ARGENTINA FEMININA

Luciana de Luca: 'Minha mãe decidiu que amor era uma despesa grande demais'

Autora de um dos melhores romances latino-americanos publicados recentemente no Brasil, escritora detalha narrativa sobre uma relação familiar asfixiante

Publicidade
Carregando...

“Um romance pungente sobre a insubordinação.” Assim a escritora brasileira Micheliny Verunschk define “O amor é um monstro de Deus”, de Luciana de Luca, na apresentação da edição brasileira do segundo romance da escritora argentina. “O leitor é apresentado a uma narradora complexa, não apenas consciente da própria inadequação aos arbitrários parâmetros da normalidade, mas que, sabendo-se feia, descomunal, permanentemente julgada pela mãe e pelos olhares silenciosos da comunidade, consegue se manter lúcia, inteira, no que é possível, diante desse pequeno mundo em tudo asfixiante”, afirma a autora de “O som do rugido da onça”. 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Publicado pela editora Arquipélago, com tradução de Sérgio Karam, “O amor é um monstro de Deus”desnorteia o leitor com capítulos curtos e perturbadores sobre uma asfixiante relação familiar em vilarejo infestado de moscas chegadas “em bandos, cavalgando o ar com suas asinhas afiadas”e aonde “o futuro chegou antes do presente”. Neste lugar isolado, dois irmãos com problemas congênitos são desprezados pela mãe, autoridade no povoado, chamada simplesmente de Senhora, que, desde o nascimento das duas crianças, “pariu ao mesmo tempo o abandono”. 

Leia: O ajuste nas rédeas do luto da escritora argentina Julieta Correa

Leia: Inés Galnand expõe fissuras de uma sexagenária na menopausa

“Minha mãe decidiu que o amor era uma despesa grande demais e nos abandonou dentro de sua própria casa”, afirma a narradora, uma filha considerada “feia, descomunal, uma rajada de vento”, dona de um corpo “grande e difícil, selvagem, brotando como um cogumelo”. “Acho que a mãe é um tema absolutamente universal. Ausência, rejeição, saudade, nostalgia, amor, ódio, inveja, ciúme, doença... é um tema que abre muitas possibilidades, com nuances infinitas”, acredita a escritora, nascida em Buenos Aires em 1978 e autora de diversos livros para crianças e do romance “Otras cosas por las que llorar”, este inédito no Brasil. 

Leia, a seguir, a entrevista de Luciana de Luca ao Pensar do Estado de Minas

Você define o livro como a "história de uma família que vive em um povoado em condições muito opressivas." Por que decidiu contar a história dessa família? 

Gosto de pensar que não decido totalmente sobre o que vou escrever. Há algo de ficar obcecada com uma ideia, de pensá-la muito, muitíssimo, o tempo todo. E que desse pensar, dessa insistência, comecem a sair pequenos fios para puxar. Alguns me conduzem a nada, a becos sem saída. Outros, a episódios ou personagens que posso unir depois a outros, que vêm de outros fios. Às vezes penso que gostaria de sentir que tenho o controle, mas a verdade é que sempre termino escrevendo assim, em uma espécie de negociação e de dança com as histórias. Neste caso — em todos, agora que paro para pensar! — me interessa muitíssimo, é uma de minhas grandes preocupações a distância entre o que se é ou se pode ser e o que se gostaria de ser. E acredito que isso se pode ver e explorar muito bem no território primário da família, do lugar de nascimento e de suas redes de relações. Eu estou sempre pensando e me perguntando sobre as famílias como núcleo do amor e do desastre. 

Como se estabelece a relação entre a mãe e os dois filhos no livro? Quais são os fios que os unem e o que os separa? 

É uma relação desigual, desequilibrada. Há algo que se forja entre um ‘dever ser’ externo — ter filhos — e a rejeição a esse ‘dever ser’. É uma mulher, uma mãe que antecipa e depois comprova que não ama. Mas não ama a ninguém, a nada, exceto mandar. Isso sim a move, a desperta. Mandar e ordenar. Poderia ser, penso, que seja o amor o fio que os une e os separa ao mesmo tempo. O amor truncado é a origem e esse mesmo amor rompido é o fim dessa linhagem. 

Muitos livros de ficção contemporânea têm destacado a relação entre mães e filhas. Por que você acredita que as mães adquiriram essa proeminência nas últimas décadas? 

Li, há não muito tempo, comentários como “outra vez um livro sobre uma mãe má”. Como a guerra, a morte, a doença, como o amor, o sexo, o dinheiro, acredito que a mãe seja um tema absolutamente universal. Pela falta, pela rejeição, pelo anseio, saudade, amor, ódio, por inveja, ciúmes, doença, ausência, é um tema que abre muitíssimas possibilidades, tem nuances infinitas, pode ser tão profundo e transformador como poucos outros. Às vezes sinto que houve certa indiferença em relação à maternidade, como se fosse um tema menor, simples, chato e, além disso, essencialmente relegado à gestão, trabalho e reflexão silenciosa das mulheres. A mãe e todas as formas que o conceito pode tomar sob o amplo espectro dos olhares de autoras e pensadoras, assim como de autores e pensadores, me parecem interessantíssimas. Quanto ao porquê, não sei realmente. Talvez haja algo em relação à possibilidade, não tão antiga, de escrever e problematizar papéis e relações inevitáveis. E, claro, na existência de leitoras e leitores interessados no tema. 

