‘Um ano de dor’: família de Priscilla Mundim aguarda julgamento de policial
A advogada da família da vítima de feminicídio diz que os familiares se sentem frustrados por ainda não ter uma data para o desfecho do caso
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"Um ano de dor e saudade". É assim que a irmã de Priscilla Azevedo Mundim Pantuzza descreve o período que a família passou desde que a auxiliar administrativa foi morta pelo ex-namorado, o policial penal Rodrigo Caldas Fonseca. O crime aconteceu em 16 de agosto de 2025. A postagem foi feita nas redes sociais quando o feminicídio completou um ano.
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O julgamento do policial penal ainda não tem data. De acordo com o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), a ação penal contra ele está na 2ª Instância por causa de um recurso. Depois da decisão de que ele vai ser julgado pelo Tribunal do Júri, a Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais (DPMG), que faz a defesa do réu, recorreu.
Em junho deste ano, a Justiça informou que Rodrigo Caldas vai a júri popular. A decisão foi tomada pela juíza Ana Carolina Rauen Lopes de Souza, do Tribunal do Júri – 1º Sumariante da Comarca da Capital. Além da sentença de pronúncia, a juíza manteve a prisão preventiva do réu.
Em maio, ele passou por exame de insanidade mental. Segundo a Justiça, o laudo pericial concluiu que Rodrigo Caldas não apresenta dependência toxicológica nem alcoólica e tem capacidades normais de entendimento e determinação dos fatos do ponto de vista da psiquiatria forense.
O exame havia sido pedido pela Justiça porque o policial penal estava afastado das funções desde o início de 2024 por problemas psiquiátricos, segundo informou a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) na época do crime.
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Frustração
Ana Luiza França, advogada da família de Priscilla, atua no caso como assistente de acusação, ao lado do Ministério Público. Ela diz que o sentimento da família é de frustração diante da falta de uma data para o julgamento.
"A família fica extremamente frustrada. A expectativa era que depois da audiência fosse ter o trâmite normal e saberíamos o dia do julgamento", afirma.
A instauração do incidente de insanidade mental, pedido pela defesa, atrasou ainda mais a definição. "Não imaginava que a defensoria iria recorrer, mas estão fazendo o papel deles. Tenho a expectativa de que este recurso não passe no Tribunal", avalia.
A advogada explica que o recurso para a Corte é em relação a uma das três qualificadoras do crime, imputadas ao acusado. O policial penal responde por feminicídio com as qualificadoras de violência doméstica e familiar, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima.
Depois que o recurso para TJMG foi julgado, ainda caberia um outro recurso para o Superior Tribunal de Justiça (STJ). A advogada da família de Priscilla diz que espera o resultado do recurso de apelação para ver se a Defensoria irá recorrer. "Aguardamos os próximos trâmites."
Na visão dela, a data do julgamento não deve demorar a ser marcada, já que o réu está preso. "Recurso neste caso não costuma demorar muito", pontua.
A advogada lembra que a família é muito ativa nas redes sociais, com postagens no perfil de Instagram Justiça por Priscilla. "Participam de caminhadas de violência contra mulher, todas as campanhas contra feminicídio."
Denúncia
Segundo a denúncia do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Priscilla foi esfaqueada, espancada e sofreu ferimentos no rosto, no tórax, nos braços e nas pernas. Em seguida, foi morta por estrangulamento dentro do apartamento do acusado, no Bairro Padre Eustáquio, Região Noroeste de Belo Horizonte, na madrugada de 16 de agosto de 2025.
Pela manhã, ela foi encontrada morta, deitada na cama, enquanto o então namorado ameaçava tirar a própria vida. Ele chegou a se esfaquear na barriga, mas foi socorrido e sobreviveu. Após se recuperar dos ferimentos, o policial penal foi detido.
Depois da prisão, devido ao cargo público exercido pelo acusado, o Departamento Penitenciário (Depen) relatou que seria instaurado um procedimento administrativo pela Corregedoria. O Estado de Minas entrou em contato com a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), para saber sobre o andamento do processo na Corregedoria.
Em nota, a Sejusp informou que este se encontra em fase de instrução. "Vale ressaltar que a Sejusp não compactua com desvios de conduta de seus servidores. Toda e qualquer suspeita é apurada com rigor, por meio de sua Corregedoria, sempre respeitando o devido processo legal e os princípios da ampla defesa e do contraditório. Medidas administrativas e, quando necessário, judiciais são adotadas com a seriedade que o tema exige", conclui.
Crime aconteceu após tentativa de término
Na noite anterior ao crime, o casal participou de uma confraternização na casa da irmã de Priscilla. Familiares relataram que, durante o encontro, o policial penal demonstrou ciúmes excessivos e chegou a se irritar por situações consideradas banais.
Segundo parentes, Priscilla havia comentado que se sentia sufocada pelo comportamento possessivo do namorado e pretendia colocar fim ao relacionamento.
Depois que o casal deixou a reunião, familiares tentaram contato para confirmar se eles tinham chegado ao apartamento, porém ninguém respondeu às mensagens nem às ligações.
Na manhã seguinte, preocupados com o desaparecimento de Priscilla, a irmã dela e o cunhado foram até o apartamento de Rodrigo. Após diversas tentativas de contato, o policial atendeu ao telefone e disse apenas que havia "feito merda", pedindo que eles acionassem a Polícia Militar.
Histórico de comportamento possessivo
Durante a investigação, familiares e amigos disseram que Rodrigo monitorava os deslocamentos da companheira, cobrava explicações sobre publicações nas redes sociais e demonstrava comportamento controlador.
No inquérito, a Polícia Civil concluiu que Priscilla havia decidido encerrar o relacionamento dois dias antes do crime, mas voltou a encontrar o namorado na noite anterior ao feminicídio.
Também foi revelado que uma ex-companheira do policial penal registrou um boletim de ocorrência contra ele em 2024 por perseguição, após o fim do relacionamento. Na ocasião, ela declarou que Rodrigo insistia em procurá-la, permaneceu por horas na porta do local onde ela trabalhava. Em razão disso, ela pediu uma medida protetiva contra ele por temer o fácil acesso do acusado a armas de fogo em razão da profissão.
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O que diz a defesa?
A defesa do policial penal Rodrigo Caldas Fonseca é feita pela Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais. Procurada pelo Estado de Minas para falar sobre o caso, a DPMG se limitou a dizer, em nota, que "em cumprimento aos seus deveres constitucionais, atua na garantia do direito de ampla defesa do réu". "Como representante processual, não comenta sobre casos criminais concretos, em especial os que tramitam sob sigilo", ressaltou.