REPERCUSSÃO

Quem é o pastor da Lagoinha condenado por suas falas de ódio contra mulheres

Líder do movimento ‘Loucos por Jesus’ e autor de 40 livros, o pastor Lúcio Barreto Júnior foi obrigado a pagar R$ 150 mil por danos morais coletivos e a se retratar

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Lúcio Barreto Júnior, conhecido como Pastor Lucinho, foi condenado nessa semana a pagar R$ 150 mil por danos morais coletivos, além de uma retratação pública por falas consideradas de “ódio contra as mulheres” pela Justiça mineira. Mas quem é o pastor da Igreja Batista da Lagoinha, considerado uma das grandes lideranças evangélicas de Belo Horizonte?

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Lucinho nasceu na capital mineira em 25 de outubro de 1971. Ele se consolidou como uma das figuras religiosas de maior visibilidade no cenário evangélico brasileiro, sendo líder da Lagoinha em BH.

Sua trajetória une a atuação voltada ao público jovem a uma carreira como escritor e conferencista. Filho de Miralda Godinho e Lúcio Barreto, ele teve os primeiros contatos com o protestantismo na infância e declarou sua conversão na adolescência, quando morava em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce.

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Após uma temporada nos Estados Unidos na década de 1990, retornou a Minas Gerais e fixou residência em Belo Horizonte. Na cidade, integrou-se às frentes de evangelização da Igreja Batista da Lagoinha.

Lucinho buscou formalizar seu chamado religioso com um bacharelado em Teologia Ministerial pelo Seminário Teológico Evangélico do Brasil (STEB). Posteriormente, concluiu o Mestrado em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana (FTSA), em Londrina (PR).

Pelo trabalho direcionado à juventude, recebeu reconhecimentos públicos locais, como o título de Cidadão Honorário de Belo Horizonte e um Diploma de Honra ao Mérito.

O fenômeno dos "Loucos por Jesus"

O ministério do pastor ganhou projeção nacional com o movimento conhecido como "Loucos por Jesus". O projeto é voltado para adolescentes e jovens e busca engajar fiéis em um cristianismo considerado por ele "acima da média".

Lucinho possui cerca de 40 livros publicados. Entre os títulos de maior repercussão estão "Manual de Sobrevivência para o Jovem Cristão", "As 100 Dicas para Pregadores Loucos por Jesus" e a série em três volumes "Loucos por Jesus", que narra testemunhos de perseguição religiosa a cristãos no mundo.

Junto à esposa, Patrícia Barreto, com quem tem dois filhos, o pastor liderou expedições missionárias e ações sociais internacionais em países como Índia, Haiti, Jordânia e Nepal.

Por que Pastor Lucinho foi condenado?

Um discurso feito durante um evento religioso na Igreja Batista da Lagoinha para mais de mil homens terminou com a condenação do Pastor Lucinho e da instituição. Durante a programação, o pastor relatou ter beijado na boca a filha, quando ela tinha 11 anos, e fez outras declarações sobre a menina. A Justiça considerou que as falas ultrapassaram os limites da liberdade de expressão e religiosa e determinou o pagamento de R$ 150 mil por danos morais coletivos, além de uma retratação pública do pastor e que a igreja divulgue o conteúdo em seus canais oficiais.

O episódio aconteceu durante uma programação voltada à educação dos filhos, realizada nas dependências da igreja. De acordo com a ação apresentada pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Lucinho contou aos participantes que havia beijado a filha na boca quando ela tinha 11 anos, enquanto a menina estava distraída.

Ainda conforme o MP, durante o relato, ele afirmou ter chamado a filha de “mulherão” e usado a expressão “ai se eu te pego”. Lucinho também teria dito que, caso a menina tivesse um namorado no futuro, o rapaz seria “o segundo”, porque ele já havia beijado a filha.

Na ação, o Ministério Público argumentou que as falas ultrapassaram os limites da intimidade familiar e da liberdade religiosa e de expressão. O órgão considerou que o discurso objetificou o corpo feminino, naturalizou a violação do consentimento e reforçou estereótipos de submissão e posse.

O que dizem os réus

A Igreja Batista da Lagoinha alegou no processo que as declarações foram feitas dentro do exercício da liberdade religiosa e de expressão. Para a instituição, as falas tinham caráter exagerado e afetuoso e estavam relacionadas a uma tentativa de elevar a autoestima da filha.

A defesa da igreja também sustentou que a instituição não deveria ser responsabilizada por declarações feitas pelos pastores e afirmou não ter controle editorial sobre as falas realizadas durante cultos e eventos.

O pastor afirmou que suas manifestações estavam protegidas pelas liberdades constitucionais de crença e expressão. Ele também disse que o episódio aconteceu em 2011, durante uma brincadeira com os filhos, e negou qualquer conotação sexual.

Juíza aponta discurso de ódio

Na decisão, a juíza Miriam Vaz Chagas, da 17ª Vara Cível da Comarca de Belo Horizonte, ressaltou que a liberdade de crença, pensamento e religião é garantida pela Constituição, mas não pode ser usada para justificar discursos que promovam preconceito ou atinjam a dignidade de grupos protegidos.

Para a magistrada, a proteção constitucional às manifestações religiosas não permite a divulgação de discursos que normalizem a submissão feminina ou sexualizem crianças.

A juíza considerou que a combinação entre o relato do beijo, as expressões de teor sexual e a referência ao futuro namorado da filha demonstrou, segundo sua avaliação, uma visão de posse e dominação sobre o corpo feminino.

A decisão também afirma que a igreja tinha o dever de acompanhar as manifestações públicas realizadas sob sua autoridade espiritual e divulgadas em seus canais oficiais. Por isso, a falta de controle editorial alegada pela instituição não foi considerada suficiente para afastar sua responsabilidade.

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Com a condenação, igreja e pastor deverão pagar, de forma solidária, R$ 150 mil por danos morais coletivos. O dinheiro será destinado ao Fundo Especial do Ministério Público do Estado de Minas Gerais (Funemp).

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