'Palestina e outros poemas' encara a violência do presente
A poeta capixaba Maria Amélia Dalvi reage às notícias da atualidade e propõe diálogos com Drummond e Gullar nos versos incluídos em novo livro
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Rafael Fava Belúzio - Especial para o Estado de Minas
A capixaba Maria Amélia Dalvi lança “Palestina e outros poemas”pela editora Pedregulho, enquanto persistem as violências na Faixa de Gaza. O livro de 96 páginas conta com Daniel Kondo no design de capa e Marília Café no projeto gráfico, além de paratextos desenvolvidos por três mulheres: Mariana Ianelli (orelha), Socorro Nunes (quarta capa) e Cristina Gutiérrez Leal (apresentação). A obra aguça elementos estético-políticos da autora: calma rudeza a anunciar o tempo.
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Nascida em 1983, em Vila Velha, e professora da UFES, Dalvi possui graduação e mestrado em Letras e doutorado em Educação, todos nessa universidade, incluindo ainda um pós-doutorado na UFRGS. A pesquisadora se volta para a interface entre Literatura e Educação, cabendo destaque nessa dialética seus estudos acerca de Carlos Drummond de Andrade.
O itabirano, aliás, é influência decisiva. No livro de estreia “Poema algum basta” (2019), criado ao longo de duas décadas, Maria Amélia Dalvi revisita o autor de “Alguma poesia”. Em suas respectivas publicações, ambos os poetas abrem frentes políticas, geográficas, amorosas, ontológicas, metalinguísticas. Ademais, os diálogos da escritora podem ser rastreados a partir (não apenas) do modernista e dos modernismos, valendo lembrar presenças de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto.
Ciente de tradições, o livro de estreia também afirma uma dicção autoconsciente. O texto de abertura, “Montanha”, reflete:
“O ser mais íntimo de uma pedra
– origem e substância mineral –
anuncia ao mundo sua história;
mil milênios, e a existência começa.
Importa ao modo bruto da montanha
(isso lá é das sutilezas que o duro guarda)
postar-se no chão, bem perto do céu:
toda a rudeza, na verdade, é calma.
Cada camada fina de sedimentos
– amontoados frenéticos de células –
se deixa calcária esculpindo o cume.
Em paralelo, se desintegra erodida
para o chão, para o nada, ao rés da vida,
tudo o que anuncia o tempo: coisa impura.”
Ao esculpir um soneto em bloco único, Dalvi amontoa sedimentos de dois quartetos e dois tercetos, sinalizados pelos pontos finais. Grava a sua relação com a pedra, cara à lírica brasileira, como se vê em Drummond e Cabral, mas que ainda guarda mil milênios desde pelo menos as lápides de Catulo. Na poetisa que se interessa com rudeza pela vida ao rés-do-chão, pela coisa impura do cotidiano, há trabalho de lima e demora, ouvindo de forma lapidar cada camada do quando.
No recente “Palestina e outros poemas”, a escrita segue na escuta do tempo histórico, acentuado a relação com a matéria do presente. A obra não se chama “Eu e outras poesias”– comparando com o título de Augusto dos Anjos, no lugar do pronome em primeira pessoa consta a alteridade, e, no lugar da “poesia”, o “poema”. A autora se preocupa com as condições carbônicas da existência, e não com a Poesia amoníaca. O próprio título “Palestina e outros poemas” coloca no primeiro plano o tom marcial: o nome do volume soma nove sílabas de modo que a terceira, a sexta e a nona sejam tônicas, se desconsideradas possíveis elisões (“pa/les/TI/na/e/ OU/tros/po/E/mas), mesma métrica adotada nos versos do “Hino à Bandeira”, de Olavo Bilac. Contudo, o estandarte de Maria Amélia Dalvi não é o nacionalismo tão (pre)gado e (bri)gado no Brasil de hoje.
O livro em discussão se divide em duas seções: “palestina” e “outros poemas”. A primeira aborda o Conflito Israel-Palestina e se fragmenta em 21 partes constituídas por quadras, forma que coincide com o texto “Quadras” presentes na obra “Folhas da oliveira”, de Mahmud Darwich. Os versos dalvinianos, em particular, são octossílabos, e as rimas tendem às alternadas. No projeto gráfico, páginas brancas contendo os poemas dialogam com páginas negras que reproduzem noticiários do massacre, instaurando um xadrez poroso entre referencial e poético. Por exemplo, a notícia de jornal “Como ficou o hospital Al-Shifa em Gaza após duas semanas de incursões israelenses”tem ao lado, bandeirianamente, a quadra XIII:
“ataques, tropas, isto é gaza.
duzentos mortos cada dia:
bebês, mulheres, hospitais
- ninguém mais pode ser civil”
Se a parte “palestina” se aproxima de lutas e formas de Mahmud Darwich, e se a arquitetura geral do longo e fragmentado texto político lembra “De uma a outra ilha”, de Ana Martins Marques, na seção “outros poemas” afluem diálogos com Ferreira Gullar e Wilberth Salgueiro. Nesta parte, é maior a diversidade formal, com incidência de métricas variadas, de estrofes alongadas a epigramas e haicais e até mesmo de explorações visuais dos versos. E são incluídos poemas que tematizam educação, meio ambiente, erotismo, universo digital, condição da mulher, permanecendo o testemunho à esquerda, como no enxuto e cabralino “Descarnados”:
“na fila de ossos,
mendigando tutano
para o caldo ralo.
comeram nosso ânimo de revolta,
descarados.
o boi, indiferente à nossa fome, é gordo.
o povo existe para ser (m)agro”
Por esses caminhos de testemunho, a literatura de Maria Amélia Dalvi se alinha a debates teóricos fortes hoje na UFES. Além disso, convoca repensar legados literários espírito-santenses, os quais não raro possuem os pés postados no chão espaço-temporal e os interesses abertos para reflexões amplas, dialética que ocorre de Anchieta a Reinaldo Santos Neves, bem como em cronistas feito Rubem Braga e Carlinhos Oliveira. Quanto à poesia recente a compor um sistema literário capixaba, ela vive momento interessante, seja com Elisa Lucinda, Raimundo Carvalho, Waldo Motta e Wilberth Salgueiro, seja com vozes mais novas de Guilherme Gontijo Flores e Nelson Martinelli Filho. Junto a eles, Maria Amélia Dalvi continua levando adiante culturas que participam do estado. E anuncia ao mundo histórias de amplo espectro, dizendo que é possível escrever um poema durante um massacre.
RAFAEL FAVA BELÚZIO é formado em Letras (UFV) e Filosofia (UFMG), com mestrado e doutorado em Estudos Literários (UFMG). É autor de “1929” (Impressões de Minas, 2020), crônicas mineiras, capixabas e cariocas. É pesquisador IFES/FAPES.
“PALESTINA E OUTROS POEMAS”
De Maria Amélia Dalvi
96 páginas
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