela. Se temos que viajar. Se aparece alguma coisa em um filme, um livro, uma conversa que possa ser um sinal. Vamos nos preparando para o que não admite preparação. E escrevemos. Não porque esta seja mais triste que outras histórias, ou mais valiosa, mas sim para fazer com que o tempo passe de outra forma. São horas e horas ao lado de uma cama tentando puxar conversa. Imaginando conversas. Tentando não lembrar de algumas coisas. Horas de dias, semanas, meses e anos. Passaram quatro anos. Se eu tivesse imaginação, podia ter tirado um romance de todas estas horas. Se eu tivesse disciplina, podia ter estudado. Se eu tivesse ânimo. Tomo estas notas.”
