Moradores em férias, ladrões dentro de casa
Na ausência dos donos, criminosos cometeram mais de 8 mil furtos a residências em Minas nos meses de julho de 2022 a 2025
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Ao todo, foram analisados 8.374 furtos no mês de julho em Minas Gerais, sendo 946 em BH e 981 Região Metropolitana de Belo Horizonte, excetuando-se a capital mineira. Desde 2022, o mês de julho registrou mais furtos a residências em Minas Gerais do que dezembro, quando também se tem férias escolares e viagens, mas fica atrás de janeiro, março, abril, maio e fevereiro, nessa ordem.
Em Belo Horizonte, desde 2022, as casas constituíram o principal alvo dos ladrões, sendo atacadas 527 vezes, contra 111 apartamentos furtados e 106 edifícios residenciais invadidos e que tiveram bens levados das áreas comuns.
Os arrombamentos ou rompimentos de obstáculos foram as formas mais utilizadas pelos gatunos para furtar residências, tendo sido empregadas em 664 ações. As escaladas de muros, fachadas ou mesmo de árvores para acessar as residências ocorreram em pelo menos 225 ocorrências.
E se as pessoas acham que os ladrões agem na madrugada, em Belo Horizonte o horário de 0h até 5h59 somou 217 crimes, enquanto a faixa da manhã, entre 6h e 11h59 foi quando os ladrões mais atuaram, com 292 casos e a da tarde, entre 12h e 17h59, registrou 265. Só a noite perdeu em termos de atividade dos crimes, com 172 ocorrências, entre 18h e 23h59.
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No entanto, do ponto de vista proporcional, a escalada se torna extremamente relevante na madrugada (0h às 5h59), representando 35% dos crimes desse horário (76 de 217 casos). O silêncio e a escuridão da noite favorecem essa técnica ágil e silenciosa.
Se por um lado os crimes na madrugada se aproveitam do silêncio e do menor policiamento, o volume maior na parte da manhã e tarde acende um alerta que pode estar relacionado às férias de julho. Com os moradores viajando, a ausência de movimentação ao longo do dia (luzes apagadas, falta de fluxo de pessoas saindo para a rotina, correspondência acumulada na caixa de correio) pode servir como confirmação para o criminoso de que o imóvel está totalmente vazio. Isso possibilita o arrombamento à luz do dia sem levantar suspeitas imediatas dos vizinhos que restaram e que estão saindo para trabalhar ou já se encontram no trabalho.
No mês das férias de julho, os ataques foram mais frequentes às segundas-feiras, com 150 registros, seguida da quarta-feira (140), domingo (139), sábado (138), terça-feira (132), sexta-feira (125) e quinta-feira (122).
BAIRROS NO ALVO
Os bairros de Belo Horizonte que mais registraram invasões de domicílios para furtos foram o Padre Eustáquio, na Região Noroeste, com 26 ocorrências no período, mesmo quantitativo de ocorrências do Bairro Serra, na Região Centro-Sul. Em terceiro lugar, com 22 registros, vem o Santo Antônio, também na Região Centro-Sul.
O Bairro Padre Eustáquio é o quarto mais populoso de Belo Horizonte, com 24.674 habitantes. Mistura um comércio vibrante com ruas estritamente residenciais compostas por casas de lote inteiro e prédios baixos. As casas são o alvo principal de forma isolada, acumulando 12 ocorrências. Elas são seguidas por Edifícios Residenciais (4 ocorrências), Apartamentos (4 ocorrências). O método de Escalada empata com o Arrombamento/Rompimento de Obstáculo, registrando 12 ocorrências cada.
A ocorrência de escaladas em edifícios residenciais e apartamentos (5 casos combinados) indica que os criminosos se aproveitam de falhas estruturais periféricas (muros baixos, lixeiras altas, árvores coladas às fachadas ou portões com designs que servem de "escada") para acessar pavimentos superiores ou áreas internas.
A distribuição temporal revela um empate entre as invasões para furtos no período da madrugada (0h às 5h59), com 8 ocorrências, e o período da manhã (6h00 às 11h59) também com 8 ocorrências.
