A escritora Maria Esther Maciel -  (crédito:  Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press. Brasil. Belo Horizonte - MG. )

A escritora Maria Esther Maciel

crédito: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press. Brasil. Belo Horizonte - MG.

Você se lembra de quando me levou pela primeira vez a um velório, acho que de uma prima sua que eu nem conhecia, e diante do que considerou uma frieza de minha parte perante a situação e as pessoas que ali estavam, começou a me dar beliscões para me fazer chorar? E quantas vezes me bateu para que eu sorrisse quando você chamava o fotógrafo para tirar fotos minhas e de Rubens? Antes de ele nascer, não havia esse ritual de tirar fotos todo ano.

 

Nossa, como eu detestava aqueles momentos! Detestava, sobretudo, porque era obrigada a vestir roupas cheias de rendas e babados, pôr laços de fita no cabelo e usar pulseiras douradas ridículas. Eu era chata, e continuo sendo, com essas coisas de roupas e adereços. Hoje entendo que você queria me deixar quase tão bonita quanto o meu irmão, que você amava mais do que tudo na vida. O que certamente não funcionou, pois, em todas as fotos que restaram (e as guardo num álbum antigo), apareço com a cara emburrada e os olhos tristes, tentando fingir um sorriso, menos para me sair bem nos retratos do que para evitar os tapas que deixariam meus braços ardendo.

 

Já Rubens, não. Sempre sorridente, com suas perninhas gordas enfiadas num short com suspensórios, roubava a cena. E você, depois das fotos prontas, as mostrava para todo mundo, dizendo: Ana Luiza precisa aprender com o Rubinho a ficar bem nos retratos. Aliás, eu sempre achava esquisita a maneira como você pronunciava meu nome: enquanto todo mundo na família me chamava de Lulu (menos papai, que preferia Analu), você insistia em falar A-na Lu-i-za, enfatizando cada sílaba com um tom de autoridade.

 


Impressionante também como, depois do nascimento de Rubens, você passou a me tratar como se eu fosse a pessoa mais detestável da face da Terra: feia, magrela, encardida, parecida com a família de papai, à que você se referia como “gentinha”. Rubinho, além de ser o “menino-homem” que você queria que eu fosse quando ficou grávida de mim, sempre foi o meu oposto: loiro de olhos verdes, gordo, com jeito de príncipe. Assim como todos da sua família de ladies and gentlemen que tinham vivido anos e anos na nossa casa, antes que você a herdasse e ela se infestasse de baratas graúdas e reluzentes.

 

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Como diz tia Zenóbia, cada um se cura como pode. No entanto, as cicatrizes permanecem como vestígios do que tentamos esquecer, pois é impossível que a experiência passada emudeça para sempre. O esforço de apagar tudo tende a ser um gesto insensato e inútil, pois o veneno das coisas persiste como uma maldição. Por isso, tento me curar delas do jeito que posso.

 

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Mas não, eu não queria trazer tudo isso à tona no dia do aniversário de sua morte. Não queria me render a qualquer sobra de ressentimento. Eu queria, sim, chorar de saudade, ir ao cemitério sozinha para pôr flores sobre a sua sepultura e rezar pela sua alma, postar fotos de nós duas no Instagram com palavras de amor, escrever uma elegia, um poema lírico exaltando sua existência em minha vida. Queria me lembrar de sua beleza farta, seu talento para as danças de salão, sua malícia quase infantil quando falava dos homens e das frutas suculentas.

 

Será que um dia vou conseguir? 

 

SOBRE A AUTORA

 

O trecho acima está em “Essa coisa viva” (Todavia), novo romance de Maria Esther Maciel. Com capa de Flávia Castanheira, “Essa coisa viva” trata de luto, memória e laços familiares a partir da história de uma botânica mineira de renome internacional que, um ano depois da morte da mãe, tenta passar a limpo a relação entre elas.

 

Autora de livros como “Pequena enciclopédia de seres comuns”, “O livro dos nomes”, “Animalidades: Zooliteratura e os limites do humano”, “Triz” e “O livro de Zenóbia”, Maria Esther Maciel foi professora da UFMG, trabalha atualmente com a Unicamp e integra a Academia Mineira de Letras. O lançamento em Belo Horizonte está marcado para o dia 3/2, sábado, na Livraria Quixote.

 

“Essa coisa viva”

De Maria Esther Maciel
Todavia
128 páginas
R$ 59,90