Defesa de empresário que matou gari aponta segundo tiro e questiona perícia
Nova equipe de advogados contesta dinâmica dos disparos e avalia pedir novas perícias; empresário mudou de defesa pela quarta vez
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No dia em que o assassinato do gari Laudemir de Souza Fernandes completa um ano, o empresário Renê da Silva Nogueira Júnior está sob nova defesa. A equipe de advogados, que assumiu o caso no último sábado (8/8), afirma ter encontrado nos autos elementos que levantam dúvidas sobre a dinâmica dos disparos e indicam a possibilidade de um segundo tiro que teria atingido a vítima.
O crime ocorreu na manhã de 11 de agosto de 2025, na Rua Modestina de Souza, no Bairro Vista Alegre, na Região Oeste de Belo Horizonte. Laudemir, de 44 anos, trabalhava na coleta de lixo quando foi morto a tiros. Segundo as investigações, o crime aconteceu depois de uma discussão de trânsito. O caminhão de coleta teria parado para dar passagem a veículos quando Renê teria se irritado com a situação.
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O empresário de 48 anos responde a uma ação penal em tramitação no Tribunal do Júri da Comarca de Belo Horizonte. Ele é acusado de homicídio triplamente qualificado, fraude processual, porte ilegal de arma de fogo e ameaça.
Atualmente, Renê está preso no Presídio de Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde recentemente recebeu autorização para cursar uma faculdade de Gestão Financeira, na modalidade de Ensino a Distância (EAD).
A autorização foi concedida após um pedido apresentado pela defesa anterior.
A nova defesa é a quarta a assumir o caso desde o início do processo. O escritório é formado por Bruno de Melo Freitas e Bruno Correa, que vão atuar nos processos criminais, além de Alexandre de Lima e José Henrique Resende Neves, responsáveis pelas demandas cíveis. Segundo os advogados, outros profissionais também integram a equipe.
A mudança aconteceu após três substituições anteriores da defesa ao longo de um ano de tramitação. Durante coletiva nesta terça-feira (11/8), os novos representantes negaram que as trocas tenham sido usadas para atrasar o processo ou adiar o julgamento pelo Tribunal do Júri.
Segundo os advogados, a substituição ocorreu por uma questão de confiança entre Renê e seus representantes. “A nossa entrada não tem absolutamente nada a ver com a estratégia processual”, afirmou um dos defensores.
A defesa também sustentou que a troca de advogados não interfere no andamento da ação. “Não foi uma estratégia para atrasar o processo”, disse Bruno Correa.
Apesar de ainda estar estudando o processo, a nova equipe afirma ter convicção de que os fatos narrados na denúncia do Ministério Público de Minas Gerais não correspondem à realidade.
“O ponto importante que a gente quer trazer também é que os fatos narrados na denúncia não aconteceram conforme o Ministério Público de Minas Gerais narrou. Isso não é uma opinião, é uma constatação”, afirmou um dos advogados.
Segundo a defesa, existem elementos de fato e provas que ainda não teriam sido levados ao processo. A intenção é apresentar esse material ao Judiciário ao longo da tramitação.
“É justamente proporcionar para o processo o conhecimento de uma realidade que não foi apresentada até esse momento”, afirmou um dos defensores.
Os advogados afirmam que o trabalho será concentrado na análise técnica das provas e que pretendem apresentar os elementos que consideram relevantes para que o empresário tenha, segundo eles, um julgamento justo.
A equipe também afirma ter convicção de que Renê não tinha intenção de atingir Laudemir ou provocar a morte do gari.
“O que eu posso dizer com toda tranquilidade é que o senhor Renê não objetivou atingir o senhor Laudemir e, dessa forma, muito menos o resultado de morte”.
Defesa levanta hipótese de segundo disparo
Um dos principais pontos que passaram a ser analisados pela nova defesa do empresário é a possibilidade de um segundo disparo ter atingido Laudemir. A tese pode abrir uma nova frente de questionamentos sobre a dinâmica do crime e sobre a arma que teria sido utilizada.
Segundo os advogados, documentos que constam nos autos indicariam a ocorrência de um segundo tiro e levantariam dúvidas sobre a origem do disparo.
