“Uma história da literatura brasileira contemporânea precisa abarcar a história de seu país, com seus desacertos e seus inconvenientes, sua violência e suas esperanças.” Logo na introdução, a professora Regina Dalcastagnè expõe um dos principais diferenciais de seu panorama crítico da literatura nacional, apresentado em livro de 608 páginas da Todavia Editora. Ao defender a produção literária como resultante dos elementos que constituem o Brasil, a autora contextualiza as obras analisadas no seu tempo e espaço. É um dos trunfos do estudo: enxergar, em nossas narrativas ficcionais, os encantos, estilhaços e cicatrizes de uma nação.
Fundadora do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), a catarinense Regina Dalcastagnè defende em “Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa” o entrelaçamento do fazer literário com as transformações da sociedade brasileira. “Ele não é entendido sem elas”, afirma ao Estado de Minas. “E, como tento demonstrar, a literatura também ajuda a iluminar essas transformações, tanto pelo que fala quanto por aquilo que silencia”, complementa.
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Transformações urbanas, como as sofridas por Belo Horizonte nas últimas décadas, são citadas na análise de “Becos da memória”, um dos livros essenciais de Conceição Evaristo. “Muito mais do que no romance anterior, ‘Ponciá Vicêncio’, em ‘Becos da memória’ Evaristo lida com a disputa pela manutenção de um lugar na cidade – afinal, o retorno já não existe como opção. E a favela, diferente do que acontece em ‘Quarto de despejo’, não é entendida como um lugar à parte, mas como um espaço possível da cidade (...). Sem idealizar a favela, tampouco as relações estabelecidas em seu interior, a autora captura o momento de dissolução para, a partir daí, constituir suas personagens, entendendo-as em suas sucessivas perdas”, discorre, no capítulo “As cidades possíveis”, no qual estabelece conexões entre as obras de Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Paulo Lins e José Falero.
Para estabelecer o recorte de seu estudo, Dalcastagnè decidiu considerar como contemporâneos os livros publicados a partir dos anos 1970. “Não é uma definição aleatória”, justifica. “A literatura produzida a partir desse momento já se faz sob o impacto do golpe empresarial-militar de 1964 e dos movimentos civis pela democracia e pelos direitos, acompanhando um país cada vez mais urbano, que se moderniza sem deixar de ser autoritário e excludente”, detalha.
Autores como Raduan Nassar, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Osman Lins e Caio Fernando Abreu, que marcaram as letras nacionais na segunda metade do século 20, dividem espaço no livro com nomes consolidados nas duas últimas décadas, como Ana Paula Maia, Luiz Ruffato, Joca Reiners Terron, mais títulos recentes de Andrea del Fuego (“A pediatra”), Itamar Vieira Junior (“Torto arado”), Eliane Marques (“Louças de família”), Lilia Guerra (“O céu para os bastardos”), Stênio Gardel (“A palavra que resta”), entre outros.
No livro, a pesquisadora delimita quatro percursos da literatura brasileira contemporânea: espaciais, políticos, íntimos e cotidianos. Em cada um deles, analisa aspectos históricos e sociais que impactaram – e ainda impactam – a produção literária: a ditadura militar, a internet e as redes sociais, a pandemia, a pulverização das publicações com o surgimento de dezenas de editoras independentes e infindáveis espaços digitais. “Nunca se apostou tanto nas possibilidades do livro”, acredita Dalcastagnè.
Referência nos estudos da literatura contemporânea nacional, Dalcastagnè adverte para as consequências das disputas em torno do chamado “politicamente correto”. “Literatura não pode ser confundida com um relatório, nem mesmo com uma reportagem”, afirma a professora, que encerra o livro com uma indagação: “Será que os movimentos identitários não estão fazendo com que a discussão sobre representação do outro saia do interior dos textos e passe para o mundo social?”
Leia, a seguir, a entrevista de Regina Dalcastagnè ao Pensar do Estado de Minas.
Quais os pontos de partida e de chegada de “Uma história da literatura brasileira contemporânea”?
