Mais acesso à educação para crianças e jovens, porém com uma aprendizagem adequada abaixo do esperado, além da persistência de desigualdades. Esses são alguns dos resultados da 13ª edição do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026, divulgado nessa terça-feira (22/9). O documento, elaborado pelo Todos Pela Educação, Fundação Santillana e Editora Moderna, reúne dados e séries históricas dos últimos dez anos dos principais indicadores da educação básica, que compreende a educação infantil, ensino fundamental, médio, médio profissionalizante e educação de jovens e adultos, no Brasil, em 26 estados e no Distrito Federal.

O anuário mostra que, em 2025, o Brasil alcançou a marca de 43,3% das crianças de 0 a 3 anos matriculadas na educação infantil. O novo patamar representa um avanço de 2,2 pontos percentuais em relação ao ano anterior e de 12,7 p.p. em relação a 2015. O atendimento de crianças de 4 e 5 anos chegou a 96,1%. Embora ainda não universalizado, o acesso nessa faixa etária obrigatória ficou perto da meta do Plano Nacional de Educação e alcançou o maior resultado da série histórica, segundo os organizadores do documento.

Em Minas, são 40,7% das crianças de 0 a 3 anos matriculadas na educação infantil e 97,8% de crianças e jovens de 4 a 17 anos matriculados nos ensinos fundamental e médio.

Apesar do avanço, os dados reforçam um desafio que demanda alerta: as desigualdades começam muito cedo no país. O atendimento de 0 a 3 anos é de apenas de 34,7% entre os mais pobres contra 54,7% entre os mais ricos.

A desigualdade se perpetua também nos recortes étnico-raciais. Em 2025, enquanto 92,1% dos jovens brancos e amarelos já haviam concluído o ensino fundamental aos 16 anos de idade, 86,3% dos pretos, pardos e indígenas conseguiram finalizar a mesma etapa. No ensino médio, a diferença é ainda maior. No mesmo período, 81,7% dos jovens brancos e amarelos conseguiram concluir a etapa aos 19 anos. Entre pretos, pardos e indígenas o número cai para 69,5%;

Aprendizagem abaixo do básico

Entre os indicadores de aprendizagem, o Anuário já inclui os resultados da edição 2025 do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), em agosto. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, por exemplo, os dados mostram que 11% dos alunos do 5º ano da rede pública estavam no nível abaixo do básico em Língua Portuguesa e 16,9%, em Matemática.

Já nos anos finais do Ensino Fundamental, apenas 18,8% dos jovens do 9º ano do Ensino Fundamental da rede pública tinham aprendizagem adequada em Matemática, enquanto, em Língua Portuguesa, o percentual era de 38,3%. Em Minas, 24% dos alunos tinham aprendizagem adequada para Matemática e 43% para Língua Portuguesa.

Arte educação básica

Soraia Piva


No Ensino Médio, apenas 8,5% dos jovens da rede pública apresentavam aprendizagem adequada em Matemática, enquanto em Língua Portuguesa esse percentual era de 35,2%. Em Minas, foram apenas 12% para Matemática e 39,9% para Língua Portuguesa.

Avanços e desafios

O professor André Lázaro, diretor de Políticas Públicas da Fundação Santillana, avalia que o anuário mostra resultados que devem ser comemorados, como a quase totalidade de crianças e jovens, entre 4 a 17 anos, matriculadas nas escolas. “É um esforço muito importante das famílias e das redes de ensino. Tem uma confiança na educação que é de se registrar” afirma.

Lázaro também destaca a melhora no financiamento da educação pública brasileira. “O Fundeb permanente foi fruto do esforço da sociedade brasileira. Ele triplicou a contribuição da União à educação básica e se tornou uma das despesas mais importantes do MEC.”

Ele lembra que, em 2005, 30% das crianças de 7 anos, eram reprovadas no primeiro ano do ensino fundamental, um estímulo para que esses alunos abandonassem a escola. “Conseguimos sair desse absurdo de reprovação para uma distorção idade/série que caiu muito em todas as etapas da educação básica”, avalia.

