Inés Galnand expõe fissuras de uma sexagenária na menopausa
Com escrita visceral e marcada pela intertextualidade, escritora argentina constrói em "Diário de uma mudança" uma narrativa contundente
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Graça Ramos - Especial para o Estado de Minas
Em um trecho de seu novo livro de ficção, a argentina Inés Garland escreve: “o agradecimento gozoso se parece tanto com o amor”. Assim, com uma escrita visceral, a escritora nascida em Buenos Aires constrói narrativa sobre as muitas faltas vividas por uma divorciada sexagenária. “Diário de uma mudança” (Instante) expõe fissuras íntimas da protagonista que busca compreender mudanças provocadas por alterações hormonais, pela necessidade de introjetar uma troca de casa, além de lidar com a ausência da filha adulta e o luto pela morte do pai.
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Inexiste na linguagem excesso dramático. Reinam no livro a contundência e o humor de quem está atordoada com a drástica economia da perda e suas consequências: a solidão e a invisibilidade tão características no período da menopausa. Páginas com apenas um parágrafo refletem o silêncio ruidoso de um cotidiano muitas vezes internamente furioso.
A visceralidade da escrita transforma cenas domésticas em território emocional espesso. Gestos banais – abrir caixas, olhar roupas antigas, reorganizar armários – adquirem peso simbólico. A palavra “mudança” deixa de se referir ao espacial, se torna ontológica. A casa desmontada e reorganizada em outro espaço corresponde ao corpo que se remodela. Ambos tratados como lugar de linguagem, e, no caso do segundo, não apenas como sintoma das exigências da biologia para com o feminino.
O livro compõe-se de relatos breves, onde são expostos preconceitos, medos e dificuldades históricas vividas pelas mulheres no período assemelhado ao furor da adolescência, mas sem os encantos juvenis. No desarmar do conhecido corpo-casa-ser, a narrativa aponta para uma reconstrução da identidade, menos idealizada, mais concentrada no real, reconhecendo prazeres possíveis.
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Tantas instabilidades também geram modificações no modo de a protagonista registrar a realidade, pois anotações feitas em cadernos, blocos e margens de livros, “às vezes, se convertiam em diatribes, uma escrita entrecortada, fragmentada, desordenada, que brotava em impulsos melancólicos ou furiosos”. É que neste enredo sutil, Garland cria uma personagem-narradora com seu mesmo nome, também escritora e tradutora. Dotada de tantos atributos intelectuais, a Inés inventada constrói extensa malha intertextual, sem parecer exibição.
Como em boa parte da tradição literária argentina, Jorge Luis Borges sendo o expoente mais notável com seus personagens “hiper letrados” – na definição do escritor Alan Pauls no glossário “Trance” –, Inés, autora e protagonista, estabelece variados diálogos com o mundo da leitura, inclusive com dicionários médicos. Consegue assim construir universo narrativo autônomo, elegante e, paradoxalmente, ferino em sua sinceridade.
No extenso arco de conversas estabelecidas aparecem personagens do passado distante, como a Marquesa de Merteuil, criada por Choderlos de Laclos (1741-1803) em “As relações perigosas”, e pensadoras contemporâneas. Entre elas as romancistas Joan Didion e Darcey Steinke, que levam a ficcionalizada Inés a rever teorias feministas e, talvez, também a quem lê esse diário-romance.
A brincadeira intertextual também aparece de maneira discreta, sem referências explicitamente anunciadas. Exemplo disso encontra-se no diálogo implícito com o canônico “O amante de Lady Chatterley”, de D.H. Lawrence. A atração de Inés pelo funcionário de uma imobiliária que ama ser marceneiro traz desmesuras e fetiches capazes de lembrar a atração de Lady Connie pelo guardacaça Mellors.
Nome em ascensão na literatura argentina, Garland mantém fluída a tensão entre intensidade e intimidade, fruto do refinamento imagético de sua escrita. Parte desse desvelo parece encontrar ancoragem em sua atuação no universo da literatura infantojuvenil, onde a preocupação com a formação do imaginário exige imensa responsabilidade. “Pedra, papel, tesoura”(Roça Nova, 2023), seu premiado livro nesse segmento, lida com as turbulências da passagem da infância para a adolescência e o mundo adulto da protagonista Alma.
Nas duas obras que lidam com exuberâncias do feminino, mas em especial neste "Diário de uma mudança", Inés Garland sugere que escrever permanece sendo forma de transformar a falta em linguagem e caminho possível para recuperar memórias como permanências passíveis de novas significações.
GRAÇA RAMOS é mestre em Literatura, doutora em História da Arte e autora de “O apagamento de Volpi: presença em Brasília” (Tema Editorial).
“DIÁRIO DE UMA MUDANÇA”
De Inés Garland
Tradução de Silvia Massimini Felix
Instante
207 páginas
R$ 79,90
SOBRE A AUTORA
Escritora e tradutora, Inés Garland nasceu em Buenos Aires em 1960. Embora tenha começado a escrever aos onze anos, publicou o primeiro romance, “El rey de los centauros”, somente em 2006. Depois lançou “Una vida más verdadeira” (2017) e, em 2024 na Argentina, “Diario de una mudanza”, lançado agora no Brasil pela Instante. Tem livros de contos e obras infantojuvenis como “Pedra, papel, tesoura”, publicado no Brasil em 2023, pela editora Roça Nova.
TRECHOS
De “Diário de uma mudança”, de Inés Garland
“Tenho razões, uma lista de feridas; antes eram motivo de pena, agora me enfureci. A todo momento minha recatadinha dá lugar a esta mulher furiosa, como se eu tivesse me tornado uma daquelas irmãs de Vênus, filhas também da castração de Urano, do sangue que caiu na Terra. Uma das três Fúrias, com minha cabeleira de serpentes e as asas negras, de couro lustroso, fechadas quando lembro e observo, abertas quando me enfureço. Assim eu perseguiria aqueles que me fizeram sofrer, aqueles que me humilharam quando eu estava iluminada pela potência do meu desejo.
***
“Às vezes eu o observava lixar madeiras e tinha nove anos.
Ou doze.
Eu o observava e tinha sessenta e oito anos.
Eu o observava e tinha cem anos.
Gostei que ele se sentisse muito sozinho com sua singularidade e que sentisse nostalgia de ser como os demais.
Gostei que sua vaidade tão ligada às maneiras de se rebaixar, os dois lados da mesma moeda.
Gostei que ele estivesse cheio de fome e cheio de dons.
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Chega.”