FAUSTINO RODRIGUES
ESPECIAL PARA O EM

 

Há quase 100 anos, Freud dizia que para ingressarmos na civilização devemos abrir mão de algo, controlando nossas pulsões enquanto manifestações do inconsciente: para uma vida em coletivo, não podemos fazer tudo o que queremos. O enunciado atravessa o século 20, incidindo nas interpretações sobre os formatos de nossas culturas e os limites da liberdade e a necessidade do sujeito comum em ceder.

 

Recentemente, Domenico Cosenza colocou em pauta a nova configuração assumida pela sociedade em seus sintomas. O psicanalista italiano aborda isso em seu novo livro, “A clínica do excesso – Derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea”, da editora Scriptum, a ser lançado em 7 de março, a partir das 18h, no Congresso Internacional do Janela da Escuta, em Belo Horizonte.

 

Segundo Cosenza, a psicanálise, durante o século 20, orientou-se por um viés hermenêutico, de releitura dos pensamentos e sintomas dos pacientes. Grosso modo, era como se o psicanalista se dedicasse a explicar para o sujeito o real significado de pensamentos e ações a partir de uma anamnese. Ao mesmo tempo em que as pesquisas de Cosenza atentam para um novo formato dos sintomas contemporâneos, contribuindo para os mais distintos campos de estudos, também sugere ao profissional na psicanálise uma mudança de postura da clínica.

 




É como se disséssemos que, nos sintomas atuais, não há concessão. O sujeito não cede em seus sintomas, não havendo, portanto, restrições para a sua manifestação – e tampouco para justificativas a partir de uma anamnese. Eis a noção do excesso. Logo, não admite perdas para entrar na civilização.

 

A preocupação de Cosenza tornou-se evidente ao observar casos como os de anorexia mental, toxicomania, distúrbios alimentares em geral, isolamento em dispositivos eletrônicos, entre muitos outros. Outrossim, o autor frisa que isso não é uma regra – a sua preocupação maior é a de assinalar a existência desses casos de excesso, conferindo orientações para o tratamento adequado e uma distinta leitura do mundo atual.

 

É estranho pensar que a anorexia, essa aparente negação ao alimento, pode ser definida pelo excesso. Para tanto, Cosenza assinala o gozo vivenciado pela pessoa anoréxica quanto à sua própria condição. Não se trata apenas de deixar de comer, mas, sobretudo em insistir em não comer. Ao fazê-lo, constrói para si uma personalidade sem limites, sem concessões, ante a certeza de que é assim que deve ser. Não se angustia por estar emagrecendo, mas, fundamentalmente, se angustia quando se vê obrigada a comer contra a sua vontade.

 

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Algo semelhante se passa com alguns toxicômanos. O permanente uso de substâncias os deixa alheios a tudo o que se encontra ao seu redor. O importante é a sensação de torpor do momento. Os exemplos acima derivam de anos de prática clínica, além de uma pesquisa de doutorado em Paris. Entretanto, Cosenza sublinha que cada caso é um caso, não sendo possível caracterizar toda pessoa anoréxica ou toxicômana por meio do excesso – embora esse seja um traço cada vez mais marcante dos últimos anos.

 

Não é incomum encontrar indivíduos anoréxicos ou toxicômanos ansiosos por se alimentarem ou largarem o vício, respectivamente – chamemo-nos de anoréxicos e toxicômanos clássicos. Daí, advém uma angústia pela superação de tal condição. Essa angústia está cada vez menos presente na clínica contemporânea, demarcando justamente a existência do excesso.

 

Aliás, no lugar dessa angústia, o que se tem visto mais amiúde é a certeza em tom de verdade quase absoluta. A pessoa anoréxica nunca está magra o suficiente – e a atenção de Cosenza para com os adolescentes, neste caso, é muito interessante, tal como visto em seu livro anterior, “A recusa na anorexia”, também publicado pela Scriptum. A bulímica está segura de poder comer o quanto quiser, bastando apenas vomitar tudo depois. E o indivíduo alcoolista bebe por tomar isso como um ritual social normal, mesmo que o faça isoladamente.

 

Embora os casos evidentes em “A clínica do excesso” sejam patológicos, é bom que o livro não fique restrito a especialistas, podendo ser lido por qualquer um. Afinal, o excesso está em todo lugar. Cosenza escreve, a título de ilustração, na era dos seriados e suas fórmulas de produção de êxtases a conta-gotas, de rápida e fácil transmissão e acesso, evidentes em cada capítulo. Há também a vida com os pets, em que o sujeito humaniza bichos ao extremo, em um interminável êxtase de carinhos e mimos; a necessária e quase compulsiva comunicação permanente, sempre pelo virtual, com o WhatsApp e a demanda de respostas imediatas. Os exemplos são inúmeros.

 

A tudo isso, tem-se um traço cada vez mais marcante: o da solidão. Os sujeitos, agora, supostamente se bastam em si mesmos, sendo capazes de se satisfazer, pois não mais precisam ceder a nada. A anoréxica mental vive sozinha, não interagindo com refeições; o toxicômano experimenta as suas substâncias cada vez mais isolado, pois as reações não compõem o repertório social tradicional, o espectador do seriado se escarrapacha no sofá na companhia das plataformas de streaming, o pet se torna a única companhia necessária e por aí vai.

 

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“Um traço que podemos encontrar nesse âmbito da clínica contemporânea é a tendência do sujeito a se isolar para gozar sem freio do objeto de sua dependência. Isso não acontece apenas com pacientes com evidente retraimento social, que passam, por exemplo, todo o tempo em frente ao computador navegando na internet. Acontece também com sujeitos que mantêm um semblante da vida social, mas que, na verdade, estruturam uma vida dupla. Durante o dia cumprem as exigências da vida normal, trabalham e convivem com os outros. Mas quando voltam para casa à noite, o que os espera é o encontro irresistível com o objeto de sua solução sintomática” (pp. 67-68).

 

Cosenza não condena a sociedade imersa no excesso. A preocupação maior é a de chamar a atenção para essa atualidade e as novas configurações assumidas. Logo, qualquer pessoa pode/deve ler o seu livro. “A clínica do excesso” surge como o testemunho de um tempo normalmente compreendido como de progresso. Devemos pensar mais sobre isso.

 

Faustino Rodrigues é psicanalista e professor de sociologia na Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg)

 

"Clínica do excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea"

reprodução

 

“Clínica do excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea”
• De Domenico Cosenza
• Tradução: Cínthia Demaria
• 304 páginas
• Editora Scriptum
• Lançamento: 7 de março, a partir das 18h, no Congresso Internacional do Janela da Escuta, no Instituto Undió,
Avenida Alfredo Balena, 190, Belo Horizonte

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