Pirataria na mineração: como quadrilhas saqueiam minério na Grande BH?
Rede de corrupção que envolveria empresas, políticos, ex-policiais, agentes públicos e advogados deixa rastro de devastação e rombo estimado em R$ 700 mi
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Quem deixou Belo Horizonte pela BR-356 ou acessou o trevo da rodovia no Bairro Olhos D’Água rumo ao Barreiro nas últimas décadas viu, do alto de um dos morros da Serra do Cachimbo (Rola-Moça), as placas de publicidade da antiga Mannesmann, depois da Vallourec, hoje da Ypslon. Uma imagem que pode deixar de existir em breve devido ao avanço diário de uma erosão no paredão de 50 metros. O desmoronamento progressivo é o resultado da atividade clandestina e agressiva de quadrilhas de mineradores ilegais que atuam entre a rodovia, em Belo Horizonte, e sua continuação, a BR-040, entre Nova Lima e Itabirito.
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De acordo com estimativas de ativistas ambientais que combatem a chamada máfia da mineração, de 2022 até agora, cinco pontos de extração ilegal naquela área podem ter rendido mais de R$ 700 milhões em minério que é patrimônio da União. Para trás, deixam erosões que ameaçam estradas, construções e o meio ambiente e um rastro de crimes do qual o furto de minério é só a primeira parte.
A equipe de reportagem do Estado de Minas foi a esses pontos onde estradas foram abertas na mata e grandes áreas de extração foram escavadas pelas quadrilhas dos chamados “barranqueiros”. Os estragos deixados pela mineração, por trás da qual se estima haver uma teia de políticos e servidores públicos corruptos e advogados a serviço do crime e da sonegação, se expandem devido ao impacto das chuvas, em locais de grande movimento.
FLAGRANTE E AGRESSÃO
Uma amostra da agressividade dos criminosos ocorreu no último dia 4 de setembro. Ao serem flagrados pela deputada federal Duda Salabert (confira entrevista) e pelo engenheiro ambiental e ambientalista Felipe Gomes, barranqueiros atacaram a dupla. A parlamentar do Psol teve um ombro deslocado; Gomes acabou sendo espancado pelos seguranças da extração clandestina, no Bairro Belvedere, entre a BR-356 e a MG-030, próximo ao BH Shopping, Zona Sul da capital. Os criminosos foram denunciados e a Polícia Civil investiga o caso como tentativa de homicídio.
O rombo aberto pelas escavadeiras clandestinas na área nobre da capital mineira engoliu 5.800 metros quadrados de cerrado do tipo savana gramíneo-lenhosa, na transição com a mata atlântica. O barranco de 30 metros de altura ainda exibe as ranhuras deixadas por escavadeiras e tem cedido devido às erosões que se espalham ao longo do corte. A menos de 10 metros da borda fica a linha ferroviária federal que está desativada e que é disputada para se tornar estrada ou parque linear. Mas que pode desmoronar antes de ganhar nova função.
Do outro lado, o barranco já engoliu vários mourões de cerca da via férrea, deixando alguns deles ainda dependurados. No solo acima da escavação, rachaduras da largura da mão de um adulto indicam que grandes porções do terreno podem se desprender e desmoronar a qualquer momento, ampliando os estragos.
RASTROS DO CRIME
No fundo dessa cava clandestina há também marcas das esteiras das escavadeiras e dos pneus de carretas usadas para carregar o minério extraído ilegalmente. Barris usados na operação e troncos de árvores derrubadas no processo de escavação e extração ficaram abandonados em uma das curvas do acesso. Não há sinais de retorno recente às atividades clandestinas, ao menos naquele ponto.
O local não é desconhecido da fiscalização. Em 7 de janeiro de 2025, a Polícia Militar fiscalizou e autuou os clandestinos, o mesmo tendo ocorrido no ano anterior – quando a operação irregular começou –, em 15 de julho, naquela oportunidade por fiscais da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad-MG).
Trata-se de área sensível do ponto de vista ambiental. Está dentro de uma zona que abrange oito das consideradas Áreas Prioritárias de Minas Gerais para: adaptação aos efeitos da crise climática; conservação e revitalização da oferta hídrica; conservação e revitalização de mananciais; conservação, restauração e uso sustentável da biodiversidade e serviços ecossistêmicos; restauração de ecossistemas terrestres e aquáticos; educação ambiental; unidades de conservação estaduais prioritárias para pesquisa; e unidades estaduais de planejamento.