O ponto de partida foi a necessidade, sentida não só por mim, mas por todos que estudam o tema, de ter uma visão de conjunto da literatura brasileira dos últimos tempos. Temos muitas análises focadas em livros específicos, em autores ou mesmo em pequenos conjuntos de obras, mas nada que apresente um panorama razoavelmente abrangente desta produção. É difícil, não apenas porque é uma produção em contínuo desenvolvimento (assim que damos o ponto final no texto, ele já começa a ficar defasado, uma vez que novos livros estão sendo lançados), mas também porque ainda não foi decantada uma seleção daquilo que é aceito como mais representativo, um cânone, que balizaria a análise nem que seja para ser desafiado. Já o ponto de chegada foi a compreensão da profunda imbricação entre o fazer literário e as transformações da sociedade brasileira. Ele não é entendido sem elas. E, como tento demonstrar, a literatura também ajuda a iluminar essas transformações, tanto pelo que fala quanto por aquilo que silencia.
Qual a contribuição do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea para o livro?
São quase 30 anos de trabalho com o grupo, que eu fundei assim que me tornei professora da Universidade de Brasília. Hoje, ele reúne não apenas professores e estudantes da UnB, mas também de muitas outras universidades do Brasil e do exterior. Nesse tempo, ocorreram dezenas de seminários e simpósios em que discutimos a literatura brasileira recente; a publicação da revista “Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea”, reconhecida como a mais importante de sua área, com cerca de mil artigos publicados; a orientação de muitas dissertação e teses; sem falar dos encontros e conversas informais, também produtivos e instigantes. As ideias presentes no livro foram discutidas, testadas, aprimoradas neste diálogo. Todo trabalho intelectual é simultaneamente individual e coletivo, mas eu me sinto privilegiada por ter tido esta interlocução contínua com um grupo tão gabaritado.
Por que decidiu considerar como contemporâneas as obras publicadas desde 1970?
Escolhi 1970 como marco geral por ser o momento em que a literatura começa a refletir mais um país que se urbanizou e também a lidar com o trauma do golpe e da ditadura empresarial-militar. Mas é isso, um marco geral, com certo grau de fluidez. Seria mais fácil adotar um corte arbitrário, escolher um ano e simplesmente dizer que tudo que ficava para trás seria deixado de lado, mas com isso eu perderia a chance de investigar um pouco a dinâmica da construção do contemporâneo na nossa literatura (e sua vinculação com as mudanças na sociedade brasileira). Por isso, incluo livros anteriores, mas que anunciaram rupturas importantes para a literatura brasileira posterior, como os “Contos do imigrante”, de Samuel Rawet, publicados em 1956, que inauguram a temática urbana e se valem de uma linguagem mais direta, sem rebuscamentos, que marca boa parte da produção das décadas seguintes, ou “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus, de 1960, marco no embate pelo acesso à voz das classes populares na literatura brasileira.
Como estabeleceu o que chama de percursos do livro?
Eu gosto da metáfora da constelação, que vi no trabalho sobre cinema de uma colega da Universidade de Brasília, Mariana Souto. Uma constelação não corresponde à posição das estrelas no espaço sideral, é um agrupamento imaginário, construído a partir do nosso ponto de vista. Ao mesmo tempo, ela é um recorte, que permite a ordenação de um conjunto muito mais amplo e que pode ser útil para algumas atividades. Assim, os quatro percursos que organizam a história que escrevi se estabelecem por meio de diálogos entre as obras, entre os romances e contos ali discutidos, por conta de suas temáticas, personagens ou estilos, que remetem às minhas preocupações e à minha sensibilidade como pesquisadora na terceira década do século 21. Por isso, faço questão de dizer que, embora parta do acúmulo de trabalhos no campo dos estudos literários, não é uma história que se pretende definitiva, nem única, e sim uma sistematização crítica feita a partir de uma determinada posição e que, segundo espero, será útil para que os leitores organizem seus próprios percursos.
Há, em diferentes capítulos, análises de livros de Carolina Maria de Jesus e da recepção à obra da autora. Qual a maior contribuição dela à literatura brasileira e quais as análises simplistas de seus livros?
