Ela foi julgada e condenada por um tribunal sem poder ter chance de se defender. Apontaram como responsável por um crime que não cometeu e vai guardar para sempre uma dor pelo assassinato brutal dos filhos cometido por um ex-marido possessivo. No caso de Itumbiara (GO), Sarah Tinoco Araújo foi transformada em réu pelo “tribunal da internet” e pela multidão no velório antes mesmo de qualquer processo formal. 

Um reel da Rádio BandNews FM (@radiobandnewsfm) traz exatamente a crítica contundente da âncora Adriana Araújo (@adrianaaraujo_): ela condena o “tribunal da internet” que criticou a mãe em luto, destacando que na quinta-feira (12/2), a mulher precisou deixar o cemitério escoltada para não sofrer agressões durante o velório do filho de 12 anos (o caçula de 8 anos ainda estava internado na época, com suspeita de morte cerebral). A âncora aponta indícios de premeditação no ato do assassino, como se ele quisesse construir uma narrativa para direcionar a culpa à esposa, jogando a opinião pública contra ela por suposta traição. Adriana Araújo afirma categoricamente: “mulher nenhuma merece enfrentar esse nível de exposição e condenação pública”, e deseja que a vítima encontre acolhimento para atravessar “a dor mais profunda que alguém pode viver”.

Thales Naves Alves Machado, 40 anos, secretário municipal de Governo, matou os filhos Miguel Araújo Machado (12 anos) e Benício Araújo Machado (8 anos) na noite de quarta-feira (11/2) e depois se suicidou, deixando uma carta que alegava suposta “traição” da ex-esposa como justificativa. Surgiram novas versões de que o casal estava separado, morando em casas distintas, com guarda compartilhada das crianças, e Sarah teria iniciado um processo de divórcio litigioso. Thales não aceitava o fim do relacionamento — que culminou na violência vicária mais extrema: punir a mãe eliminando os filhos.

Júri virtual

Mesmo assim, o veredicto popular foi imediato e unânime contra ela. O “júri” online e offline a condenou sem direito a defesa: “ela traiu”, “provocou”, “mereceu”. Como se qualquer suposta infidelidade pudesse justificar um pai executar as próprias crianças para “vingar” a honra ferida. Ignoraram a separação de meses, o pedido recorrente de divórcio, o histórico de traições dele e a recusa doentia em liberar a ex-esposa. O machismo estrutural fez o que sempre faz: deslocou a culpa do agressor para a vítima, transformando Sarah em uma Medeia contemporânea — a mulher que “provocou” o monstro, sendo eternamente demonizada enquanto o verdadeiro criminoso escapa do julgamento póstumo.

No velório, o linchamento se tornou físico. Sarah conseguiu se despedir de Benício no hospital antes de sua morte na UTI, mas no sepultamento de Miguel (12/02) e no velório conjunto (14/02), foi hostilizada com insultos, ameaças de agressão e expulsa do cemitério sob escolta policial por risco real de violência. Familiares de Thales a retiraram à força, negando-lhe o direito pleno de se despedir dos filhos em meio a imprensa, curiosos e um ambiente de julgamento coletivo. Essa humilhação pública — ser escorraçada do próprio luto — é a materialização cruel do tribunal que já a havia condenado virtualmente.



Reels no Instagram aprofundam essa indignação:

  • No reel de @gentilalan (Alan Gentil) expressa repulsa veemente: "Veja se isso faz sentido: uma mãe que perde os dois filhos sair escoltada do funeral porque um rato morto covarde fez o que fez." A legenda condena o assassino ("rato morto covarde"), quem relativiza o ato e a misoginia social, destacando que o custo de se posicionar contra é alto, mas o de ficar calado é maior.  indignação contra a hostilidade à mãe e defesa de valores contra violência.

  • No reel de @carolinapacker (Carolina Packer): O vídeo discute o controle patriarcal histórico sobre corpos e reprodução feminina, desde o Código de Hamurabi e Roma (mulheres e filhos como propriedade) até leis brasileiras modernas. Critica a persistência da "defesa da honra" em femicídios (proibida só em 2021) e como a sociedade culpa mulheres por sua conduta, regulando sua liberdade como "aviso moral". O vídeo contextualiza o machismo que culpa vítimas em crimes passionais, reproduzindo ressentimento patriarcal ao atacar escolhas femininas — ecoando a culpabilização de Sarah.