Fica também dentro da Área de Preservação Ambiental Sul (APA Sul Metropolitana) e na zona de amortecimento do Parque Estadual da Serra do Rola-Moça e do Parque Municipal Aggeo Pio Sobrinho (Buritis-Olhos D’Água).
VOLTA AO LOCAL DO CRIME
Já o estrago produzido no morro que é parte da Serra do Cachimbo, no Bairro Olhos D’Água, começou em 2019 e vem sendo alvo de diversas fiscalizações, o que não impediu os criminosos de sempre retornarem depois de alguns dias. A Polícia Militar fiscalizou a extração clandestina em 17 de dezembro de 2022, em 6 de março de 2024 e em 18 de agosto de 2024. No ano passado, a Semad realizou duas fiscalizações, em 30 de abril e em 13 de maio.
O estrago deixado é mais grave naquele ponto e se estende por um hectare de área. Cercas falhas no entorno do barranco escavado impedem um acesso direto, mas a equipe de reportagem testemunhou diversos caminhões entrando na área por meio de uma estrada de terra que vem dos fundos do terreno.
Vários setores da escavação naquele trecho ao Sul de Belo Horizonte escavado por mineradores clandestinos estão em contínuo desabamento, tanto que a equipe do EM presenciou pelo menos cinco deslizamentos pequenos enquanto esteve no local. As grandes pilhas de solo na base do maciço são uma pista clara de que vários escorregamentos vêm ocorrendo, tendo também rochas grandes se desprendido e rolado até o solo, algumas do tamanho de motocicletas. Nos montes e nas bordas mais altas do barranco escavado, com mais de 50 metros de altura, há árvores penduradas, cercas pendendo de finas camadas de solo e placas de publicidade prestes a desabar.
Valas profundas abertas pelas enxurradas em dias de chuva mostram que a degradação não é apenas superficial. Trincas e rachaduras no paredão confirmam a possibilidade de grandes setores virem abaixo ao se desprenderem do paredão do barranco ou da borda quase sem sustentação no alto.
PEDIDO DE LAVRA EM ABERTO NA ANM
A área onde ocorreu a extração clandestina tem um processo de requerimento de lavra de mineração aberto em 2009 na Agência Nacional de Mineração (ANM) para a extração de minério de ferro, sendo a última movimentação registrada em 11 de setembro de 2026, com o cumprimento de exigências burocráticas em nome de uma mineradora de médio porte. Há também registro de uma nascente do Córrego da Mutuca correndo no terreno, que percorria 786 metros para abastecer o manancial. Essa não existe mais.
A montanha violada está dentro de uma zona que abrange quatro das consideradas Áreas Prioritárias de Minas Gerais para adaptação aos efeitos da crise climática; ampliação da rede de áreas protegidas; educação ambiental; e unidades de conservação estaduais prioritárias para pesquisa. Também fica dentro da Área de Preservação Ambiental Sul (APA Sul Metropolitana).
PERIGOSOS E VIOLENTOS
O engenheiro ambiental e ambientalista Felipe Gomes denuncia e combate a máfia da mineração há pelo menos seis anos. De acordo com ele, os barranqueiros que agem desde pelo menos 2022 em cinco pontos entre Belo Horizonte, Nova Lima e Itabirito já extraíram um volume de minério equivalente a R$ 700 milhões. Só a operação no Belvedere seria responsável por R$ 30 milhões.
“Os barranqueiros são o tipo de criminoso dessas máfias da mineração que agem totalmente na ilegalidade. Tentam esconder a sua operação agindo à noite. Alugam máquinas e caminhões, pagam operadores especializados. Em algumas extrações, fecham a área com tapumes para disfarçar a atividade, como se fosse um canteiro de obras. São extremamente perigosos e violentos. Gente que migrou de atividades criminosas como tráfico de drogas, que é crime inafiançável, para, com o roubo de minério, arriscar penas entre 6 meses e um ano, ou seja, não ficam presos. Isso, para eles, compensa”, afirma Gomes.