O professor destaca que esses estudantes eram alunos pobres, negros e periféricos. “Ter melhorado muito o processo de inclusão e de permanência de trajetórias, é uma conquista brasileira inegável. Mas estamos perdendo ao não conseguir gerar uma aprendizagem significativa. Temos uma tragédia na aprendizagem, que não é fruto de um único fator”, pontua.

“Ampliamos a cobertura, melhoramos o fluxo, o investimento, o piso do magistério que hoje é de pouco mais de R$ 5 mil. Mas nossa grande tragédia é a aprendizagem muito precária a partir dos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio”, completa.

Outro desafio, segundo ele, é diminuir as desigualdades entre estudantes de escolas da rede pública e privada. “A educação não pode naturalizar nem reproduzir as desigualdades. É preciso ter uma atenção muito grande dentro de cada escola para impedir que os preconceitos se projetem por sobre os muros e impactem as condições das crianças. Acho que estamos conseguindo avançar, para enfrentar parte dessa desigualdade, com a escola em tempo integral”, avalia.

Para Lázaro, o maior tempo de permanência dos estudantes na escola, aliado à alimentação de qualidade e um conjunto de atividades ampliam conhecimentos, espaços e linguagens destes alunos. “A educação integral acrescenta, amplia o capital cultural dos estudantes e tem impacto nas aprendizagens. Parte dessa desigualdade está sendo enfrentada dentro da escola, mas temos que enfrentar a desigualdade fora da escola também.” Ele destaca que a jornada de trabalho é excessiva para a população mais pobre, que precisa de mais tempo para conviver com a família.

Menos interesse pela docência

O anuário revela ainda a queda no percentual de alunos que ingressam na licenciatura – modalidade de graduação no ensino superior que prepara o estudante para atuar como professor na educação básica. Outro desafio é a formação inicial dos professores. Em 2025, apenas 20,2% de quem se formava nos cursos de licenciatura avaliados atingiram o nível adequado. Já 42,2% ficaram abaixo do nível básico no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). A situação é ainda mais preocupante entre os estudantes de cursos a distância: 53,1% ficaram abaixo do nível básico, contra 26,1% na modalidade presencial.

“A proporção de estudantes do ensino médio que querem se tornar professores é muito baixa. E a maior parte deles foram os que tiveram resultados mais fracos no Enem. Não estamos conseguindo captar, como outros países, os bons estudantes para se tornarem profissionais do magistério”, ressalta o professor André Lázaro.

Além disso, os professores que se formam convivem com a precarização da profissão. Segundo o professor, no Brasil, metade dos profissionais das redes estaduais tem contrato de trabalho temporário. Em Minas Gerais, 42% dos docentes são estáveis e efetivos. O que significa que 58% são trabalhadores temporários.
“A educação está sendo desmontada e esvaziada por dentro. Isso é lamentável. Contratos temporários não formam equipe, não fazem formação continuada. O professor está sempre sob ameaça de uma eventual demissão. Infelizmente o MEC e o Conselho Nacional da Educação não tomaram nenhuma atitude em relação a essa precarização”, lamenta.

Mais procura por ensino profissionalizante

Outro destaque do anuário é o aumento de matrículas da Educação Profissional e Tecnológica (EPT). No nível médio, as matrículas mais que dobraram em dez anos - de 764 mil, em 2015, para 1,58 milhão, em 2025. Só no último ano, houve um aumento recorde de 244 mil matrículas.

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Os eixos de Gestão e Negócios (499 mil alunos) e Informação e Comunicação (362 mil) somaram, em 2025, mais da metade das vagas da EPT de nível médio no Brasil. A oferta, porém, é desigual entre os estados. O Piauí lidera com 62,6% dos alunos no ensino médio técnico. Na outra ponta, no Amazonas, representam apenas 5,9% das matrículas na modalidade. Em Minas Gerais, 24% das matrículas de nível médio foram para formação técnico-profissional. 

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