“Nos autos do processo, nós identificamos uma documentação que comprova que ocorreu um segundo tiro que alvejou a vítima. Esse segundo tiro não veio da arma que estava em posse do Renê”, afirmou um dos integrantes da equipe.
A defesa trata a questão como uma hipótese que precisa ser confrontada com as perícias já realizadas. Os advogados afirmam que precisam analisar de forma detalhada os laudos para estabelecer a dinâmica dos disparos e verificar como o segundo tiro poderia se encaixar nos elementos já reunidos no processo.
O ponto central do questionamento está justamente no laudo pericial. Segundo a defesa, o documento aponta duas entradas e duas saídas de projéteis, mas os advogados afirmam ter dúvidas sobre a interpretação desses vestígios.
“O fato é que existe um laudo que afirma duas entradas e duas saídas. Nós temos dúvidas em relação a isso. E essas dúvidas devem ser devidamente esclarecidas”, afirmou a equipe.
A defesa avalia pedir novas perícias e esclarecimentos técnicos para tentar reconstruir a sequência dos disparos. A intenção, segundo os advogados, é esgotar as possibilidades de análise antes da realização do Tribunal do Júri. “Acreditamos que talvez sejam necessárias novas perícias, sim”, afirmou um dos defensores.
A alegação sobre o segundo disparo é uma tese apresentada pela nova defesa e ainda não foi confirmada judicialmente. O argumento deverá ser confrontado com as demais provas do processo, submetido ao contraditório e analisado pelo Judiciário.
Antes da mudança da equipe de defesa, o empresário teria afirmado que se tratava de uma “bala perdida”. Em áudios que integram o processo, ele teria mencionado posteriormente a possibilidade de um disparo acidental.
Segundo os advogados, o processo começou a ser estudado pela equipe apenas recentemente e a estratégia ainda está em fase de análise. “Olha, ocorreu um disparo”, afirmou um dos advogados.
Neste momento, a equipe concentra a análise nas provas já produzidas, principalmente nos laudos periciais, antes de definir quais teses serão formalmente apresentadas no processo.
Além dos questionamentos sobre a perícia, o advogado Bruno Correa, afirmou que o empresário não teria conhecimento de que o disparo havia atingido Laudemir. Segundo ele, a defesa tem elementos que sustentariam essa versão e pretende apresentá-los ao longo do processo.
O advogado disse que Renê está disposto a esclarecer os fatos e que a equipe pretende demonstrar que ele não sabia que havia atingido a vítima. A defesa afirma que testemunhas também teriam relatado que o empresário deixou o local sem demonstrar conhecimento de que havia atingido alguém.
Entre os relatos citados pela defesa está o da motorista de um caminhão, que teria afirmado que Renê entrou no veículo normalmente e deixou o local.
“A motorista do caminhão sustentou que ele entrou dentro do carro como se nada tivesse acontecido e foi embora”, disse.
Para Correa, caso o empresário soubesse que havia atingido Laudemir, teria permanecido no local para prestar socorro e acionar as autoridades.
A defesa, no entanto, ainda não apresentou uma versão completa para a dinâmica dos acontecimentos. Segundo o advogado, o próprio Renê deverá prestar esclarecimentos posteriormente.
Perícia sob questionamento
Os novos defensores também pretendem avaliar o laudo pericial produzido durante a investigação. Correa afirmou que a defesa pode contestar elementos já incorporados ao processo e apresentar uma interpretação diferente dos fatos.
Segundo ele, qualquer questionamento será submetido ao contraditório e à análise do Judiciário. A defesa afirma que os fatos descritos na denúncia não corresponderiam à realidade e que tem elementos de prova para sustentar uma dinâmica diferente da apresentada pelo Ministério Público de Minas Gerais.
A nova equipe classificou o processo como “extremamente complexo” e afirmou que o tempo transcorrido já era esperado. Para os advogados, a demora não pode ser atribuída especificamente à defesa, ao Ministério Público ou ao Judiciário.
