As estradas estão enfrentando um inimigo que não aparece nos mapas, o clima cada vez mais extremo. Para quem está ao volante, o desafio já faz parte da rotina: dirigir sob um calor intenso, com o asfalto sofrendo deformações, ou durante tempestade, com risco de alagamentos, perda de visibilidade e deslizamentos. Agora, também afetaa forma como rodovias são projetadas, administradas e mantidas.


O problema é visível em diferentes partes do mundo. Na Europa, ondas de calor extremo e incêndios restringiram o tráfego em trechos. No Brasil, as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, os episódios de chuvas intensas registrados no início deste ano na Zona da Mata mineira e a sequência de queimadas e temperaturas elevadas mostram que os eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção, afetando as estradas por onde passam 65% das cargas do país.


Em Minas Gerais, concessionárias começaram a combinar monitoramento climático, ciência e engenharia para prevenir riscos e reduzir impactos. Considerada uma das rodovias mais desafiadoras do país por atravessar regiões montanhosas e de geologia complexa entre Belo Horizonte e Governador Valadares, a BR-381 se adapta à nova realidade desde que houve nova concessão à iniciativa privada, há cerca de um ano e meio, quando a concessionária Nova 381 estruturou o Programa de Resiliência Climática, que reúne monitoramento meteorológico, recuperação da infraestrutura e protocolos de resposta rápida.


A empresa administra 303,4 quilômetros, passando por 21 municípios entre a capital e a cidade polo do Leste de Minas. No trecho entre Caeté e Governador Valadares, passou a acompanhar de forma contínua as condições climáticas e os pontos mais vulneráveis.


Embora o contrato previsse apenas um equipamento meteorológico, instalou cinco. Eles ficam próximos aos pontos de arrecadação eletrônica e acompanham índices pluviométricos e incidência de raios, enviando as informações via satélite para o Centro de Controle Operacional (CCO).


Segundo a gerente de Qualidade, Segurança, Meio Ambiente e Responsabilidade Social (QSMR) da Nova 381, Egle Humphreys, a prevenção passou a orientar as decisões da concessionária, que as encaminha às equipes de operação, engenharia e conservação. Quando há previsão de chuva intensa, granizo, queimadas ou outra situação crítica, a empresa pode acionar uma sala virtual de crise, reunindo representantes das áreas envolvidas para acompanhar o cenário e definir medidas.


A prevenção também envolve obras na infraestrutura. A concessionária realiza a recuperação dos sistemas de drenagem, com limpeza e desobstrução de galerias e dispositivos de escoamento de água. Segundo ela, quatro pontos que historicamente registravam alagamentos foram eliminados.


Outro eixo do trabalho é o acompanhamento dos taludes. A BR-381 possui 32 pontos monitorados continuamente e classificados conforme critérios geotécnicos como inclinação, presença de fissuras, erosões e características do solo. Os locais mais sensíveis estão concentrados principalmente no chamado Lote 8, onde a composição do terreno aumenta a possibilidade de instabilidade. Com base nesse levantamento, quatro obras prioritárias de estabilização estão em fase final de projeto e devem começar a ser executadas neste segundo semestre.


O investimento inicial no Programa de Resiliência Climática e nas estações meteorológicas ficou entre R$ 900 mil e R$ 1 milhão. A Nova 381 prevê ampliar o monitoramento com novos equipamentos e tecnologias.


A concessionária também realizou interdições preventivas em pontos com movimentação de terreno para evitar acidentes. Segundo a empresa, entre 2025 e 2026, mesmo com volumes elevados de chuva, não foram registrados acidentes relacionados aos taludes monitorados nem alagamentos nos pontos onde houve recuperação da drenagem.

 

Em Nova Lima, Centro de Controle Operacional (CCO) da EPR Via Mineira, que administra a BR-040, faz monitoramento climático 24 horas por dia, sete dias por semana

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press – 30/6/2026

040


Na BR-040, administrada pela EPR Via Mineira, a adaptação aos eventos climáticos extremos passou a fazer parte da rotina. O trecho de 232 quilômetros entre a capital e Juiz de Fora, na Zona da Mata, atravessa 15 municípios, incluindo áreas do Quadrilátero Ferrífero, onde fatores como chuvas intensas, instabilidade de solo e queimadas exigem atenção constante.


