'Não paga um fio de cabelo do meu bisneto', diz mulher sobre chacina
Aos 92 anos, bisavó de uma das crianças mortas na maior chacina do DF, com 10 vítimas, ocorrida em 2022, critica sentença dada ontem (18/4) aos condenados
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O veredicto que somou mais de 1 mil anos de prisão para os responsáveis pela maior chacina do Distrito Federal trouxe, para as famílias das vítimas, um misto de alívio e persistente amargura. No banco dos observadores, duas mulheres personificaram as diferentes faces do luto: Alzira Pereira, de 52 anos, que vestia a memória da irmã e da sobrinha em uma camiseta; e dona Antônia Lopes de Oliveira, de 92, que atravessou os seis dias de julgamento segurando um terço e a promessa de suportar até o desfecho do caso.
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Para Alzira, a justiça não foi plena. Ao deixar o plenário em prantos após a leitura da sentença na noite desse sábado (18/4), a ex-atleta expressou indignação com a condenação de Carlos Henrique Alves da Silva, o único réu que poderá cumprir pena em regime semiaberto.
“Alguém vai sair pela porta da frente e amanhã podemos ter mais uma pessoa sequestrada. O Carlos não foi menos pior do que ninguém. Ele entregou o Thiago para morrer”, desabafou, referindo-se à participação do réu no sequestro de uma das vítimas.
Alzira, que viajou do Rio de Janeiro para representar a família materna das vítimas Cláudia Regina e Ana Beatriz, também questionou a clareza da leitura dos quesitos em relação às suas familiares. “Fiquei na dúvida sobre o homicídio da Ana e da Cláudia. A quem foi imputado? Parece que a letração não foi clara ou eu estava em muito choque”, afirmou, reforçando que a luta da família foi para que a irmã e a sobrinha não fossem tratadas como figuras secundárias.
Resiliência
A poucos metros da indignação de Alzira, a serenidade de dona Antônia oferecia um contraponto silencioso. A mãe de Marco Antônio, avó de Gabriela, Thiago e Ana Beatriz e bisavó das três crianças assassinadas encarou os réus do início ao fim. Para ela, a condenação recorde cumpre um rito necessário, mas é incapaz de reparar a perda. "Foi justo porque foi o julgamento, mas não paga um fio de cabelo do meu bisneto Rafael", afirmou.
Dona Antônia, que perdeu 6kg e parte da audição e visão desde o crime, mantém uma postura de perdão religioso, mas exige que os réus vivam para enfrentar a própria consciência. “Eu quero que eles se arrependam com Deus, não com a forca. Vivendo é bom para saberem o que fizeram. Eles precisam viver para avaliar o que foi que fizeram naquele quadrado”, disse ela, referindo-se à prisão.
Memória
A mestre artesã, que por pouco não foi a 11ª vítima por estar em viagem na época dos crimes, revelou que buscou forças na oração para comparecer ao último dia de júri. Ela rejeita a piedade alheia e reivindica o respeito pela sua história. "Ninguém tenha pena de mim, mas tenha respeito. Eu queria ouvir com esses ouvidos que Deus me deu o que ia acontecer".
Enquanto Alzira planeja o retorno ao Rio de Janeiro com a sensação de que as leis brasileiras ainda carecem de severidade para crimes bárbaros, dona Antônia volta para sua casa no Gama. Neste domingo (19/4), seria o aniversário de seu neto Thiago Gabriel, que faria 34 anos. "A misericórdia de Deus supera todas as maldades do mundo. É isso que me segura", declarou a idosa, antes de deixar o tribunal.
Condenados
Gideon Batista de Menezes, Carlomam dos Santos Nogueira, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva, os cinco homens condenados pelo assassinato de 10 pessoas da mesma família estão em celas separadas no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, conforme informações obtidas pela reportagem. Os acusados estão presos desde 2023 (os crimes ocorreram entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023) e ontem foram levados até o Tribunal do Júri de Planaltina para a leitura das sentenças pela participação na maior chacina do Distrito Federal.
Além de terem sido julgados pelos assassinatos, os autores vão responder por outros delitos graves que, segundo as investigações, foram cometidos com requintes de crueldade e organização criminosa. Somadas, as penas dos cinco réus totalizam 1.252 anos de prisão. Gideon e Carlomam receberam as punições mais severas, com 397 e 351 anos de prisão, respectivamente. Horácio foi condenado a 300 anos, enquanto Fabrício recebeu a pena de 202 anos. O quinto réu, Carlos Henrique, cumprirá dois anos em regime semiaberto.
Relembre o caso
O que começou como um plano de invasão de propriedade em outubro de 2022 culminou na maior chacina da história do DF. Movidos pela cobiça pela chácara Quilombo, no Itapoã, e por valores bancários das vítimas, cinco homens arquitetaram o extermínio de 10 pessoas da mesma família.
Sob a liderança de Gideon Batista e Horácio Carlos, o grupo montou um cativeiro em Planaltina, onde as vítimas eram mantidas sob tortura psicológica para a entrega de senhas e dados financeiros, enquanto os criminosos utilizavam os celulares dos reféns para atrair os próximos alvos em uma emboscada em cadeia.
A crueldade do grupo não poupou sequer crianças; Elizamar Silva e seus três filhos pequenos foram atraídos para uma armadilha, estrangulados e incinerados dentro de um veículo em Cristalina (GO). Após semanas de cárcere e extorsão, os demais familiares, incluindo idosos e jovens, foram executados a facadas ou estrangulamento e tiveram seus corpos desovados em cisternas ou queimados em Minas Gerais.
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