O processo ainda passa por etapas antes de chegar ao Tribunal do Júri. A defesa anterior apresentou recurso contra a decisão de pronúncia, que é a decisão que encaminha o acusado para julgamento popular. O recurso ainda está pendente de análise pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
Os novos advogados afirmam que ainda não há uma definição jurídica definitiva sobre os pontos que pretendem questionar. A equipe informou que vai formalizar nos autos os argumentos e elementos que considerar relevantes e aguardar a análise do Judiciário.
“Todos os nossos atos, a partir de agora, serão apresentados ao processo, ao juiz de direito, ao Tribunal de Justiça”, afirmou Correa.
Disputa por honorários
A saída do advogado Bruno Silva Rodrigues, terceiro defensor de Renê, foi anunciada pela assessoria na sexta-feira (7/8). Contratado em setembro de 2025, ele deixou o caso em meio a uma disputa por honorários. No sábado (8/8), foi anunciada a nova defesa, liderada por Bruno Corrêa e integrantes do escritório Lima e Silva, Corrêa e Rezende Neves, nas áreas cível e criminal.
O antigo escritório cobra R$ 240 mil em uma ação no Rio de Janeiro. O contrato previa R$ 10 mil de entrada, 38 parcelas de R$ 5 mil e honorários de êxito. Segundo os advogados, Renê rescindiu o contrato em 31 de julho, por e-mail, e revogou a procuração sem quitar os valores. Do total cobrado, R$ 200 mil são honorários fixos e R$ 40 mil correspondem à cláusula de êxito pelo afastamento da qualificadora de perigo comum do homicídio.
Na ação, a antiga defesa cita como resultados autorizações para Renê fazer o Enem e cursar faculdade a distância na prisão, além de decisão do STJ que anulou acórdão do TJMG e do afastamento da qualificadora de perigo comum na pronúncia da 1ª Vara do Tribunal do Júri de BH.
Em junho, a 8ª Câmara Criminal do TJMG negou outro habeas corpus e manteve Renê preso durante o processo.
Arma e afastamento de delegada
Ainda conforme o processo o empresário teria utilizado uma arma de fogo pertencente à delegada Ana Paula Lamego Balbino para efetuar os disparos contra Laudemir. O caso também gerou investigações nas esferas criminal e administrativa envolvendo o acesso de Renê ao armamento.
A situação da delegada, que permanece afastada das funções, teve novo desdobramento nesta terça-feira (11/8).
Ana Paula Lamego Balbino teve a licença médica renovada por mais 30 dias. A decisão foi publicada no Diário Oficial do Estado nesta terça-feira (11/8), mas o novo período começou a valer no último sábado (8/8).
A delegada foi afastada das funções dois dias após o crime, sob a suspeita de que a arma registrada em seu nome tenha sido usada pelo marido, Renê da Silva Nogueira Júnior, na morte do gari Laudemir de Souza Fernandes.
Na ocasião, ela entrou em licença médica para tratamento de saúde no Hospital da Polícia Civil.
O primeiro afastamento, de 60 dias, foi publicado em agosto de 2025, sem detalhamento sobre o quadro clínico. Desde então, a licença vem sendo renovada sucessivamente.
Em dezembro de 2025, houve uma nova prorrogação. Já em 2026, a medida foi estendida em fevereiro, novamente em abril e, agora, em agosto, quando o período foi renovado por mais 30 dias.
Ao todo, desde o afastamento inicial, a delegada já teve a licença prorrogada cinco vezes, além do primeiro período de afastamento. Durante esse tempo, Ana Paula permaneceu vinculada à corporação, mas sem exercer funções operacionais.
Além do afastamento, a delegada passou a responder, desde 23 de abril, a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) instaurado pela Polícia Civil. O procedimento foi aberto pela Corregedoria-Geral da corporação e tramita sob sigilo.
O principal questionamento apresentado nesta terça-feira é justamente a existência de um possível segundo tiro e a necessidade de esclarecer, por meio das perícias, a origem e a trajetória dos disparos. A equipe afirma que ainda está no início da análise do processo e que novas medidas serão apresentadas ao Judiciário ao longo da tramitação.
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A reportagem procurou o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) para obter posicionamentos sobre as alegações apresentadas pela nova defesa mas não obteve resposta. O espaço segue aberto.