Segundo o diretor executivo da empresa, Eric de Almeida, o debate sobre mudanças climáticas ganhou espaço no setor rodoviário e já influencia o planejamento das concessões. “É um tema bastante complexo. Hoje, a agência reguladora e a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias discutem formas de incorporar o conceito de resiliência climática aos contratos”, explica.


A concessionária mantém um acompanhamento contínuo por meio do CCO, que funciona 24 horas por dia, em Nova Lima, na Grande BH. O sistema de monitoramento meteorológico, desenvolvido em parceria com a Climatempo, permite acompanhar as condições em tempo real e antecipar cenários de risco.


Os dados também orientam as equipes de campo e os projetos de engenharia. Quando há previsão de condições adversas, áreas consideradas mais sensíveis recebem acompanhamento reforçado, com atuação integrada entre operação, conservação e engenharia.


A concessionária também realiza limpeza e desobstrução de sistemas de drenagem, conservação e ampliação das estruturas de escoamento da água, inspeções em encostas e intervenções para reduzir riscos de erosão e instabilidade. E mantém diálogo com municípios “cortados” pela rodovia, já que intervenções urbanas podem afetar a operação.


Segundo Eric, a BR-040 atualmente não possui pontos considerados críticos de forma permanente. No entanto, trechos com taludes mais inclinados e áreas mais baixas recebem atenção especial.


A concessionária também aposta em soluções sustentáveis. Uma delas é o CAP Borracha, que utiliza pneus descartados na composição do asfalto, aumentando a resistência do revestimento e reduzindo impactos ambientais. “O investimento inicial é maior, mas o retorno ao longo do tempo também aumenta porque o pavimento suporta melhor as deformações provocadas pelas mudanças de temperatura”, explica Eric.


262


Quem também aposta em novos materiais de pavimentação para aumentar a segurança dos usuários e diminuir os custos com a manutenção diante do aumento de eventos extremos é a Way-262, responsável pelo trecho de 438,9 quilômetros entre Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), e Uberaba, no Triângulo Mineiro. Entre Campos Altos e Luz, a pista recebeu a aplicação do TSD poroso, revestimento que conta com adição de borracha de pneus reciclados, resultando em uma superfície mais rugosa e de maior aderência dos veículos, além de mais resistente.


Segundo o gerente de Engenharia da Way-262, Reginaldo de Morais, a concessionária iniciou a operação em março de 2025 e realizou um levantamento completo da rodovia para identificar pontos de risco e definir prioridades. A partir desse diagnóstico, foram executadas ações como recuperação de erosões, contenções e melhorias nos sistemas de drenagem.


“A chuva contribui para acelerar a degradação do pavimento, principalmente quando ocorre em volumes muito elevados. Sempre que identificamos algum problema, realizamos intervenções rapidamente”, explica.


Além das obras, a concessionária mantém ações diárias de conservação, como limpeza dos dispositivos de drenagem, roçadas nas margens da rodovia e acompanhamento dos pontos mais sensíveis. Outro ponto de atenção é a neblina, principalmente em Campos Altos, onde a altitude favorece o fenômeno.


Há seis meses, a Way-262 passou a utilizar um sistema de monitoramento climático, que reúne dados meteorológicos. Em caso de eventos severos, como granizo, são emitidos alertas.


Segundo o coordenador do CCO da Way-262, Carlos Rogério, a tecnologia utiliza informações de bases públicas, como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Os dados permitem preparar equipes, organizar recursos e avaliar se intervenções podem ser realizadas com segurança diante das condições previstas.


Clima mudou


Segundo o professor de Climatologia do IFMG – Campus Governador Valadares, Fulvio Cupolillo, Minas Gerais já apresenta mudanças no comportamento do clima. Uma das principais alterações está no regime de chuvas: a estação chuvosa está mais curta, com grandes volumes de água caindo durante períodos menores. Na prática, isso amplia riscos para estruturas como dutos de drenagens, pavimentos e encostas, favorecendo erosões e alagamentos. Além das mudanças nas chuvas, o aumento das temperaturas também passou a ser um desafio, pois a estação seca mais longa contribui para períodos mais quentes.