  • No reel de @psieliudegois (Eliúde Góis, psicanalista): Focado em narcisismo patológico e perverso, o conteúdo educativo debate os comentários que ligam ao caso: "Essa mãe vai sangrar o resto da vida e ainda vai encontrar dedos acusatórios sobre si"; "É decepcionante ver tantos comentários de mulheres julgando essa mãe! Ela já estava separada e tentando reconstruir a vida". Os comentários expõem o tribunal da internet em pleno funcionamento: julgamentos misóginos, falta de empatia e uso de dogmas para culpar a vítima.




Postagens no X condenam essa dinâmica tóxica:

  • @carouziz (Carol): "Eles estavam separados desde dezembro. O único erro nessa história é o desgraçado que matou os filhos. Que queime no inferno" — reforçando a separação e a responsabilidade exclusiva do agressor.

  • @RenataMarkes04 (RE...mara...): "O q penso...q msm q não estivessem separados...há solução e o nome é DIVÓRCIO...mas MATAR OS FILHOS? 2 CRIANÇAS....EGOÍSTA E CRUEL....teve tempo de escrever ....não me conformo que há pessoas defendendo esse cara...ELE MATOU OS FILHOS".

  • @MiyaharaLuciana (Luciana Miyahara): "Ele traiu várias vezes e nem por isso ela matou os filhos e se suicidou. Além disso, ela estava em processo de divórcio, litigioso, dele. Já estavam morando em casas separadas. Embora o divórcio não tenha saído, ela não era mais esposa dele."

  • @Gatodemullet_ (Gatodemullet): "Um homem matou os filhos após descobrir que após 5 meses separados, a mulher estava ficando com outro homem, e ainda passou a história de que ela estava traindo ele sendo que nem juntos estavam mais. O mais interessante nessa história é que, os homens estão apoiando ele."

  • @gsbxxxmob (GSB): "Primeiro que eles estavam SEPARADOS a 5 meses, o assassino covarde não aceitou a separação e matou os filhos para punir a mãe [...] MAS NÃO JUSTIFICA UM CRIME."

  • @MariaJe17797817 (Maria Crypto): "Eles já estavam separados O cara que não aceitou a separação e matou os filhos Cara isso é muito doentio mais ainda o povo ovacionando a mulher dá nem para acreditar que sociedade está perdida."

  • @maria_a_a_ak (mariaaaa): "Eles estavam separados há 5 meses! O filho da puta não aceitou o fim do relacionamento e pra se vingar matou os filhos, que culpa a mãe tem nisso? E mesmo se ela tivesse traído (o que não foi o caso) deveria fazer oq com ela? Homem trai a mulher todo dia e não vejo ninguém julgando."



  • @Pragmatismo (Pragmatismo Político): "Com forte presença da imprensa e de curiosos, mãe não conseguiu enterrar filhos em Itumbiara (GO) após ser hostilizada durante enterro. Ela deixou o cemitério antes do fim da cerimônia, sob escolta, por receio de agressões." O post também reforça que o casal estava separado desde dezembro, com Thales não aceitando o fim.

  • @fofoquizeii (FofoquizeiX): "Após ser retirada do velório pelos familiares de Thales Machado, a mãe das crianças assassinadas pelo próprio pai teria ficado revoltada por não poder permanecer na cerimônia. Segundo relatos, ela alegava que tinha o direito de se despedir dos filhos."

  • @theutavares (Matheus Tavares): "A mãe das crianças brutalmente assassinadas pelo pai, em um crime motivado pela descoberta de uma traição, foi forçada a abandonar o velório de seus filhos. O incidente ocorreu no cemitério de Itumbiara, quando a mulher começou a ser alvo de ameaças e insultos por parte dos presentes."

  • @Pragmatismo(Pragmatismo Politico): "Reviravolta: familiares revelam que casal já estava oficialmente separado desde dezembro, mas Thales não aceitava o fim do casamento. As crianças, inclusive, já viviam em guarda compartilhada e estavam com o pai essa semana por conta do seu aniversário."



  • @Ednaldo40916743 (Ednaldo Ferreira): Detalha os nomes e o vídeo supostamente enviado a Thales, confirmando Miguel Araújo Machado como uma das vítimas fatais e o caçula em estado grave.

Essas vozes destacam a polarização: enquanto perfis misóginos perpetuam a narrativa de "culpa compartilhada", uma crescente condenação aponta que a responsabilidade é unicamente do homem. Traição (mesmo se verdadeira) justifica divórcio, não assassinato de crianças. A mãe, já devastada pelo luto vitalício, enfrenta ainda a tortura social de ser transformada em vilã — um machismo que pune a autonomia feminina e romantiza a violência masculina.

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