TRAGÉDIA DE MARIANA

Vítima da catástrofe, 11 anos depois: "Para mim, a reparação não chegou"

Testemunho de moradora de Barra Longa que tem filha com a idade do desastre da Samarco é simbólico ao retratar sensação de desamparo entre vítimas após 11 anos

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Entre os municípios de Mariana e Barra Longa, na Região Central de Minas fica o chamado Território 1 do trabalho da Fundação Getulio Vargas que ouviu 10 mil depoimentos de moradores atingidos pela tragédia da Samarco, há 11 anos. As duas cidades sofreram a maior destruição física do desprendimento dos rejeitos da Barragem do Fundão. Naquela área, a narrativa mais presente entre as vítimas que sobreviveram à catástrofe se concentra na destruição do território produtivo e na ruptura abrupta dos meios de vida.

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Simone Silva, de 49 anos, é moradora de uma comunidade quilombola de Gesteira, local devastado pela onda de lama e rejeitos, em Barra Longa. A comunidade essencialmente agrícola chegou a ficar dias isolada, depois que a lama carregou pontes e tornou estradas praticamente intransitáveis. Mantimentos, água e medicamentos chegavam apenas pelas linhas de voluntários e moradores a pé, enfrentando barro na altura do peito e passando por trilhas rurais entre os morros do Vale do Rio Gualaxo do Norte.
Simone tem uma filha de 11 anos, idade que coincide com o tempo transcorrido desde a catástrofe. A menina tem problemas de saúde atribuídos pela mãe aos rejeitos do rompimento que invadiram sua casa. Para ela, mais de uma década depois do desastre ainda falta o básico em termos de reparação. “Não aconteceu mais nada. Para mim, a reparação não chegou, não teve reassentamento para mim aqui em Gesteira; foi só auxílio e parou o que precisava aqui na região”, critica.


O modo de vida que a lama carregou

A passagem da onda de rejeitos de minério destruiu fisicamente as áreas agrícolas de várzea, quintais produtivos e fontes de água essenciais para a pecuária familiar. Os atingidos relatam ter perdido a capacidade de produzir o próprio sustento, passando de produtores autônomos a dependentes de auxílios e compras em mercados.


Qualidade da água e contaminações do solo são dúvidas que vêm a seguir, como o segundo maior volume de narrativas presentes. A contaminação direta das calhas dos rios Gualaxo do Norte e do Carmo impossibilitou o uso da água para abastecimento doméstico e dessedentação de animais. As narrativas das vítimas destacam a incerteza contínua sobre a recuperação da terra enlameada e a inviabilidade de cultivar alimentos saudáveis.


“Para comer peixe, agora tem de comprar”

O Território 2 fica compreendido entre a nascente do Rio Doce (confluência dos rios do Carmo e Piranga) e a Represa de Candonga, nos municípios de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Chopotó. Nesse trecho, o principal problema narrado é a perda da autonomia alimentar e a dependência de alimentos comprados. A proibição e o medo de consumir peixe do rio alteraram o padrão alimentar diário das famílias ribeirinhas. O alimento que antes era obtido pelo trabalho de pesca passou a exigir desembolso financeiro nos supermercados.


Várias narrativas suportam essa visão de um rio contaminado, do qual não se tem mais coragem de comer peixes. “A alimentação continua a mesma coisa, mas para comer o peixe agora tem que comprar”, indicou uma das narrativas dessa temática na região. “Nunca mais a gente vai poder comer peixe ou tirar ouro do rio. Hoje eu tenho medo de pisar na água, de comer peixe e ficar contaminado”, destaca outro depoimento que sustenta a crítica comum.


As falas das vítimas expõem as rotinas mudadas. “Pescava para comer, para o sustento. Mas agora eu não como. Desse rio eu não comi peixe mais. Um primo meu trouxe um peixe grande, bonito, mas eu não peguei, não levei. Peixe contaminado”, diz uma das narrativas no território.


Mais pobreza no bolso e na mesa

Na sequência, aparecem a oneração do orçamento familiar e o empobrecimento da dieta. Com o afastamento do peixe fresco do rio, as famílias foram forçadas a adquirir produtos industrializados, enlatados ou carnes mais caras, afetando a qualidade nutricional e estrangulando o orçamento doméstico.
Muitos reclamaram também do impacto agropecuário. Aos poucos, os bois foram sumindo dos pastos, porque as pastagens das beiradas dos rios poderiam estar contaminadas. “Antes, podíamos garimpar, pescar, hoje isso não é possível. Hoje não pode plantar mais na beira do rio, é só rejeito, parece uma praia de rejeitos e a água não é limpa. Era fedido. Proibiram o boi de beber água. Então, como é que pode comer o capim? Os metais pesados estão no capim, que é alimento do boi que nós consumimos”, indica uma das falas ligada sobretudo ao setor agropecuário.

Reparação e justiça são alvo de polêmicas

Vários processos de reparação foram tentados desde o rompimento da Barragem do Fundão, em 5 de novembro de 2015. As mineradoras Vale (brasileira) e BHP (inglesa e australiana) são sócias da empresa Samarco, que operava a barragem rompida. Chegaram a um acordo em 2016 com estados e governo federal para criar a Fundação Renova, encarregada da reparação do desastre. A atuação sempre foi conduzida em meio a muitas críticas.


Em 2018, um grupo de advogados ingleses e brasileiros do escritório internacional PGMBM (inicialmente SPG Law, depois PGMBM, depois Pogust Goodhead e atualmente PGMBM, novamente) levou o caso para a Inglaterra, onde a BHP tem sede. Chegou-se a calcular valores de indenização em cerca de 36 bilhões de libras (R$ 250 bilhões).


Em meio a esse processo, em 25 de outubro de 2024, ocorreu no Brasil a assinatura oficial do Acordo Definitivo de Reparação de Mariana, no Palácio do Planalto, com posterior homologação pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em novembro de 2024. O tribunal também proibiu que as prefeituras atingidas processassem a BHP na Inglaterra.


Com prazo de pagamento de 20 anos e repasses anuais contínuos realizados pelas mineradoras ao poder público, o valor total estimado para as ações de reparação desse acordo brasileiro é de R$ 170 bilhões (R$ 38 bilhões já pagos antes do acordo).


“Repetição das violações”

A assessoria técnica dos atingidos de Mariana, a Cáritas, afirma que muitas comunidades criticam o acordo. “O processo encerrou discussões e direitos anteriormente estabelecidos, definindo valores e prazos para execução de obrigações que estavam em aberto. Visualiza-se, na letra fria do acordo, a repetição das violações, a ausência de diálogo e de protagonismo das comunidades, que, mais uma vez, impede a construção de soluções justas e duradouras”, afirma a entidade.


Integrantes da Comissão de Atingidos e Atingidas pela Barragem de Fundão (CABF) também criticam o acordo e exigem que se mantenham as assessorias técnicas. O acordo previu que as assessorias técnicas no caso teriam garantia de atuação de 42 meses (prorrogáveis por mais seis), enquanto as medidas propostas em seu texto se prolongam por até 20 anos.


“Se a proposta de reparação prevê um horizonte de 20 anos, é justo e necessário que a Assessoria Técnica seja garantida pelo mesmo período. Não é razoável imaginar que as comunidades enfrentem duas décadas de processos complexos sem o suporte técnico necessário para compreender, acompanhar e fiscalizar cada etapa da reparação”, questiona a advogada Mônica dos Santos, integrante da CABF e moradora de Bento Rodrigues.


Impasse também na ação internacional

Mesmo sem clientes importantes, como as prefeituras, o PGMBM seguiu na ação contra a mineradora na Inglaterra. Chegou a perder em primeira instância e na apelação, mas conseguiu reverter o entendimento da corte, e a mineradora BHP foi condenada pela Justiça inglesa (Tribunal Superior de Londres) em 14 de novembro de 2025. Atualmente, o processo se encontra na fase de quantificação dos danos e indenizações e, devido à saída de grandes clientes, os valores globais devem ser reduzidos. A próxima etapa tem julgamento programado de abril de 2027 a março de 2028.


Contudo, antes disso, em 28 de agosto, o Comitê de Clientes (composto por 17 atingidos) anunciou o rompimento com o escritório PGMBM e indicou o escritório americano Bailey Glasser International (BGI) para assumir a causa. O Tribunal de Londres realiza uma audiência de urgência que se concentra estritamente em resolver a disputa de representação.


Em 12 de outubro de 2026, o Tribunal Superior da Inglaterra negou a autoridade do Comitê para alterar coletivamente os advogados. Em 27 de outubro, o escritório Humphries Kerstetter orientou o Comitê de Clientes a entrar com um pedido de recurso diretamente na Corte de Apelação (segunda instância inglesa), tentando reverter a decisão.


“Avanços significativos na reparação de impactos”

Por meio de nota, a Samarco informou considerar que “desde a homologação do Novo Acordo do Rio Doce, em 2024, os anos de 2025 e 2026 foram marcados por avanços significativos na reparação dos impactos do rompimento da Barragem do Fundão. Nesse período, cerca de 357 mil pessoas foram contempladas com R$ 18,5 bilhões em indenizações e auxílios financeiros, ampliando o acesso à reparação por meio de instrumentos como o Programa Indenizatório Definitivo (PID)”.


A empresa informou que, ao longo de todo o processo de reparação, mais de 648 mil pessoas receberam indenizações e auxílios, totalizando R$ 36,6 bilhões em pagamentos. Destaca também a conclusão das obras dos distritos de Novo Bento Rodrigues e Paracatu, em Mariana, com a entrega de 395 edificações, entre residências, estabelecimentos comerciais e equipamentos públicos. “As intervenções contribuíram para a reconstrução da infraestrutura local e para a retomada da convivência comunitária, com novos espaços de educação, saúde, lazer e atividade econômica”, afirma a Samarco.


Na área ambiental, a Samarco afirma que os programas de recuperação já alcançaram 96% da meta de cercamento para reflorestamento compensatório e 94% da meta de proteção de nascentes, com impacto em mais de 3 mil propriedades rurais. “Também avançaram as ações de restauração florestal, proteção de recursos hídricos e recuperação de ecossistemas, incluindo a renaturalização de trechos do Rio Gualaxo do Norte, onde já se observa o retorno de espécies nativas de peixes”, afirma a mineradora.

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“Desde 2015, as ações de reparação e compensação executadas pela Samarco e pelas demais instituições envolvidas somam R$ 82,6 bilhões. Para os próximos anos, a expectativa é consolidar os resultados previstos no Novo Acordo, que reúne R$ 170 bilhões em recursos e obrigações voltados à reparação e compensação. O foco estará na continuidade dos programas voltados às pessoas e aos territórios atingidos, com ações destinadas à recuperação ambiental de longo prazo, ao fortalecimento das economias locais, à melhoria da infraestrutura regional e à promoção de condições mais sustentáveis para as comunidades da Bacia do Rio Doce”, declarou a empresa.

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