Jessé Andarilho cria versão do ‘jeitinho brasileiro’ em ‘Esquema’
Autor carioca mescla humor com pitadas de tragédia para narrar a história de um jovem que se torna o ‘homem mais honesto do Brasil’
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Desde criança, Daniel aplicava pequenos golpes, como mexer nos fios das máquinas de fliperama para gerar créditos sem precisar pagar por fichas. À medida que foi crescendo, aprendeu outras formas de obter lucro ou vantagens, fosse como garçom ou motorista de transporte. Mas, em uma reviravolta da vida, ele ganhou o rótulo de “homem mais honesto do Brasil”. E a maneira como tudo isso ocorreu – e o que virá depois – é uma das forças-motrizes do romance “Esquema” (2025; Editora Alfaguara), do carioca Jessé Andarilho.
“É um livro divertido, que fala sobre o jeitinho brasileiro, esquemas que as pessoas acabam cometendo para se dar bem na vida. Não por maldade ou desonestidade, mas da maneira como as pessoas aprenderam a cometer esses pequenos golpes, essas pequenas tretas”, enfatiza o autor.
Como o próprio escritor relata, trata-se de “um raio-X, um panorama sobre a sociedade brasileira, que comete ou leva golpes no dia a dia em um sistema que existe há muito tempo”. “Trouxe esses assuntos em pauta por meio de um personagem comum do subúrbio carioca, mas que seria comum em áreas mais periféricas em outras cidades do mundo, afastadas dos cartões postais.”
Apesar de ser enfatizado como uma comédia, recheada de momentos divertidos e por vezes inusitados, o romance traz situações dramáticas e tensas, sobretudo quando envolvem a política. Por sinal, o protagonista “honesto” se envereda na carreira de parlamentar.
“É um romance sobre pessoas. Sentimentos têm que vir juntos com a história que move o livro. Os personagens são inspirados em pessoas reais. Eu costumo dizer que, como a Conceição (Evaristo) escreve a “escrevivência”, eu escrevo a “escrevizão”, sobre coisas que vejo, ouço e vivo. Então, muitos dos personagens são inspirados em pessoas que conheci durante minha vida”, relata o autor.
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Já outras figuras do livro surgiram de forma diferente. “Vieram de programas ou jornais da televisão, matérias que mostram pessoas que sofreram golpe ou que cometeram algo. Ou então sobre alguma coisa na política, que a mídia mostrou de uma forma e, na realidade, era outra coisa. Os sentimentos são inspirados em pessoas. E os esquemas, em coisas reais, na grande maioria”, destaca.
Confira abaixo outros trechos da entrevista concedida ao Pensar.
Daniel é um personagem cheio de camadas, que tenta se sobressair em várias situações para ganhar algum dinheiro, seja na escola, no fliperama e nos empregos que teve. E outras pessoas ao seu redor também seguem essa linha. Como foi a construção desse personagem ao longo da elaboração do livro, de dar vida a esse personagem e a evolução dele?
Sobre o Daniel e esse jeitinho brasileiro... É sobre a tese de que somos frutos do meio. Como ele cresceu nesse meio, e o pai dele já fazia transações envolvendo passarinhos, isso se torna uma coisa bem comum nos subúrbios e nas periferias. Isso daí moldou o caráter e a personalidade dele, puxou do pai, fruto do meio. Dizem que opostos se atraem, mas os iguais também. A qualquer lugar que você vai, as pessoas te tratam da mesma maneira. As pessoas te dão a confiança que você vai permitindo. Foi natural ao Daniel. Ele foi então se envolvendo nesses esquemas, era o jeito dele de sobreviver.
O livro não é panfletário, não estou contando que esquema é bom ou ruim, certo ou errado. Não aponto nem faço juízo de valor. Conto uma história, bem próxima da realidade. É a forma como vejo a cidade onde vivo. Quando escrevi, pensei em mostrar essa parte da sociedade como um universo do qual fazemos parte, sob outro olhar. Quis contar a história desde baixo. Quando se vê algo sobre um político, seja deputado, vereador ou prefeito e se revolta com eles, a gente tem que entender que pessoas da política vieram da nossa sociedade. Elas não vieram de uma “Políticópolis” ou de outro planeta. Fomos nós quem colocamos essas pessoas ali. É entender um pouco melhor sobre honestidade. Será que ser apenas honesto é quesito para elegermos alguém? Foi uma forma de brincar com isso. Por que aquela pessoa está lá? Porque a sociedade a colocou lá.
De que forma você analisa a política no país, como cidadão e artista?
Analiso a política como um grande esquema. Desde corrupção até o esquema de “fica em uma fila do mercado, que eu fico em outra”, como no início do livro. Assim que vejo a política no país. As pessoas fazem parte dela e querem se dar bem, que as coisas delas prevaleçam sobre as outras.
Quais são seus próximos passos?
Lançar um livro juvenil. Gosto de escrever para uma camada da população que não tem hábito de leitura, como eu fui no passado. Gosto de escrever sobre temas que representam ou interessam essa parte da população da qual fiz parte durante muito tempo, que é grande maioria da população do país. Então quando escrevo meus romances, é pensando nessas pessoas. Tanto nos personagens quanto na linguagem que escolho para narrar as histórias. E também estou preparando um romance que fala sobre cuidar, a história de uma mulher que foi criada trancada dentro de casa, porque a mãe dela trabalhava como babá. Quando ela consegue a maioridade e sair de casa, passa por vários tipos de trabalhos ruins, no sentido de trabalhar muito e ganhar pouco, até que o destino ou a vida a joga para um trabalho de cuidadora de idosos. A mãe cuidava de crianças ricas, e ela foi cuidar de senhoras ricas e não pôde cuidar da mãe quando ela precisou. Então tem esse ciclo de cuidados, de parte da população mais pobre que vive em função de cuidar da população mais rica.
'Esquema'
Editora Alfaguara
168 páginas
R$ 79,90
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