RECUPERÇÃO AMBIENTAL

Engenheiro dispara sementes com espingardas em 1891 para recuperar uma serra devastada, e 135 anos depois um parque de 17.804 hectares revela o resultado

Técnica pioneira disparava sementes em penhascos inacessíveis; mais de um século depois, a região se transformou em um enorme parque protegido

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Em 1889, o engenheiro florestal Ricardo Codorníu y Stárico subiu ao Morrón de Espuña, na Região de Múrcia, e encontrou montanhas desnudas, sem matas para proteger a terra das chuvas. O especialista registrou a impressão daquele cenário: “não vi nem um pinheiro nem uma única azinheira”. O diagnóstico imediato definiu a ação: “deduzi, portanto, que era preciso repovoar tudo”.

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A perda da cobertura vegetal ocorreu após décadas de corte contínuo de árvores e exploração intensa. O solo descoberto agravava tempestades torrenciais, já que a água descia sem barreiras e causava enxurradas graves. A maior tragédia aconteceu em 1879, quando a Inundação de Santa Teresa deixou 761 mortos entre Lorca e Múrcia, motivando em 1888 a formação da Comissão de Repovoamento da Bacia do Segura.

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Armas para semear penhascos e grandes obras

As atividades de plantio começaram em junho de 1891 com um obstáculo complexo: alcançar encostas íngremes e barrancos inacessíveis ao trabalho manual. Diante do desafio, os operários colocaram pinhões nos canos de espingardas e bacamartes para dispará-los nas fendas rochosas. Formigas, aves e roedores comeram mais de 90% dos grãos, mas o recurso garantiu a semeadura em locais onde nenhuma ferramenta convencional conseguia chegar.

A recuperação ambiental da montanha demandou intervenções estruturais de apoio:

  • Abertura de 240 quilômetros de caminhos e trilhas.

  • Erguimento de 11 casas para engenheiros, guardas e operários, além de dois armazéns.

  • Construção de 144 quilômetros de diques nas encostas e 420 mil pequenos socalcos para conter a erosão.

  • Edificação de dois grandes diques reguladores contra cheias e 1.400 metros de canais de água.

Sete viveiros ocuparam cinco hectares para abastecer os trabalhos. Nos primeiros cinco anos de funcionamento, o Viveiro Central de Levante, localizado em Huerta Espuña, distribuiu seis milhões de coníferas e 850 mil folhosas.

A evolução da reserva ambiental

Os serviços duraram quase doze anos e tiveram o pinheiro carrasco como principal espécie introduzida. Em 1931, a área recuperada de 5.084 hectares recebeu a classificação de Sítio Natural de Interesse Nacional. Em 1992, o território avançou na legislação ambiental e ganhou o estatuto de Parque Regional.

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A reserva atual cobre 17.804 hectares de florestas, desfiladeiros e montanhas. Codorníu, nascido em Cartagena em 1846 e morto em 1923, recebeu a alcunha de “Apóstolo da Árvore” ao unir a recuperação hidrológica florestal à oferta de postos de trabalho para as comunidades locais.


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