A AMIZADE

Depois de promessa de bar, amigos abrem garrafa de uísque após 30 anos

O bar Tonel da Pinga foi o palco da promessa e da abertura, depois de a garrafa passar 30 anos lacrada. Apenas três dos 11 amigos estiveram presentes no dia

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Entre as diversas narrativas que a capital dos bares coleciona, algumas histórias expõem o quanto esses botecos carregam memórias afetivas singulares. Ao final da década de 90, um grupo de 11 amigos se reuniu e prometeu abrir uma garrafa de uísque Long John 30 anos depois. O prazo se encerrou neste ano, e a reunião aconteceu no início de agosto no tradicional Tonel da Pinga, no Bairro Funcionários, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. 

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“A ideia surgiu de forma espontânea. Estávamos no bar e um cliente da época nos presenteou com uma garrafa de uísque. Nesse momento fizemos a promessa de abri-la somente em 2026”, contou o agora ex-dono do bar Derley Gonçalves, de 61 anos. 

O comando do Tonel de Pinga foi repassado para Breno Augusto, de 38, sobrinho de Derley. O novo responsável pelo estabelecimento esteve presente na abertura da garrafa, enquanto o antigo dono se fez ausente. O motivo? Não gosta muito dos holofotes. O evento contou com a participação de apenas três dos amigos que fizeram a promessa, Heloísa, Ivair e Eloisa. Os outros sete morreram.

“Eu era nascido na época da promessa, mas não frequentava o boteco”, diz. “(A abertura) foi uma sensação maravilhosa. Muito bacana vê-los cumprindo a promessa”, narrou Breno. 

O sabor do uísque não altera quando permanece fechado dentro da garrafa, mas a experiência da abertura do recipiente foi singular devido ao afeto da promessa.  “Apesar de não ser um dos melhores uísques, pela história criada, o gosto ficou bom. Deixou o valor simbólico ainda mais intenso”, contou Breno. 

“Joia da boêmia”

Estar no hall dos 30 bares guardiões da cultura boêmia de BH é um feito para poucos. De acordo com dados da Associação de Bares e Restaurantes (Abrasel), até junho de 2026, 3.849 bares estavam em funcionamento na capital mineira. 

Tonel da Pinga: fachada amarela no Bairro Funcionários resiste à modernidade
Tonel da Pinga: fachada amarela no Bairro Funcionários resiste à modernidade Jair Amaral/EM/D.A Press

Em 2024, o Tonel de Pinga foi classificado como uma das joias da cidade. Na ocasião, foi feito um projeto em parceria da Belotur com o Sebrae Minas, que selecionou 112 estabelecimentos. Posteriormente, uma comissão de representantes do poder público, instituições do setor, jornalistas e personalidades da cultura boêmia da cidade separaram 30 bares, por meio de uma análise qualitativa do banco de dados com entrevistas e levantamentos de arquivos históricos para registros e divulgação. 

Uma série de ações para estimular a visitação e a sustentabilidade dessas joias foi implementada. O objetivo era valorizar, perpetuar o patrimônio material e imaterial e destacar a oferta gastronômica da cidade.

A rotina de abertura desse célebre bar, localizado próximo ao encontro entre as Ruas Sergipe e Boa Viagem, carrega uma simplicidade de cuidado e de gestos, que embasam as características tradicionais que o tornaram um dos guardiões da cultura boêmia de Belo Horizonte. 

Simplicidade dentro da tradição

“Chego às 6h da manhã, abro o bar, coloco água no fogo para fazer o café, varro a frente do comércio e faço uma oração para começar de vez”, narra Derley. Natural da cidade de Baldim, na Grande BH, o comerciante trabalha há 38 anos no endereço, oito como garçom e 30 como dono do comércio. 

Entre o balcão e a cozinha, Derley Gonçalves é quem recebe e serve os clientes do Tonel da Pinga
Entre o balcão e a cozinha, Derley Gonçalves é quem recebe e serve os clientes do Tonel da Pinga Jair Amaral/EM/D.A Press
 

“Eu e Márcio que trabalhávamos aqui quando o bar se chamava Meadolandes”, conta. O antigo dono do estabelecimento era inquilino do local, não sendo responsável direto pela propriedade. O dono do terreno resolveu romper o contrato de aluguel e ofereceu o controle aos garçons. “O dono do imóvel gostava muito da gente. Em 1996, ele chegou até nós, ofereceu o controle do comércio e logo aceitamos. Recebemos as chaves e fomos registrá-lo na Junta Comercial”, narrou Derley. 

A ideia inicial era nomeá-lo como “Barril de Pinga”, devido a grande quantidade de cachaças que o comércio vendia, porém o apelido não estava mais disponível. Por meio de sinônimos, o atendente da Junta começou a sugerir novos nomes, foi quando nasceu o Tonel de Pinga. 

A dupla de sócios comandou o bar localizado entre as Ruas Sergipe e Boa Viagem até agosto de 2023, quando Márcio morreu de câncer. “Entre o diagnóstico e o falecimento, durou pouco mais de dois meses. Ele faz falta”, se emociona o amigo.  

No estabelecimento, alguns itens estão postos para simbolizar a presença do colega. Bandeirolas do Vila Nova e uma do Internacional de Porto Alegre enfeitam a parede, tomada por prateleiras com diferentes tipos de cachaças. 

Durante a visita do Estado de Minas, um freguês entrou, sem se identificar, pediu uma dose de cachaça Seleta e uma salsicha. Derley o serviu, enquanto o cliente perguntou por onde andava Márcio, quando o sócio comunicou a morte do parceiro. O cliente se assustou e relembrou com afeto o período em que trabalhava como vendedor de uma loja de sapatos femininos na Avenida João Pinheiro. Relembrou que ia sempre ao bar e era atendido por Márcio. 

Assim como os comerciantes marcam a vida dos consumidores pela atenciosidade, muitos clientes marcantes passam e deixam memórias. “O “Seu Juquinha do Sax” era professor de Música da UFMG, ele vinha direto aqui, pedia duas cervejinhas Schincariol, bebia e ia embora. Ele morreu com 105 anos”, conta. 

Derley anunciou a aposentadoria e a passagem do ponto ao sobrinho, que agora passa a ser o responsável. A ideia do agora ex-dono é continuar em BH e descansar, após o longo período à frente do bar. “Trinta anos não são trinta dias”, comenta. 

Breno se mostra empolgado e feliz com a nova função. Ele começou no bar em 2023, depois de largar o trabalho que tinha como motorista de ônibus. “Quis continuar essa história e caí de paraquedas aqui. O que eu fazia era totalmente diferente. A galerinha me aceitou e eu gostei de fazer parte também.”

Sob nova direção, o Tonel de Pinga funciona de segunda a sexta, das 7h às 21h; sábados, domingos e feriados das 9h às 19h.

Serviço:

Tonel da Pinga 

Dias e horários: Segunda a sexta, das 7h às 21h / sábados, domingos e feriados das 9h às 19h

Telefone: (31) 3226-8716

Endereço: Rua Sergipe, 129 - Funcionários, Belo Horizonte 

*Com informações de Ana Luiza Soares e Laura Torres 

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*Estagiário sob supervisão da subeditora Juliana Lima

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