COP31

COP31: catadores de 7 estados se reúnem em BH para elaborar Carta Climática

Representantes da categoria cobram melhorias na infraestrutura e proteção contra eventos climáticos extremos; conferência do clima das Nações Unidas será em novembro, na Turquia

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Representantes de 15 organizações de catadores de materiais recicláveis de Minas Gerais, Amazonas, Ceará, Bahia, Pará, Pernambuco e Sergipe estão reunidos desde essa segunda-feira (19/10), em Belo Horizonte, para construir uma Carta Climática, com reivindicações à COP31, 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que será realizada de 9 a 20 de novembro, em Antália, na Turquia. 

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A iniciativa pretende levar à agenda climática internacional as demandas da categoria, apontada como essencial à transição para uma economia mais verde, mas que enfrenta os impactos de eventos extremos sobre suas condições de trabalho, saúde e renda. 

O evento integra o Programa de Intercâmbio do Labora – Fundo de Apoio ao Trabalho Digno, do Fundo Brasil de Direitos Humanos, que fortalece organizações de trabalhadores na defesa de direitos e proteção social.

Promovido pelo Labora em parceria com a Fundación Avina, a Women in Informal Employment: Globalizing and Organizing (Wiego) e The Work Fundation, o intercâmbio combina três encontros virtuais com dois dias de atividades presenciais. A programação inclui debates sobre proteção social, trabalho digno e adaptação climática, além de visitas a cooperativas da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Impacto de mudanças climáticas extremas

A discussão do impacto das mudanças climáticas tem consequências diretas para quem depende da coleta e da comercialização de recicláveis para sobreviver. Segundo estudo da Wiego, os catadores estão entre os grupos da economia informal mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos. Chuvas intensas, alagamentos e temperaturas elevadas podem comprometer o deslocamento pelas cidades, a segurança dos galpões, a qualidade dos materiais recolhidos e, consequentemente, a renda das famílias.

A urgência do debate é evidenciada em pesquisa realizada entre 2022 e 2023 com catadores de Manaus, Salvador e Belo Horizonte. O levantamento revelou que 91% dos participantes enfrentaram pelo menos um evento climático extremo no período de referência. Além disso, 85% relataram exposição a calor anormal ou ondas de calor e 39% a inundações repentinas.

Segundo Neli Medeiros, catadora de materiais recicláveis e representante do Movimento Nacional dos Catadores no Estado de Minas Gerais (MNCR), os catadores estão sofrendo com os galpões de resíduos brasileiros, e que nenhum deles foram pensados para enfrentar fortes mudanças climáticas.

“A gente sofre muito com os galpões que existem hoje em Belo Horizonte. Estou falando de Belo Horizonte, mas, na verdade, é o Brasil inteiro, porque os galpões, nenhum deles foi construído pensando nessa questão de mudanças climáticas”, aponta Neli.

A catadora explica que as chuvas são prejudiciais para a qualidade do material, especialmente o papel e o papelão, que perdem valor comercial quando molhados e danificados. Já o calor excessivo reduz a produtividade e torna o trabalho de coleta mais desgastante.

Para Neli, além de políticas públicas mais efetivas, é necessário melhorar a estrutura dos galpões e ampliar a contratação das cooperativas para a prestação de serviços de triagem.

A representante da MNCR também chama a atenção para as dificuldades enfrentadas durante a coleta nas ruas. Em Belo Horizonte, o relevo acidentado exige esforço adicional dos trabalhadores que percorrem as ladeiras empurrando carrinhos, situação agravada pelas temperaturas elevadas.

“Quando é sol demais, a produtividade diminui. Porque nós temos uma Belo Horizonte muito íngreme, muito cheia de morro, então, para os trabalhadores, subir e descer com o carrinho debaixo de sol dificulta muito a coleta, e a produção cai também”, relata.

Reivindicações e políticas públicas

De acordo com Neli, um levantamento realizado pelo programa Conexão Cidadão, do governo federal, em parceria com a Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT), identificou cerca de 1.100 catadores autônomos em Belo Horizonte. Somados aos trabalhadores das associações e cooperativas, a estimativa apresentada por ela é de aproximadamente 1.450 catadores na capital.

A representante do movimento ressalta que levar as reivindicações aos governantes não garante que elas sejam atendidas. Segundo ela, a categoria apresenta anualmente um caderno de demandas às autoridades, mas parte das solicitações não se transforma em medidas concretas.

“Levar as demandas a gente leva, mas eu acho que, no final, mesmo a gente cobrando, muita coisa fica sem ser resolvida”, afirma.

Uma das expectativas do intercâmbio é reunir as experiências de trabalhadores de diferentes regiões do país para elaborar uma Carta Climática com propostas que possam ser apresentadas na COP31. A intenção é ampliar a participação dos catadores nas discussões sobre adaptação climática e cobrar ações que garantam condições dignas de trabalho.

A representante dos catadores também destaca a importância da conscientização da população sobre a separação correta dos resíduos. Para ela, a destinação adequada dos materiais recicláveis, desde as residências, contribui para melhorar as condições de trabalho nas cooperativas. A catadora defende ainda que o tema seja incorporado à grade curricular das escolas.

“Meu coração está voltado para a esperança da nossa carta de mudanças climáticas, sabe? Que ela seja aceita, que ela seja vista,” diz Neli.

A carta para COP31 será finalizada nesta sexta-feira (23/10). As reuniões realizadas nesta semana, uniram os catadores para terem a oportunidade de dialogar. O próximo passo, ao longo dos próximos dias, é estruturar todas as reivindicações que serão levadas à Turquia.

Fundación Avina, Wiego e Work

A Fundación Avina é uma organização filantrópica latino-americana de alcance global que promove o desenvolvimento sustentável por meio de processos colaborativos e alianças multissetoriais.

A Wiego é uma rede global de pesquisa, políticas públicas e apoio focada em melhorar as condições de vida e trabalho das pessoas que atuam na economia informal, com especial atenção às mulheres e aos trabalhadores de baixa renda.

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Já a Work é uma organização internacional sem fins lucrativos focada no combate à pobreza extrema, com atuação principal no Haiti, mas também em outros países, contribuindo com que famílias saiam da vulnerabilidade social e econômica por meio do trabalho digno.

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