No livro há uma espécie de ‘milagre’ realizado por pregadores que chegam para livrar o povoado da invasão de moscas. O que os pregadores representam na sua narrativa? Como a fé, ou a ausência dela, move os seus personagens? 

A chegada dos pregadores tem a ver com a intrusão, com a ruptura da monotonia em um lugar pequeno, endogâmico, no qual todos mais ou menos veem a mesma coisa, creem na mesma coisa e terminam por pensar a mesma coisa. Muitas vezes tende-se a construir homogeneidade, acredito, nos círculos mais próximos ao núcleo primário. Os mórmons são o diferente, o muito diferente. Mas, além disso, trazem consigo a possibilidade da ‘solução mágica’para um problema real. Melhor dizendo: não é que eles a tragam, é que a coincidência espaço-temporal permite que se construa um relato social que busca explicar, sem reflexão, superficialmente, como ato de fé, uma mudança de estado. Me interessa a volatilidade dos comportamentos, me interessa muito ver como os personagens podem mudar de opinião abruptamente. É possível que meus personagens apenas tenham fé — em si mesmos, nas coisas, no domínio — e a partir disso, vivam e se relacionem.

Micheliny Verunschk define o livro como um “romance comovente sobre a insubordinação”. Você concorda com a visão da escritora brasileira? 

Fiquei muito emocionada com essa leitura da Micheliny e sou muito grata a ela. A insubordinação é algo vital, necessário, que exige deixar entrar a crítica, a ruptura e, inclusive, atrever-se à anomia. Gosto muito de pensá-la como uma das energias motoras da narrativa. E da vida. 

Como você vê o protagonismo alcançado por escritoras argentinas no século 21, a exemplo de Mariana Enríquez, Selva Almada e Samanta Schweblin? É uma reação à predominância dos homens no século 20? 

É algo sobre o qual penso e leio muito. Cresci em uma família de classe média trabalhadora e o acesso aos livros foi, eu diria, a razão da nossa mobilidade cultural. Não digo social, embora também, porque foi o acesso à escola primária que mudou o destino de uma família fundada por imigrantes, em sua maioria analfabetos. Nessa biblioteca familiar — formada principalmente por livros de literatura dos séculos 19 e 20 —, a porcentagem de autoras mulheres era muito baixa. Ainda assim, pude ler algumas (Alfonsina Storni, Gabriela Mistral, Juana de Ibarbourou) e entender que havia algo nessas vozes de que eu gostava, de que necessitava e que estava me fazendo falta como leitora. Há algum tempo, tive que reler “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf, para uma conferência. Lá pude me deparar novamente com dados assustadores que aconteceram até o século 19, a respeito do acesso das mulheres à propriedade de casas, à herança e até ao poder familiar sobre os filhos. Na Argentina, as mulheres votaram pela primeira vez em 1951. A lei do voto feminino havia sido promulgada em 1947. Houve publicações feministas no meu país no século 19, romancistas e contistas mulheres que publicaram durante o século 20. Mas não sou eu quem diz: a sub-representação foi, durante muitíssimos anos, evidente. Na produção, na circulação e até nos bastidores, no trabalho editorial — muitas mulheres trabalharam e trabalham na indústria editorial, e não são tantas as que chegam a cargos de decisão. Há algo que não é ingênuo nem casual: as mulheres, dizem, são as que mais compram livros, pelo menos na Argentina. A indústria do livro conhece esse dado, o corrobora e o explora, atendendo aos interesses dessa massa de leitoras-compradoras que recebem com entusiasmo as autoras e suas propostas. Imagino que, se não fosse assim, se não houvesse mulheres dispostas a comprar, ler e escutar essas autoras, não sei se a indústria seria tão flexível e ávida. 

Você escreveu vários livros infantis e dois romances para adultos. O que é mais difícil? Como você define os leitores de suas histórias? 

Escrever como eu quero escrever é algo que acho difícil. Ter ideias é difícil. Que as coisas saiam mais ou menos como a gente quer é difícil. Nesse sentido, há um território comum que tem a ver com o fato de que escrever é difícil, não importa para quais leitores. O território da literatura para a infância acho muito interessante, muito estimulante: permite outras brincadeiras, traz outros temas, permite trabalhar com a linguagem de outra maneira. Então posso me desdobrar, de algum modo, e ter vontade de contar e de escrever histórias para meninas e meninos, e para adultos. De qualquer forma, há elementos em comum entre ambos, que têm a ver com a minha formação como leitora e escritora. Algo dos contos de fadas, das fábulas, dos contos clássicos, que acredito que configura o princípio de toda ideia a ser escrita. 

A crise econômica que a Argentina atravessa é um fator inibidor para a escrita ou estimula o surgimento de mais escritores? E com os leitores? 

