MG: samba e cachaça agora são patrimônio; Casa de Dona Beja é tombada
Conep aprova registros históricos das expressões do samba no estado e dos modos de fazer cachaça de alambique, além do tombamento da Casa de Dona Beja, em Araxá, consolidando a preservação da memória e da identidade mineira
compartilhe
O Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep), órgão vinculado à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG), aprovou por unanimidade, em reunião realizada nesta quinta-feira (22/10) no Palácio da Liberdade, três medidas de preservação do patrimônio estadual. Foram oficializados como patrimônio cultural imaterial do estado as Expressões do Samba em Minas Gerais e os Modos de Fazer Cachaça de Alambique, além do tombamento da Casa de Dona Beja (a antiga Pensão Tormin), em Araxá, na Região do Alto Paranaíba.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Leia Mais
A cada decisão, o público presente na reunião comemorava com aplausos e gritos.
A secretária-adjunta de Cultura e Turismo do estado, Josiane de Souza, que comandou a sessão, destacou a relevância social e histórica das decisões para as raízes locais: “Reconhecemos três patrimônios fundamentais.” Ela destaca que o registro dos modos de fazer cachaça de alambique “permite que saberes não se percam e abre a oportunidade para que vários produtores, inclusive quem não está cadastrado nos meios oficiais, sejam valorizados”.
Josiane ressaltou, também, o reconhecimento do samba como valorização de uma expressão de resistência e da demonstração da força da afro-mineiridade. “Já o tombamento da Casa de Dona Beja preserva a memória de uma mulher importante para o início do século XIX e a história de Araxá”, afirmou a secretária-adjunta.
A história de resistência do samba
O reconhecimento das Expressões do Samba em Minas Gerais coroa a presença histórica do gênero no estado, que hoje possui 246 grupos cadastrados.
O dossiê de preservação, solicitado pelos sambistas do Mestre Conga e elaborado pelo Iepha-MG, baseou-se em pesquisas históricas locais. Conforme o historiador e produtor cultural Marcos Maia — coordenador-geral do inventário do samba em Belo Horizonte —, o ritmo possui raízes profundas no estado desde as primeiras décadas do século XX, com influências do samba urbano carioca.
Em 1934, apenas seis anos após o surgimento da primeira escola de samba do país no Rio de Janeiro (Deixa Falar, 1928), nasceu em Juiz de Fora, na Zona da Mata, a agremiação Turunas do Riachuelo. Poucos anos depois, em 1937, fundava-se em Belo Horizonte a pioneira Pedreira Unida.
Raimundo Nonato da Silva, coordenador do coletivo Mestre Conga, mencionou a marginalização sofrida pelo gênero no passado:
"É um momento histórico. Nossos ancestrais lutaram tanto por essa cultura. Na época da ditadura, quando o samba era proibido, sambistas apanhavam, eram presos, e o samba era visto como coisa de vagabundo e cachaceiro. Hoje, é reconhecido como patrimônio cultural. Isso é uma vitória para os sambistas."
O próximo passo do processo será a formulação de um plano de preservação para garantir incentivos contínuos às velhas guardas, escolas, blocos e coletivos sambistas.
A tradição da Cachaça de Alambique
Líder nacional na produção de cachaça de alambique, com cerca de 13,5 milhões de litros anuais fabricados e entre 630 e 650 alambiques registrados, Minas Gerais passa agora a proteger legalmente as técnicas artesanais transmitidas há séculos de geração em geração.
O processo de registro junto ao Iepha-MG valoriza o conjunto de saberes, práticas, memórias, formas de organização do trabalho e relações sociais associadas ao modo de fazer tradicional. A preservação conecta-se também com a política pública da Secult-MG de exaltação da cozinha e da culinária mineira, ampliando a visibilidade da bebida tanto no Brasil quanto no exterior.
Sergio Maciel, produtor em Piranga e presidente da Associação Nacional da Cachaça de Alambique (Anpaq), pontuou a importância do marco ao afirmar que "a cachaça de alambique reúne qualidade, cultura e história". Os produtores também já articulam com o governo federal o reconhecimento em âmbito nacional.
Para Sara Regina Santana Santos, cuja família produz a Cachaça Guaraciaba há 62 anos, a conquista resgata a dignidade da atividade:
"Esse reconhecimento do Iepha vai abranger muitas famílias que vivem da cachaça e mostrar o valor da bebida para os mais jovens. Antes, a cachaça era malvista e hoje as pessoas estão valorizando mais."
A Casa de Dona Beja
O tombamento da Casa de Dona Beja, conhecida historicamente como a Pensão Tormin, sela a preservação de um importante bem particular da arquitetura urbana do século XIX, erguido entre 1820 e 1830 no Centro de Araxá.
O casarão guarda a memória de Anna Jacintha de São José (1800–1873), a Dona Beja, figura de forte relevância social, econômica e política no interior mineiro. Ela desafiou abertamente os padrões conservadores de sua época e participou de episódios cruciais da história nacional, como a Revolução Liberal de 1842. A proteção do patrimônio reforça a preservação da memória de Araxá e fortalece o protagonismo feminino na história de Minas Gerais.
*Estagiário sob supervisão