No caso da mineração clandestina do Belvedere, Gomes aponta algumas características que puderam ser levantadas sobre os barranqueiros depois que a Polícia Civil entrou no caso devido à agressão contra a deputada Duda Salabert. “Mesmo sendo uma área pública, eles fizeram uma estrada que vem de um outro empreendimento, que é também uma invasão. Na outra estrada colocaram um portão. Eles agem com seguranças e também com gente que sabe operar as máquinas. Têm grupos de WhatsApp pelos quais organizam ações em diferentes locais, com diferentes caminhoneiros e operadores”, conta o ambientalista.
“Tudo o que usam é alugado. Alugam máquinas, caminhões, um ponto intermediário com galpão para guardar o maquinário. À noite, saem e levam as máquinas em caminhões-prancha e depois retiram. No Belvedere, só o aluguel da retroescavadeira foi de R$ 25 mil por mês, realizado no município de Mariana. O responsável é um traficante de entorpecentes. Apesar de ele não ser ligado ao setor minerário, a estrutura da quadrilha é. Porque precisam ter um comprador. Imagine 50 carretas de minério rodando na madrugada, tem de ser para alguém grande receber, alguém que tenha estrutura”, considera Gomes.
“FACÇÃO MINERÁRIA”
De acordo com ele, o grau de organização e de influência da máfia da mineração em Minas Gerais está para o estado como o PCC está para São Paulo, ou os traficantes e milícias para o Rio de Janeiro. “Já foram encontrados policiais militares reformados fazendo a segurança para as quadrilhas, e isso é uma característica das milícias. Nas operações como a Operação Rejeito, contra as mineradoras ilegais ou funcionando com termos de ajustamento de conduta (TACs), vimos a corrupção de agentes públicos na Polícia Federal, na ANM (Agência Nacional de Mineração), na Semad, entre políticos, entre advogados, entre empresários”, descreve.
A estrutura da mineração pirata é descrita em três níveis de atuação em Minas Gerais, segundo o ambientalista Felipe Gomes que denuncia os crimes em Minas Gerais desde 2020. O mais alto estrato (que envolve maiores valores e sofisticação) se refere a grandes empresas mineradoras tradicionais, com licenças e operações regulares, mas que sonegam a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM).
São empresas que agem como receptadoras do minério ilegal de outras minerações e também algumas grandes siderúrgicas, segundo ele. “Essa parte da máfia se infiltrou na economia tradicional. Um caminhão de minério é uma logística muito complexa, mas os grandes vão ainda mais longe, realizando triangulações lícitas em paraísos fiscais, deixando de arrecadar impostos, além de também colaborarem para crimes ambientais”, afirma Gomes.
Ou seja, em vez de o minério sair diretamente do produtor brasileiro para o comprador final, aparecem empresas intermediárias. São usadas para atribuir artificialmente o lucro a uma empresa situada em uma jurisdição de baixa tributação, enquanto a atividade econômica que efetivamente gerou aquele lucro ocorreu no Brasil, que não recebe o devido pelo minério extraído.
RECUPERAÇÃO DE FACHADA
O segundo estrato é atribuído por Gomes a mineradoras e teias de empresas com composições societárias interligadas, como as vistas na Operação Rejeito, desencadeada pela Polícia Federal em 17 de setembro de 2025, em Minas Gerais, depois de denúncias da reportagem do Estado de Minas sobre suas ligações com atividades que degradam o patrimônio natural. A investigação revelou um esquema de corrupção e fraudes em processos de licenciamento e fiscalização de atividades minerárias, com suspeitas envolvendo empresários e agentes públicos.
A operação cumpriu 79 mandados de busca e apreensão e 22 de prisão e, segundo informações divulgadas à época, a investigação apontava movimentação de pelo menos R$ 1,5 bilhão pelo grupo investigado. Ao todo, 19 empresas tiveram atividades suspensas.
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“Essas empresas fingem estar operando com a desculpa de recuperação ambiental de uma área ou de realização de outras atividades, como terraplanagens, pedem licenças para construir uma estrutura como um galpão, pedem licenças corretivas, mas, no fim, o que fazem é extrair o minério sem licenças, aproveitando da corrupção de agentes públicos”, aponta Gomes. “Os barranqueiros são a biqueira da máfia, o pequeno, mas que lucra mais de meio bilhão só nas operações próximas a Belo Horizonte, mas sabemos que isso ocorre em Sabará, Barão de Cocais e outros locais”, alerta Felipe Gomes.