Era 12 de fevereiro de 1976, o dia em que aconteceu o soco mais famoso da história da literatura envolvendo dois futuros ganhadores do Nobel de Literatura, os amigos Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. E não foi ficção, foi fato. Esse murro desferido pelo escritor peruano em um olho do colombiano, por motivo jamais revelado por eles, se passional ou político, é uma das principais causas do fim do “Boom latino-americano”, fenômeno editorial e literário das décadas de 1960 e 1970 que tinha como expoentes os dois escritores e ainda o argentino Julio Cortázar e o mexicano Carlos Fuentes.
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A junção do realismo mágico ou fantástico à dura realidade social, política e econômica da América Latina, sempre às voltas com regimes autoritários, levou à produção de obras fundamentais, como “Cem anos de solidão” (García Márquez), “A cidade e os cachorros” (Vargas Llosa), “O jogo da amarelinha” e “A morte de Artêmio Cruz” (Carlos Fuentes).
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García Márquez morreu aos 87 anos em 17 de abril de 2014, sem revelar a razão da agressão. Mario Vargas Llosa se despediu da vida aos 89 anos em 13 de abril de 2025, também sem jamais explicar o motivo. Há 50 anos, eles eram compadres. García Márquez, inclusive, havia sido padrinho de Gonzalo, o segundo filho de Llosa, que dedicou ao colombiano uma tese de doutorado – transformada em livro homônimo – sobre a obra dele na Universidad Complutense, de Madri, com o nome “García Márquez: história de um deicídio” (editora Alfaguara), em 1971. Llosa analisa a obra de García Márquez.
Há ainda outra grande sintonia entre ambos. É o livro “Duas solidões: Um diálogo sobre o romance na América Latina” (editora Record), uma longa e recomendada conversa entre os dois escritores sobre literatura, em 1967. Mas tudo isso ruiu.
INDEFESO
Naquele fatídico 12 de fevereiro de 1976, a longa amizade se desfez. Era o dia do lançamento do filme “Os sobreviventes dos Andes”, de René Cardona, no Palácio de Bellas Artes, no centro histórico da Cidade do México. “Quando eu o vi, parecia que estava sorrindo e que iria me abraçar. Foi por isso que, quando ele me deu o soco, eu fiquei completamente indefeso e de braços abertos. Se fosse o contrário, eu teria pelo menos protegido a cara”, contou García Márquez em entrevista sobre o reencontro com o peruano no evento.
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O efeito imediato foi um olho roxo do autor de “Cem anos de solidão” e “O amor nos tempos do cólera” desferido pelo autor de “Conversa no Catedral” e “A cidade e os cachorros”. Apesar de muitas especulações sobre a causa do desentendimento – que seria passional e teria envolvido a mulher de Llosa, Patricia, e uma amante sueca – os dois nunca deram detalhes publicamente do entrevero.
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O olho roxo foi flagrado pelo fotógrafo Rodrigo Moya, mas a imagem só foi revelada por ele em 2007, 31 anos depois. Na biografia “Solidão e companhia: a vida de Gabriel García Márquez contada por amigos, familiares e personagens de 'Cem anos de solidão'” (editora Crítica), de 2014, a jornalista colombiana Silvana Paternostro dedica um capítulo, chamado “Nocaute”, ao famoso ataque de Llosa a Gabo.
DEPOIMENTOS
Ela reproduz literalmente depoimentos de amigos e conhecidos do escritor colombiano sobre a agressão. É o caso do fotógrafo Rodrigo Moya, que conta: “Eram 11 da manhã ou meio-dia e eu estava em minha casa em Colonia Nápoles. (…) Ouço uma batida na porta, e lá estão Gabo e Mercedes. Fiquei muito feliz e muito surpreso ao vê-lo. (…) Ele me disse: 'Quero que você tire fotos do meu olho roxo. (…) E perguntei a ele: 'O que aconteceu?' Ele fez uma piada, como: “Eu estava lutando boxe e perdi”. Quem explicou foi Mercedes. Ela contou que Vargas Llosa havia lhe havia dado um soco. 'E por que fez isso?' [Gabo respondeu:] 'Não sei. Fui ate ele com os braços abertos para cumprimentá-lo. Não víamos um ao outro fazia algum tempo.'” Moya conta também que o golpe foi tão forte que Gabo caiu e ficou sangrando, porque a lente dos seus óculos quebrou e feriu o nariz.
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Llosa cultivou fama de galanteador, mesmo quando era casado com Patricia. Durante uma viagem, conheceu uma sueca, por quem se apaixonou, e largou a esposa. Contam biógrafos, amigos e conhecidos que Patrícia, desolada, teria procurado García Márquez, e a mulher dele, Mercedes Barcha, que a teriam aconselhado a pedir o divórcio. Llosa, entretanto, voltou para casa e, supostamente, tocado por ciúme e insinuação de Patricia de que Gabo teria flertado com ela, partiu para a vingança no evento no México pela suspeita de traição.
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Moya afirma também no depoimento: “Vargas Llosa já havia se movido surpreendentemente para a direita. Acho que o choque deve ter sido porque ocorreu essa separação, e com certeza, também deve ter havido outras coisas que fizeram Vargas Llosa explodir. O soco foi violento, entendo de socos. Foi um de direita. Ele [García Márquez] estava na fileira da frente. Parece que ele chegou de lado e Vargas Llosa se levantou e bateu nele. Não sei de que ângulo, mas foi um soco forte.”
Amigo de longa data de García Márquez, o diplomata Plinio Apuleyo Mendoza também relatou o episódio: “Gabo avistou o amigo e foi em sua direção, com os braços abertos. 'Mario', disse, sorrindo. Vargas Llosa fechou o punho e disse: 'Isso é pelo que você fez com Patrícia', e o derrubou no chão”. Foi um murro de direita no olho esquerdo de Gabo.
SEDUTOR
Em “Gabriel García Márquez: Uma vida” (Ediouro), de 2008, Gerald Martin, o biógrafo “oficial” em quem o escritor colombiano confiava, também especula sobre as causas do soco, mas com outra hipótese além da passional. Ele afirma: “Por trás do evidente sentimento de traição de Vargas Llosa, pode ter se ocultado uma ansiedade de que o pequeno colombiano pouco sedutor estivesse se saindo melhor do que a encomenda. O próprio sucesso literário, extraordinário e bem merecido, e a fina estampa de belos traços de Mario não eram suficientes em si mesmo – talvez a única arma que lhe restara fosse o soco poderoso.”
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Martin vai mais longe com a especulação sobre uma suposta inveja de Llosa: “Não importa quão bem Mario escrevesse, nem importa quanta publcidade recebesse, era sobre García Márquez que os jornais e o público queriam saber; e, por mais justificado que Mario se sentisse em sua rejeição a Fidel Castro e Cuba, García Márquez parecia ter emergido sem marcas do restolho do caso Padilla [referência ao escritor e poeta cubano Heberto Padilla, acusado de “atividades subversivas” pelo regime cubano] e se tornara o incontestável campeão literário da esquerda latino-americana. Deve ter sido muito frustante.”
