O peruano Mario Vargas Llosa e o mexicano Carlos Fuentes trocaram cartas entre 1967 e 1980, considerando-se as encontradas e divulgadas em “As cartas do Boom”. O livro foi organizado e editado por Carlos Aguirre, Gerald Martin, Javier Munguía e Wong Campos, que acaba de ganhar edição brasileira, reúne correspondências entre ambos e ainda o colombiano Gabriel García Márquez e o argentino Julio Cortázar. Entre muitos outros temas, a troca de missivas entre Llosa e Fuentes, como nas duas cartas reproduzidas abaixo, tratam da importância da literatura produzida na segunda metade do século 20.

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Fuentes destaca a literatura no continente e faz rasgados – e merecidos – elogios a “A cidade e os cachorros”, o primeiro romance de Vargas Llosa, de 1963. É uma obra forte e realista envolvendo cadetes no Colégio Militar Leoncio Prada em Lima, em meio ao que hoje é chamado de bullying e ainda opressão, corrupção e violência sob regime militar. “Cachorros” do título são os estudantes.

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Em referência a sua leitura da obra do peruano, Fuentes disse a ele em carta datada de 1964: “O futuro do romance está na América Latina, onde tudo está por ser dito, por ser nomeado, e onde, por sorte, a literatura surge de uma necessidade, e não de um acordo comercial ou de uma imposição política, como acontece com tanta frequência em outros lugares”. Não foi uma exclusividade da América Latina, mas Fuentes tinha razão quando destacou a importância da literatura do continente, quando se analisa a sua declaração 60 anos depois.

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O escritor mexicano citou ainda outros romances importantes da época, como “O século das luzes”, do escritor cubano Alejo Carpentier, a obra-prima “O jogo da amarelinha”, de Julio Cortázar, e uma pequena joia literária de Gabriel García Márquez: “Ninguém escreve ao coronel”.
Em resposta, pouco mais de um mês depois, Vargas Llosa agradeceu: “Eu também acredito que o ponto nevrálgico da narrativa está hoje na América Latina e que é daí que devem nascer a energia, os mitos, os procedimentos capazes de salvar o gênero, que aqui na Europa todos parecem determinados a liquidar de um jeito ou de outro.”
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O escritor peruano, que receberia o Nobel de Literatura 46 anos depois, em 2010, escreveria ainda obras essenciais e que fizeram jus ao “Boom” e à riqueza das letras no continente, como “Conversa no Catedral”, “A casa verde”, “A festa do Bode” e “O sonho do celta.” Além de Llosa, quatro autores continente ganharam o Nobel de Literatura nas décadas seguintes: o guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1967), o chileno Pablo Neruda (1971), o colombiano Gabriel García Márquez (1982) e o mexicano Octavio Paz (1990). Antes deles, a poeta chilena Gabriel Mistral também havia sido agraciada em 1945.

De Carlos Fuentes para Mario Vargas Llosa

México, 29 de fevereiro de 1964

“Querido Mario
Acabei de terminar A cidade e os cachorros, e me custa trabalho te escrever e decidir por onde começar. Sinto invejo, das boas, diante de uma obra-prima que, de um só golpe, eleva o romance latino-americano a um novo patamar, e resolve mais de um problema tradicional da nossa narrativa. (…) O futuro do romance está na América Latina, onde tudo está por ser dito, por ser nomeado, e onde, por sorte, a literatura surge de uma necessidade, e não de um acordo comercial ou de uma imposição política, como acontece com tanta frequência em outros lugares.
Agora, ao ler, um após o outro, El siglo de las luces, O jogo da amarelinha, Ninguém escreve ao coronel e A cidade e os cachorros, sinto que o meu otimismo se confirma: acredito que, no ano passado, não existiu outra comunidade cultural que tenha produzido quatro romances desse nível. A penosa ascensão narrativa por meio de romances impessoais ou de caráter documental, da selva e do rio, da revolução e da lição de moral ilustradas, permitiu-nos chegar a um [Alejo] Carpentier [escritor e diplomata cubano], que transforma essa matéria documental em mito, e, por meio do mito, o que é americano é universal. Mas acho que a plena personalização do romance latino-americano (em um duplo sentido: personagens vivos vistos a partir do ponto de vista pessoal de um escritor) só foi alcançada em A cidade e os cachorros.”

De Mario Vargas Llosa para Carlos Fuentes

Paris, 7 de abril de 1964

“Querido Carlos
É imperdoável que eu ainda não tenha respondido à tua carta, tão generosa e comovente. Emocionou-me profundamente tudo o que disse sobre o meu romance [“A cidade e os cachorros”] e, toda vez que sinto deprimido, releio como quem toma um estimulante. Eu também acredito que o ponto nevrálgico da narrativa está hoje na América Latina e que é daí que devem nascer a energia, os mitos, os procedimentos capazes de salvar o gênero, que aqui na Europa todos parecem determinados a liquidar de um jeito ou de outro.
Ler os romances franceses contemporâneos é deveras um tormento; são de um frivolidade irritante, e saímos deles meio sufocados pelo tédio. França, Itália e Alemanha apresentam como candidato ao Prêmio Internacional um romance de Nathalie Sarraute, no qual se fala confusamente sobre um romance confuso “[Les fruits d’Or”, que acabou ganhando o prêmio] de um autor confuso. Não é de se estranhar que o autor mais lido, segundo a última enquete, seja Hervé Bazin, um imitador medíocre de Balzac.
Por isso fiquei entusiasmado ao ler as tuas declarações para a [revista] L’Express, onde Robbe-Grillet, há algumas semanas, afirmava que ‘a literatura não tem nada a dizer’ e que o seu ‘domínio exclusivo é a criação de novas formas’. Definitivamente não, não podemos permitir de modo algum que esses bobocas façam com o romance o que fizeram com a pintura. Acho formidável que tenhas dito que o problema dos escritores latino-americanos é dizer no romance o que a história e a política não dizem.”

“Aura”

“Aura” é uma pequena obra-prima de Carlos Fuentes, mistura de novela gótica com realismo, escrita em 1962. Tem narração em segunda pessoa, em que o historiador Felipe Montero aceita trabalhar na casa obscura da viúva Consuelo para organizar as memórias de falecido marido dela. Mas se apaixona por Aura, a misteriosa sobrinha de olhos verdes. Descobre, então, que Aura é uma projeção ou “duplo” da juventude de Consuelo, em uma trama envolvendo pactos, obsessão e a passagem do tempo.

“A festa do Bode”

Um dos melhores romances de Vargas Llosa, escrito em 2000, mostra por dentro a ditadura sanguinária do general Rafael Trujillo, na República Dominicana, no século 20. A protagonista é Urânia, que volta para a casa e se decepciona ao encontrar o país cooptado pelo ditador. Mais uma vez numa obra do “Boom”, a América Latina está retratada da pior maneira, subjugada por regimes militares golpistas, com violência, inclusive, sexual e corrupção. O livro foi levado ao cinema em 2005 (“La fiesta del Chivo”), por Luis Llosa, estrelado por Isabella Rossellini.
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