Segundo ele, acompanhar as tendências climáticas se tornou essencial para a gestão das rodovias, ajudando a antecipar obras, reforçar estruturas e preparar equipes. “Um clima diferente exige nova avaliação dos materiais utilizados e a forma de construir as rodovias.”


Professor da Escola de Engenharia da UFMG, especialista em pavimentação e em geotecnia, Ronderson Queiroz Hilário afirma que o avanço dos eventos climáticos extremos é novo desafio para as rodovias, mas também revela problemas antigos. “Quando aparece um problema no pavimento durante o período chuvoso, a culpa não é da chuva. Normalmente existe algum problema anterior, de execução, compactação, drenagem ou manutenção que acaba sendo evidenciado quando chega a água”, explica.


O especialista afirma que a infiltração é um dos principais fatores de degradação das pistas. Quando surgem fissuras no asfalto, a água consegue penetrar nas camadas inferiores do solo. Com o trânsito constante de veículos, especialmente com cargas pesadas, as trincas aumentam e aceleram o processo de deterioração. “O ideal é fazer a manutenção quando surgem os primeiros sinais, antes que o dano se agrave.”


Ronderson considera positivas soluções adotadas pelas concessionárias, como pavimentos com borracha reciclada. Outra alternativa apontada é o uso de pavimentos drenantes, conhecidos como asfalto poroso, que ajudam a reduzir o acúmulo de água e diminuem o risco de aquaplanagem.


Apesar das novas tecnologias, Ronderson alerta que o Brasil ainda precisa avançar na adaptação das rodovias ao novo cenário climático. Para ele, parte dos problemas está ligada ao próprio modelo de transporte do país, que concentra grande parte da movimentação de cargas nas estradas. “A nossa malha rodoviária sofre muito com o excesso de cargas pesadas. Enquanto outros países utilizam mais ferrovias para esse transporte, nós ainda concentramos esse impacto nas rodovias”, afirma.


Adaptação


Diante do aumento da frequência de eventos climáticos extremos, países têm buscado adaptar suas rodovias para um cenário de maior incerteza climática. Entre os exemplos internacionais de adaptação às mudanças climáticas, a Inglaterra tem revisado os sistemas de drenagem de suas rodovias com base em projeções de aumento das precipitações. Já na Califórnia, o departamento estadual de transportes, Caltrans, testa pavimentos de alta refletância que ajudam a reduzir a temperatura da superfície das vias durante períodos de calor extremo. No Japão, a NEXCO combina sensores geotécnicos e monitoramento meteorológico para identificar áreas suscetíveis a deslizamentos.


No Brasil, essa adaptação também entrou na agenda pública. A necessidade de preparar a infraestrutura para um clima mais extremo passou a ser incorporada pelo Ministério dos Transportes, que criou, em fevereiro de 2025, o Programa PRO-AdaptaVias. A iniciativa busca aumentar a resiliência da infraestrutura federal de transportes terrestres diante das mudanças climáticas, com ações de planejamento e desenvolvimento de soluções para tornar rodovias e ferrovias mais preparadas.


O programa prevê a criação do Sistema de Inteligência, Monitoramento e Gestão de Dados do PRO-AdaptaVias (SIM-AdaptaVias), que deverá reunir informações sobre riscos, vulnerabilidades e impactos climáticos para orientar investimentos e decisões. Um relatório do Projeto AdaptaVias já apontavam os principais riscos para a malha rodoviária brasileira: erosões, assoreamentos, alagamentos e inundações.


As pesquisas mostram que chuvas intensas aumentam o transporte de sedimentos, comprometem sistemas de drenagem, reduzem a capacidade de suporte do pavimento e elevam os riscos de danos em pontes, galerias, aterros e taludes.


A reportagem procurou o Ministério dos Transportes para saber como o PRO-AdaptaVias está sendo implementado nas rodovias federais. Até o fechamento desta edição, porém, não houve retorno.

AÇÕES PALIATIVAS

Monitoramento permanente das condições climáticas


Utilização de materiais mais adequados e resistentes


Obras de manutenção da infraestrutura

Atenção especial a pontos considerados sensíveis

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Interdição preventiva de trechos sob risco

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