A escrita literária é marcada pelo monopólio da fala. O autor pode até fazer o esforço para ser polifônico, mas é sempre ele que decide que vozes podem entrar e como entram. Não há nenhum problema nisso, exceto quando esse conjunto de autores é muito similar entre si e deixa de fora tantos grupos da sociedade. Carolina Maria de Jesus foi, quando surgiu em 1960, um absoluto ponto fora da curva: mulher, negra, trabalhadora, favelada. Por muito tempo, sua obra foi vista como mero depoimento, com interesse sociológico, mas não literário, folclorizada pelos erros de ortografia e pelas diferenças em relação à norma padrão da língua. Seus livros eram e continuam sendo publicados sem revisão, ao contrário do que ocorre com todos os outros escritores. Não era isso o que ela queria, ela dizia que seu objetivo era “escrever igual ao doutor, competir com o doutor”. E a escrita de Carolina se impõe por sua força imagética, pelo manejo das palavras. É sim, o retrato de um Brasil que nossos livros muitas vezes preferem esquecer, mas um retrato escrito com grande apuro literário. Ela aparece, assim, como precursora do movimento de valorização das vozes literárias marginalizadas, que eclodiria com força 30 anos depois da publicação de “Quarto de despejo”. E, infelizmente, mesmo com toda a euforia atual, seu reconhecimento como escritora de primeira linha, mais do que como ícone identitário, ainda precisa ser disputado.
Em diferentes passagens são estabelecidas conexões entre as obras de Carolina de Jesus e Conceição Evaristo mas também ressaltadas as diferenças entre elas. Poderia comentar as conexões e as diferenças?
São duas mulheres negras, de tempos diferentes, que fazem da experiência da subalternização, da marginalização e da pobreza a matéria-prima para suas obras. Mas convém não esquecer que, embora vinda de família pobre, tendo trabalhado como empregada doméstica, Evaristo se inicia na literatura já na condição de estudante universitária. Carolina, por outro lado, era catadora de lixo. Ambas batalham a partir das margens do campo literário, em condição de desvantagem, e não são ingênuas, intuem o funcionamento do campo e utilizam da melhor forma que têm as armas de que dispõem, mas seus pontos de partida são díspares.
Por que afirma que Sérgio Sant’Anna, talvez, tenha sido “o mais político dos escritores brasileiros contemporâneos”?
Sérgio Sant’Anna tem uma consciência aguda do monopólio da fala exercido pelo escritor. Sua obra não dialoga apenas com a sociedade que a cerca, mas também interpela as relações de poder dentro da própria escrita. Isto fica patente em um conto como “Um discurso sobre o método”, cujo protagonista, um operário, não tem acesso à fala, é simplesmente o objeto de muitos discursos pretensamente mais legítimos. Ou em “Um romance de geração”, que discute, e problematiza, a posição do intelectual como intérprete das opressões sociais. De forma menos ou mais explícita, esta preocupação atravessa toda a obra de Sant’Anna.
Como as assimetrias da sociedade brasileira são refletidas na produção literária contemporânea?
A literatura não é um mundo à margem da sociedade. A obra literária é um artefato social, seus criadores estão submetidos às pressões, aos diferenciais de valorização, aos preconceitos e discriminações presentes no mundo social mais amplo. Seja nas listas de autores, seja nas temáticas das obras, as hierarquias sociais são refletidas. Embora – até como resultado da maior consciência sobre o problema, fruto de muitas pesquisas realizadas – exista um esforço atual para mudar a situação, o panorama da literatura ainda é, majoritariamente, o de homens brancos de classe média falando de homens brancos de classe média. Por um lado, existem as questões materiais: um trabalhador, alguém que passa três horas por dia na condução ou 14 horas dirigindo Uber para pagar as contas no final do mês, uma mulher sobrecarregada pela dupla jornada de trabalho, quando essas pessoas vão escrever? Por outro lado, existe a desvalorização simbólica de determinadas vivências e experiências. É a visão elitista, ainda muito presente, de que um professor ou um artista tem uma “vida interior” mais rica e mais complexa do que um pedreiro ou uma balconista. Assim, temos uma representação muito enviesada da nossa sociedade. A isso se acrescenta, de forma também importante, a assimetria regional. As grandes editoras, os grandes prêmios literários e a mídia se concentram no Sudeste, sobretudo no eixo Rio-São Paulo. Quem não frequenta estes circuitos tem muito menos chances de despontar. Embora hoje a gente tenha casos de sucesso que fogem deste padrão, os levantamentos estatísticos mostram que ele não foi totalmente superado.
Como se dá a representação do espaço da mulher na literatura contemporânea? Acredita que, citando títulos, elas fizeram no século 21 uma “grande travessia” ou ainda estão “ultrapassando fronteiras”?