A crise econômica que a Argentina atravessa inibe muitíssimas coisas. Entre elas, a escrita, a publicação, o acesso aos livros por parte de quem lê. Muitas escritoras e escritores que se esforçam muito para poder viver de dar aulas ou de editar — claro, não de direitos autorais na enorme maioria dos casos —, estão tendo que buscar mais empregos para cobrir os mesmos gastos. O dinheiro não rende o mesmo todo mês, portanto, estamos sempre correndo atrás. Isso, claro, acontece com absolutamente todas as trabalhadoras e trabalhadores, de todos os setores. Menos, claro, com os que fazem parte daquele 3% da população mundial que concentra a riqueza máxima. Mas como a escrita é vista e considerada em termos de mercado como uma atividade da qual não se deveria pretender viver, mas sim como um hobby ou um passatempo, é muito frágil. Se eu tenho que arrumar um emprego porque não consigo pagar o aluguel, claro que vou ocupar meu tempo com isso, e então vou ter menos tempo para escrever. Se tenho um orçamento mensal que rende cada vez menos, é lógico que eu abra mão de comprar livros em prol de comprar coisas que são prioridade para a vida familiar. 

Você nasceu em Buenos Aires em 1978. Quais são as principais diferenças entre a cidade onde você nasceu e a de hoje? Ainda podemos dizer que Buenos Aires é a capital das livrarias? 

Nasci em Buenos Aires durante a ditadura. Tenho lembranças vagas e estranhas sobre essa época. Meus pais tiveram sua militância, lembro de reuniões e períodos em que não estava claro — para mim, pelo menos — se estávamos nos escondendo de algo ou não. Minha família paterna é do litoral, por isso viajei muitas vezes e depois nos instalamos lá durante a minha infância. Minha primeira educação sentimental não ocorreu em Buenos Aires, mas sim em Santa Fé. Depois, na adolescência, vim morar novamente em Buenos Aires e foi ideal para iniciar uma fase muito mais punk e de rua. Buenos Aires tem isso, ou teve, já não sei, agora sou adulta: uma cidade enorme, cheia de opções, cheia de camadas como uma cebola. Gostaria de ver a cidade hoje com olhos de adolescente para descobrir como ela é vivida, mas já não posso. Apesar da crise, Buenos Aires continua sendo uma capital dos livros, cheia de livrarias independentes e livreiras e livreiros apaixonados, que não apenas vendem os livros, mas são capazes de contagiar com seu entusiasmo e fazer com que a gente se apaixone por autores que até então desconhecia.

Você conhece a literatura brasileira? Quem são os seus autores favoritos do nosso país? 

Conheço muito menos do que gostaria, sem dúvida. Há pouco tempo conversava com uma amiga de Curitiba e com meu tradutor, Sérgio Karam, sobre o quão importante seria que houvesse uma ponte mais fluida, mais robusta, por onde a literatura brasileira circulasse rumo ao nosso país. Estamos tão perto e sinto que estou perdendo coisas incríveis por causa da barreira do idioma. Clarice Lispector é uma autora que eu venero. Adélia Prado, outra. “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, é um livro que me fascinou. Hilda Hilst! Quando pequena, li muito, e com voracidade, Monteiro Lobato. E José Mauro de Vasconcelos, acho que quase toda a sua obra. Sem falar da música, de Tom Jobim (e sua poesia cantada) e de Os Mutantes. Gosto do Brasil cada dia mais e mais.

“O AMOR É UM MONSTRO DE DEUS”

De Luciana de Luca

Tradução de Sérgio Karam

Arquipélago

135 páginas

R$ 69,90

DEPOIMENTO

“Deslumbramento com a maneira poética de contar uma história bastante sombria”

Sérgio Karam - Especial para o Estado de Minas 

A leitura do livro da Luciana foi um deslumbramento pra mim. Ali estava uma escritora que tinha uma história pra contar e que encontrou um jeito fascinante de contar essa história. Acho que o deslumbramento veio mais daí, dessa maneira poética que ela encontrou de contar uma história bastante sombria, marcada pelo calor sufocante, pela epidemia de moscas, pela vida opressiva dos pequenos povoados e pelo desamor familiar, arrancando do meio disso uma espécie de redenção para a filha enorme e desajeitada de sua história, junto a um improvável pregador religioso. Como os tradutores estão sempre à cata de bons livros pra traduzir, saí logo em busca de editor brasileiro para o livro da Luciana até ele ser acolhido com entusiasmo pelo pessoal da Arquipélago. O trabalho de tradução propriamente dito consistiu em tentar manter em português o tom contido do texto em espanhol, esse adorável espanhol do Rio da Prata, para cuja riqueza a Luciana vem contribuindo já há um bom tempo. Ter ouvido dela que a tradução acrescentou cores e sons à música do texto original foi o melhor elogio que eu poderia ter recebido. Ter me tornado seu amigo foi, tem sido, uma alegria indizível.”

SÉRGIO KARAM é tradutor da edição brasileira de “O amor é um monstro de Deus”

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia



Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay