ASSÉDIO ELEITORAL

Mulheres de BH denunciam ameaças por voto; caso envolve promoters de festas

Jovens relatam exposição de nomes e fotos em suposta lista de exclusão de eventos, seguida de ameaças de violência sexual e morte por mensagens

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A escolha de um candidato nas urnas se tornou motivo de intimidação, exposição pública e ameaças contra jovens mulheres em Belo Horizonte e na Região Metropolitana. Promoters associados ao Clube Chalezinho, no Bairro Estoril, na Região Centro-Sul de BH; à Caza Raro, no Vila da Serra, em Nova Lima, na Região Metropolitana; e à produtora de eventos 2liv são apontados como responsáveis por organizar e divulgar uma suposta lista de mulheres que teriam votado no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, por isso, seriam excluídas das listas de convidados de festas. Depois da circulação dos nomes e das fotografias nas redes sociais, as jovens passaram a receber mensagens com ofensas, ameaças de estupro e de morte, além de intimidações que mencionam seus locais de estudo, trabalho e residência.

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O movimento teria começado no domingo (25/10), após a vitória de Lula na eleição, mas ganhou maiores proporções entre terça e quarta-feira, quando publicações começaram a circular em diferentes plataformas, como Instagram, TikTok e X. A situação levou as mulheres a se organizarem em grupos para reunir registros das ameaças, identificar os responsáveis pelas publicações e buscar orientação jurídica. Parte delas já está providenciando denúncias individuais ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).

Uma empresária de 47 anos, que preferiu não ser identificada por receio de possíveis retaliações contra a filha, uma estudante universitária de 23 anos, acompanha o caso desde as primeiras publicações. Segundo ela, o perfil da jovem nas redes sociais foi incluído na relação de mulheres que seriam impedidas de frequentar determinados eventos por sua posição política.

De acordo com a empresária, os primeiros registros mostravam fotografias e capturas de tela dos perfis das jovens sendo compartilhadas entre promoters. A justificativa apresentada seria a exclusão das mulheres das chamadas listas de off, utilizadas para controlar o acesso de convidados a festas. Em algumas mensagens, elas teriam sido classificadas como "burguesinhas" que votaram no PT.

"Promoters de festas da 2liv, do Chalézinho e da 'Caza' Raro começaram um movimento dizendo que todas as burguesinhas que tinham votado no PT seriam excluídas permanentemente da lista de off", relata.

Inicialmente, a movimentação estaria restrita a conversas entre pessoas ligadas à divulgação dos eventos. A situação mudou quando integrantes desse grupo começaram a publicar, nos próprios perfis, imagens das mulheres que supostamente seriam barradas. A relação passou a ser chamada de "lista vermelha".

Para a empresária, a exposição abriu espaço para que pessoas sem relação direta com os estabelecimentos também passassem a atacar as jovens. As mensagens começaram a aparecer em comentários de publicações, mensagens privadas e perfis nas redes sociais. Posteriormente, os registros foram compartilhados por terceiros e ganharam repercussão em outras plataformas.

Ameaças de estupro e morte

O conteúdo das mensagens é um dos aspectos que mais preocupam as vítimas e seus familiares. Além de comentários misóginos e insultos relacionados à posição política das jovens, foram identificadas ameaças explícitas de violência sexual e física.

Entre as expressões relatadas pela empresária estão mensagens afirmando que as mulheres "merecem ser estupradas" e que deveriam morrer. Também teriam sido publicados comentários depreciativos sobre a aparência e a condição social das jovens.

A violência, no entanto, não ficou restrita às manifestações públicas. Segundo a entrevistada, algumas mulheres passaram a receber mensagens diretas de perfis desconhecidos, inclusive de contas falsas e números internacionais. Em determinados casos, os autores afirmavam saber onde elas estudavam e trabalhavam, além de ameaçarem encontrá-las pessoalmente.

"Começou um movimento de ódio mesmo, a ponto de as meninas serem ameaçadas de serem violentadas. Mensagens dizendo: 'Eu sei onde você estuda', 'eu sei onde você mora', 'se eu te encontrar na rua, eu te pego'. É uma proporção assustadora", afirma.

A empresária conta que percebeu a gravidade da situação quando a filha começou a demonstrar medo de manter a rotina. A jovem passou a questionar se poderia continuar se deslocando sozinha para os compromissos e demonstrou preocupação com a possibilidade de ser reconhecida por pessoas que acompanhavam as publicações.

A mãe passou a levá-la e buscá-la de madrugada e pela manhã. Também comprou spray de pimenta como medida de proteção.

A situação também mobilizou outras mulheres. Um grupo foi criado no WhatsApp para que as vítimas compartilhassem as mensagens recebidas, registrassem os episódios e discutissem as providências possíveis. A intenção é evitar que os casos fiquem restritos às publicações nas redes sociais e garantir que os conteúdos possam ser apresentados às autoridades.

Provas são reunidas para denúncias

Além de acompanhar a filha, a empresária começou a reunir os registros digitais das publicações. Por trabalhar com tecnologia, desenvolveu uma ferramenta para monitorar conteúdos relacionados ao caso e identificar postagens que poderiam configurar algum tipo de crime.

O material inclui capturas de tela de perfis, publicações, vídeos, stories e mensagens. Parte dos vídeos foi transcrita para facilitar a identificação do conteúdo e dos responsáveis pelas manifestações. Os registros também permitem acompanhar a circulação da lista e a repercussão das ameaças.

A empresária chegou a procurar o Ministério Público para apresentar o material e buscar orientação sobre como formalizar a denúncia. Segundo ela, foi orientada a retornar com a participação da própria vítima, uma vez que a presença das pessoas diretamente atingidas poderia dar maior consistência à apuração.

Outras jovens também estão documentando os episódios e buscando orientação para ingressar com medidas individuais. Segundo a empresária, a avaliação inicial foi de que seria mais adequado que cada vítima apresentasse seu próprio relato, em vez de concentrar todas as situações em uma única ação coletiva.

A expectativa é que novas denúncias sejam encaminhadas nos próximos dias. As mulheres pretendem apresentar não apenas as ameaças recebidas diretamente, mas também os registros das publicações que expuseram seus nomes e imagens.

"Elas estão documentando tudo o que está acontecendo, com prints e nomes dos promoters, para que isso seja levado à Justiça. Muitas estão se organizando e vão procurar o Ministério Público", afirma.

A entrevistada também ressalta a importância de preservar as provas digitais. A intenção é manter os registros das publicações originais e das mensagens recebidas, de modo que seja possível identificar os perfis envolvidos e a sequência dos acontecimentos.

Responsabilidade dos estabelecimentos é questionada

Outro ponto de preocupação para as vítimas e seus familiares é a atuação dos estabelecimentos e da produtora citados no caso. A empresária questiona por que, mesmo com a circulação das listas e a exposição das jovens, não teria ocorrido uma intervenção capaz de interromper a movimentação.

Ela afirma que os promoters apontados nas publicações trabalham na divulgação dos eventos vinculados aos empreendimentos e considera necessário esclarecer se os responsáveis pelos espaços tinham conhecimento do que estava acontecendo e quais providências foram adotadas.

A reportagem procurou o Clube Chalézinho, a Caza Raro e a produtora 2liv para solicitar posicionamento sobre as denúncias, a suposta participação de promoters vinculados aos empreendimentos e as medidas adotadas diante das ameaças. Até a publicação desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestações.

Voto e liberdade de escolha

Para a empresária, o episódio ultrapassa a discussão sobre a participação ou não das jovens em festas. O que está em questão, segundo ela, é a exposição de mulheres e a incitação à violência em razão de uma escolha política individual.

Ela também questiona por que a lista seria composta especificamente por mulheres, considerando que a preferência eleitoral não é exclusiva de um gênero. Na avaliação da entrevistada, a divulgação dos nomes e das fotografias, acompanhada de comentários violentos, transformou uma tentativa de exclusão de eventos em uma situação de insegurança que afeta a vida cotidiana das vítimas.

"Isso não é jeito de viver porque você escolheu um candidato, porque exerceu o seu direito de voto", afirma.

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"Eu quero mostrar que esse tipo de ação pode ter consequências e que as pessoas não podem agir dessa forma. Essas meninas estão se sentindo sozinhas, e é muito ruim se sentir assim", conclui.

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