Não há dúvida de que as mulheres conquistaram mais espaços na literatura brasileira nas últimas décadas. Ainda assim, as grandes editoras continuam publicando mais homens do que mulheres. Permanece a barreira material, que há um século Virginia Woolf expressou tão bem com a ideia da necessidade de “um teto todo seu”, isto é, de um momento e de um espaço em que as mulheres possam se dedicar à atividade intelectual sem serem atropeladas pelas exigências da vida cotidiana (o cuidado dos filhos, a administração do lar). Além disso, ainda não foi completamente derrotada a ideia de que mulheres fazem “literatura feminina”, o que implica uma restrição da dicção autoral e das temáticas, ao passo que os homens fazem “literatura”, sem adjetivos. Por isso, por mais que as mulheres estejam se organizando, escrevendo e publicando mais, se fazendo mais visíveis no campo literário, não há um espaço consolidado. É preciso continuar lutando.
Chama a atenção no livro o destaque à importância dos contos na formação da identidade literária brasileira e na atividade editorial, em especial a partir dos anos 1970. As análises de alguns contos, inclusive, ocupam idêntico espaço ao de romances. O que é mais relevante, em sua visão, do que é chamado de “itinerário do conto” da segunda metade do século 20 para o século 21?
Creio que o conto ganhou tanto destaque na década de 1970 exatamente por um sentimento de urgência, nas circunstâncias da ditadura. O conto é rápido de escrever e de ler, pode circular não apenas em livros, mas também em revistas. Permitia que seus autores, muitas vezes jornalistas, tratassem de questões que talvez não tivessem espaço na imprensa, seja pela censura, seja pelo desinteresse dos grandes veículos pelas agruras dos trabalhadores, dos pobres, dos marginalizados. Assim, a contística do período expandiu as temáticas, fez experimentos formais, foi um laboratório de inovações e formou um grande contingente, tanto de escritores como de leitores. Nos anos 1980, por diferentes razões, esse processo foi se esvaziando, dando mais espaço ao romance, e o conto só retornou em meados dos anos 1990. Hoje, não tem o mesmo impacto de antes, embora tenhamos excelentes contistas em atuação.
Alguns autores brasileiros, a exemplo de José J. Veiga, ganham análises aprofundadas um tanto incomuns nos estudos acadêmicos. Destacar autores e obras ainda não tão valorizados também foi um dos objetivos do livro? Poderia citar outros exemplos?
Existe hoje um ciclo muito acelerado de consumo e de esquecimento das obras, talvez porque nunca foi tão fácil publicar, talvez como efeito de uma aceleração geral do ritmo da sociedade. O fato é que autores e obras importantes em pouco tempo quase deixam de ser lembrados. É o caso de Veiga, mas também, por exemplo, de Autran Dourado, um romancista central na nossa literatura das décadas de 1960 a 1980, que hoje tem muitos títulos importantes fora de catálogo, incluindo um livro fundamental como “O risco do bordado”. Renard Perez, Victor Giudice, Antonio Callado, Sônia Coutinho, Salim Miguel, Márcio Souza, Hilda Hilst, até Samuel Rawet ou João Ubaldo Ribeiro: a lista é grande. Mesmo Luiz Vilela ou Domingos Pellegrini, que estão vivos, autores de contos fundamentais da nossa literatura, são muito menos lidos hoje e encontram muito menos reconhecimento do que seria de esperar. Não diria que resgatar estes nomes tenha sido um dos objetivos que levaram à redação do livro, mas certamente a revisitação de toda a literatura do período mostrou que é necessário um esforço para mantê-la presente, até porque ela continua falando muito a nós. Daí surgiu, como projeto paralelo ao livro, o portal Praça Clóvis, que já está no ar. Uma grande equipe foi congregada, a partir do Grupo de Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, e o portal divulga resenhas críticas de livros brasileiros dos anos 1970 para cá. Já são quase 300 resenhas publicadas, de romances, e o portal continua crescendo, com trabalhos sobre livros de contos, poesia, dramaturgia, entrevistas de escritores e também a tradução de seu conteúdo para diversas línguas.
Nos chamados “Percursos políticos”, é destacada a produção literária “em tempos de ditadura”. A época também é citada em capítulos como “Memória e esquecimento”. Após o Brasil chegar ao Oscar com “Ainda estou aqui” e “O agente secreto”, que se passam durante a ditadura militar, alguns setores da direita criticaram o fato de o país ter filmes que se passam nesse período. E na literatura? Como a ditadura foi e está sendo retratada na produção ficcional? Ainda há muito o que se escrever ou o tema está exaurido, como defendem setores da direita?
