Estados Unidos

Trump acusa China de hackear 220 milhões de arquivos de eleitores

Em meio à queda de popularidade, presidente coloca o sistema eleitoral em xeque e faz revelação sobre o interesse chinês em sua derrota nas urnas

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A 110 dias das eleições de meio de mandato que podem transferir para os democratas o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou o horário nobre da televisão para colocar em xeque o sistema de votação no país, ao divulgar documentos de inteligência que apontam vulnerabilidades e implicam a China "na maior operação de comprometimento de uma eleição da história".

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O republicano afirmou que os chineses adquiriram 220 milhões de arquivos de eleitores americanos a partir de 2020. "Essa informação inclui nomes, endereços, telefones, preferências políticas e outros dados sensíveis", declarou, ao classificar a segurança eleitoral dos EUA como " catastroficamente insuficiente". "Dezenas de milhões de dados de eleitores em 18 estados foram comprados, roubados ou hackeados pela China. (...) O governo chinês queria que o presidente dos EUA perdesse a próxima eleição. E a razão pela qual queriam que eu perdesse é que sabiam que eu estava atento às manobras deles", disse, em alusão a 2020.

Depois de iniciar o discurso, às 22h02 (pelo horário de Brasília), com uma autopromoção de seu governo, ao apresentar avanços na economia, na segurança e no controle de fronteiras, ele avisou: "Os EUA estão de volta e se saindo muito bem, mas grandes mudanças precisam ser abordadas, pois nenhum país pode ser grande sem eleições justas e honestas". E completou: "Nesta noite, anuncio a imediata publicação de dados críticos de inteligência que revelam vulnerabilidades chocantes em nossa infraestrutura eleitoral. (...) O sistema eleitoral que temos perigosamente se expõe a hackers, à exploração e à interferência externa."

O republicano disse que há anos tem clamado por uma ação contundente e decisiva "para proteger a integridade das eleições americanas". "Cada americano merece saber que, ao depositar seu voto, o mesmo será contado com precisão em um sistema seguro", defendeu.

Duas das principais emissoras americanas, a ABC e a NBC News, recusaram-se a transmitir o pronunciamento do republicano, o que despertou a ira da Casa Branca. Como foi eleito por duas vezes (em 2016 e em 2024), Trump, 80 anos, não poderá disputar a Presidência em 2028. Por isso, uma mudança de configuração nos assentos do Capitólio pode significar o início do fim de seu mandato.

O pronunciamento de Trump ocorreu no pior momento de seu segundo mandato na Casa Branca. Imerso em uma guerra contra o Irã e em meio a uma crise econômica interna, ele amarga queda na popularidade. Uma pesquisa feita pelo instituto Ipsos e pelo jornal The Washington Post mostra que o titular da Casa Branca conta com uma taxa de aprovação de apenas 37%, enquanto o índice de rejeição chega a 61%. O Ipsos entrevistou 2.648 adultos.

O presidente tem pressionado a maioria republicana na Câmara e no Senado — que terá um terço dos assentos renovado em 3 de novembro — a aprovar, de qualquer maneira, o Save America Act ("Lei Salve a América"), um texto que torna ainda mais restritas as medidas de identificação no momento do voto.
Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado, classificou como “conversa fiada” as reclamações de Trump sobre as eleições de 2020. Horas antes do discurso, o senador opositor declarou que o pronunciamento nada teria a ver com as eleições de 2020. "Ele tem tudo a ver com as eleições de 2026. Trump está morrendo de medo de perder em novembro; por isso, tenta mudar de assunto", declarou.

Autor de vários livros sobre eleições americanas e diretor da cátedra de direito constitucional da Universidade Estadual de Ohio, Edward Foley afirmou ao Correio Braziliense que em nenhum momento Trump disse que os resultados de qualquer eleição foram afetados. "Portanto, nenhum candidato indevido assumiu o cargo — contrariando a vontade dos eleitores — em consequência do que a China fez,mesmo segundo o que ele disse."

O estudioso entende que alguns pontos da fala de Trump pareceram pertinentes, como a necessidade de eleições "livres, justas" e confiáveis, bem como seu apelo por um acordo bipartidário sobre os procedimentos eleitorais. "O problema é que democratas e republicanos discordam quanto aos detalhes de como esse acordo bipartidário deveria ser."

Foley lembrou que existe uma diferença crucial entre atores estrangeiros que tentam ersuadir os eleitores sobre como votar e aqueles que buscam forjar o resultado com votos falsos ou contagens distorcidas. "Em uma sociedade livre, não há como evitar totalmente a primeira situação, sendo necessário confiar que os eleitores tomarão suas decisões com base no mérito dos argumentos que ouvem; no passado, houve tentativas de atores estrangeiros de persuadir eleitores dessa maneira, mas tais esforços não podem invalidar o resultado, desde que os eleitores tomem suas decisões sobre como votar", comentou. Ele descartou evidências de que atores estrangeiros tenham obtido êxito na falsificação dos resultados de eleições passadas.

Justin Levitt, professor de direito constitucional e eleitoral da Loyola Law School (Califórnia) e conselheiro sobre direito ao voto da Casa Branca entre 2021 e 2022, disse ao Correio Braziliense que "a China aparentemente 'obteve' listas de registros de eleitores" e lembrou que isso é algo que qualquer pessoa com dinheiro suficiente pode fazer. "A melhor avaliação da comunidade de inteligência foi a de que os chineses não usaram esses dados para interferir na eleição de 2020. Mesmo que tivessem utilizado tais dados, o objetivo teria sido o de tentar persuadir os eleitores a votar de outra forma. Isso não indica que alguma eleição tenha sido roubada", advertiu. Em relação ao sistema eleitoral, Levitt destacou que Trump não apontou nenhuma "vulnerabilidade" de relevância nem demonstrou que algo tenha levado ao comprometimento de sequer uma única eleição.

Exame de testosterona para militares acima de 30 anos

Em vídeo, Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA, anunciou que autorizou novo programa de monitoramento de deficiência da testosterona para militares, com a justificativa de preservar a resiliência dos soldados americanos. Sob a supervisão de médicos, combatentes de 30 anos ou mais serão testados anualmente. "Aqueles com menos de 30 anos também podem se voluntariar a fazer os testes", disse Hegseth. "Será de sua inteira escolha submeter-se a uma terapia de substituição de testosterona." 

Uma das maiores autoridades em deficiência de testosterona, Bradley Anawalt, professor de medicina da Universidade de Washington, explicou ao Correio Braziliense que a triagem da deficiência do hormônio em homens por meio da medição dos níveis sanguíneos do hormônio não é recomendada. "Existe amplo consenso entre especialistas e diretrizes de que o rastreamento do hipogonadismo (deficiência de testosterona) não é indicado. Não há embasamento científico para dosagens anuais de testosterona no sangue de militares dos EUA com 30 anos de idade ou mais", advertiu. 

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Segundo o médico, há várias causas para níveis baixos de testosterona que não estão ligadas à deficiência do hormônio. "Essas causas incluem privação de sono, exercícios excessivos (sob restrição calórica), doenças agudas atuais ou recentes (como gripe ou Covid) e o uso de medicamentos como a prednisona — um potente anti-inflamatório utilizado no tratamento de asma e doenças inflamatórias. Todas essas causas de níveis baixos de testosterona no sangue são comuns entre militares."  

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