A literatura lidou bastante com a ditadura, como era de se esperar, dado o trauma produzido na sociedade brasileira. E o tema está longe de se esgotar; pelo contrário, temos, nos últimos anos, uma nova onda de obras que revistam aquele período. Existe uma pluralização das abordagens. Há um número maior de livros escritos por mulheres, os efeitos da repressão em grupos como os indígenas e a relação da nossa ditadura com suas congêneres em outros países da América Latina ganharam destaque. Creio também que a emergência, talvez surpreendente, de forças políticas nostálgicas da ditadura e de seus porões reforçou a necessidade de não esquecê-la.
Há no livro, a crítica à “certa noção rasteira de ‘lugar de fala’” pela “espécie de monopólio do discurso sobre as temáticas que os afetam”. Como esta noção tem influído na produção contemporânea e quais as consequências desta disseminação? Por que acredita que “confinar os escritores ao seu próprio terreno é um risco que não devíamos estar dispostos a correr”?
É próprio da literatura falar pelo outro. A reivindicação de ampliação da pluralidade de vozes não tem nada a ver com a ideia limitadora de que cada um tem que ficar no seu quadrado – indígenas falando de indígenas, mulheres falando de mulheres, professores falando de professores e assim por diante. Isto leva a uma produção autocentrada, desprovida de imaginação, frequentemente pendendo para o didático. A boa literatura, pelo contrário, trabalha com a complexidade do mundo e das relações humanas, frequentemente apresenta mais perguntas do que respostas, lida com a contradição e a ambiguidade, faz pensar em vez de simplesmente reafirmar certezas. A noção de “lugar de fala” nos permite entender que cada um de nós vê o mundo social a partir de sua posição nele, o que leva à exigência de incorporar vozes diversas, não de limitar o discurso de qualquer um, como infelizmente parecem pretender os militantes de alguns grupos.
“Nunca se publicou tanto, em tantos nichos diferentes” e “Nunca se apostou tanto nas possibilidades do livro” são constatações que aparecem na conclusão. Por outro lado, pesquisas recentes mostram redução expressiva, até drástica, no número de leitores. Não corremos o risco de, em futuro próximo, termos mais livros do que leitores? E o que pode fazer a crítica literária diante de tantos nichos?
Em primeiro lugar, é bom lembrar que as pesquisas sobre hábito de leitura não são plenamente seguras. Há novas formas de leitura que elas não contemplam. O mercado livreiro no Brasil não está em retração, pelo contrário, e tem potencial de expansão ainda maior caso sejam adotadas políticas governamentais há muito necessárias – bibliotecas públicas, tabelamento do preço de capa, até a restrição do acesso às plataformas sociodigitais por crianças e adolescentes (que é justificada por muitos argumentos mais importantes, mas também teria impacto positivo na formação de leitores). Por outro lado, é verdade que a facilidade da autopublicação, a custo muito baixo, ampliou enormemente a oferta de novos títulos. Creio que dois movimentos ocorrem, como que naturalmente. Por um lado, floresce um mercado de editoras do tipo “pague-e-publique” e também de coaches que vendem fórmulas milagrosas para que escritores iniciantes alcancem o sucesso. Por outro, quase sem comunicação com este primeiro mercado, as editoras permanecem como fiadoras primárias da qualidade das obras, fazem a curadoria do oceano de originais produzidos todos os anos, e é este o principal foco de atenção da crítica. Sim, há vieses nessa seleção e também ocorrem equívocos. Sempre lembramos das dezenas de editores que se recusaram a publicar Proust. Mas, junto com “Em busca do tempo perdido”, eles recusaram também centenas de livros que não precisavam mesmo ter sido impressos.
Por que acredita, como aponta também na conclusão, que a alegoria, o humor e a experimentação têm sido colocados em segundo plano na literatura contemporânea?
As pressões identitárias favorecem uma literatura com cunho mais didático e uma preocupação extremada com a sensibilidade que, acredita-se, cada grupo tem em relação à representação de si mesmo ou de questões que o afetam. Isso amplia a autocensura e faz com que a ironia e a ambiguidade se tornem perigosas. Além disso, existe uma tendência a confundir representação e endosso, como se, por exemplo, descrever o racismo fosse fortalecer o racismo. Lembro da polêmica, faz uns anos, sobre a canção de Chico Buarque, “Com açúcar, com afeto”, cancelada por retratar uma relação machista. Se Chico, que é o Chico, anunciou que estava parando de incluir a música em suas apresentações, dá para imaginar a pressão sobre os escritores.
Na conclusão, você aponta um “novo desafio, que se soma aos outros, ainda não superados”: o de manter a literatura como espaço de resistência e de liberdade. Como fazê-lo?
Temos, de um lado, uma direita tosca, que nutre desprezo ou ódio pelas artes. De outro, setores de esquerda que veem toda a produção cultural por uma lógica utilitária e estão presos, se não ao velho “realismo socialista”, a um “realismo identitário” similar. A literatura não pode se prender a isso. Tem que ser espaço de experimentação (de linguagens, de formas de ser), de fantasia, de uma crítica que pode partir da vivência imediata mas não se limita a ela. Não tenho uma receita de como garantir que será assim, mas creio que é preciso chamar a atenção para este desafio.
Depois da leitura de tantos livros, o que ainda chama a sua atenção nas primeiras páginas de uma obra? Quais foram os últimos livros que a surpreenderam?
As obras que me prendem são aquelas que mostram o domínio da linguagem e, ao mesmo tempo, sinalizam que têm algo a dizer, uma história para contar. Como as histórias sempre se renovam, porque a experiência humana sempre se renova e a imaginação humana supera seus próprios limites, a literatura é inesgotável. Não vou citar autores brasileiros, mas, entre o que li nos últimos tempos, fiquei bastante impressionada com algumas obras do espanhol Andrés Barba (“Agosto, octubre”; “A república luminosa”) e da polonesa Olga Tokarczuk (“Correntes”, “Sobre os ossos dos mortos”). Outro contemporâneo por quem tenho admiração é o britânico Ian McEwan.
Três autores mineiros na leitura de Regina Dalcastagné
Autran Dourado (1926-2012)
“Dourado produziu alguns dos romances de arquitetura mais perfeita da literatura brasileira, como “O risco do bordado” ou “A barca dos homens”. É o tipo do escritor de quem se pode dizer que nasceu vocacionado para se tornar um clássico.”
Ana Maria Gonçalves
“A obra de Gonçalves praticamente se resume a “Um defeito de cor” (2006), de enorme impacto. Um grande livro, que abriu caminhos ainda não totalmente trilhados para a literatura brasileira, revisitando nossa História pelo ângulo dos oprimidos.”
Luiz Ruffato
“Com grande competência, Ruffato atualiza uma tradição de sensibilidade em relação às vidas dos trabalhadores, com um entrelaçamento delicado entre o social e o pessoal que faz jus a melhor estirpe do romance realista. Sua obra está certamente entre as mais importantes da narrativa atual.”
Capa do livro Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa, de Regina Dalcastagné
“Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa”
De Regina Dalcastagnè
Todavia
608 páginas
R$ 189,90. E-book: R$ 79,90
Lançamentos em Porto Alegre nos dias 30 e 31 de março (PUCRS e UFRGS), Florianópolis no dia 6 de abril (UFSC), Salvador nos dias 15 e 16 de abril (Uneb e UFBA).
Trechos
“Outro ponto central da narrativa contemporânea é o próprio escritor, que também se vê obrigado a, de algum modo, se expor – normalmente a partir de uma personagem, com características próprias, mas alguma vezes exibindo-se com nome e sobrenome, confundindo ficção e realidade, como faz Sérgio Sant’Anna em contos como “O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro” (1982) e “A mulher-cobra” (1989), por exemplo. Ou, ainda, como Bernardo Carvalho em “Nove noites” (2002), ou Luiz Ruffato em “De mim já nem se lembra” (2007). Não deixa de ser uma atitude coerente, afinal, o escritor também é peça desse jogo. E tão mais importante quanto mais se destaca a necessidade de se saber quem, afinal, está distribuindo as cartas.”
(Do capítulo “O ponto de onde se vê o mundo”)
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“A timidez em falar do outro manifesta o medo de ser visto como usurpador do lugar alheio. Cabe, então, indagar sobre os significados disso, porque não me parece ser algo que acontece apenas na literatura que trata da ditadura. É um procedimento generalizado; parece que cada um só está autorizado de falar de si mesmo ou de seu círculo mais imediato. E então deixo em aberto uma outra reflexão: será que os movimentos identitários, que ganharam força nesta última década, não estão fazendo com que a discussão sobre a representação do outro saia do interior dos textos e passe para o mundo social? (...) Acredito que essa é uma ponderação grave, que envolve a autonomia da obra literária e que coloca em questão o estreitamento dos limites da literatura.”
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(Da conclusão de “Uma história da literatura brasileira contemporânea” )