O Padre Eustáquio é circundado e cortado por grandes corredores de trânsito rápido de Belo Horizonte, como a Avenida Dom Pedro II, a Avenida Juscelino Kubitschek (Via Expressa) e a própria Rua Padre Eustáquio. Vias de tráfego rápido facilitam rotas de fuga para veículos utilizados para transportar os bens furtados (eletrônicos, joias, etc.) desaparecerem em meio ao fluxo intenso em direção a outras regiões da cidade ou anéis rodoviários.
Os bairros Serra e Santo Antônio são praticamente residenciais, com algumas áreas de comércio intenso, mas, diferentemente do Padre Eustáquio, se encontram envoltos por comunidades dominadas pelo tráfico, por isso mesmo aproximando consumidores de entorpecentes em busca de objetos que possam ser furtados e vendidos a receptadores para financiar o vício em drogas.
Os dois bairros têm populações parecidas, sendo o Santo Antônio o nono bairro mais populoso de BH, com 20.540 habitantes, enquanto a Serra é o 14º, concentrando 19.239 moradores.
Embora a tendência de roubo a casas em Belo Horizonte e em Minas Gerais traga uma ideia de que apartamentos estão imunes a invasões, a soma de ocorrências em "Edifício Residencial" e "Apartamento" representa a maioria dos crimes em ambos os bairros (16 casos na Serra e 12 no Santo Antônio).
Entre os moradores, a sensação de insegurança afeta até mesmo quem não foi vítima de furtos. Na Serra, Arlindo Ribeiro, de 67 anos, conta que presenciou roubos contra pessoas nas proximidades de um supermercado e de uma drogaria. Para ele, a situação só começou a melhorar nos últimos dois meses, com o aumento do policiamento e a redução da presença de usuários de drogas em algumas ruas. Já Gabriel Ferreira, de 30, que trabalha em uma loja de celulares no bairro, relata que o estabelecimento teve toda a fiação furtada durante a madrugada poucos meses após a inauguração. Segundo ele, a falta de movimento e de policiamento à noite favorece a ação dos criminosos.
No Padre Eustáquio, o comerciante Valdir Vieira, de 66, diz ter presenciado diversos casos de furtos a residências ao longo dos 40 anos em que vive e trabalha no bairro. Ele critica a demora no atendimento policial em uma ocorrência recente de furto de aparelhos de ar-condicionado, quando, segundo conta, a viatura chegou horas após o chamado.
REGIÃO METROPOLITANA E INTERIOR
A dinâmica dos furtos que ocorrem com a invasão de residências é diferente da capital mineira na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e nos municípios mais populosos do interior do estado. Na RMBH, o período pesquisado indicou ocorrências em propriedades como sítios (79 ocorrências), chácaras (42) e fazendas (15) em cidades como Esmeraldas, Juatuba e Mateus Leme. Diferentemente de BH, a área metropolitana registrou o pico das ocorrências no período da tarde, na faixa das 12h às 17h59 (326), seguido de perto pelo período da manhã, das 6h às 11h59 (319 ocorrências).
A forte concentração durante o horário comercial na RMBH pode evidenciar o impacto do "deslocamento pendular" de moradores que saem de suas residências vazias na região metropolitana para trabalhar ou estudar em Belo Horizonte, deixando muitas vezes os imóveis vulneráveis.
O município de Betim se diferencia pelo uso notavelmente alto do método de "Escalada", que aparece em 29% de suas ocorrências. Esse índice é significativamente maior do que o registrado em Contagem (14,7%) e mais de quatro vezes superior ao de Esmeraldas (6,2%).
Já as cidades do interior de Minas Gerais com mais invasões a residências para o cometimento de furtos no mês de julho de 2022 a 2025 foram Uberlândia (637) e Uberaba (278), no Triângulo Mineiro, Montes Claros (229), no Norte do estado, Juiz de Fora (149), na Zona da Mata, e Patos de Minas (133).
Em todas as cinco cidades, o método mais utilizado para a invasão das residências é o Arrombamento/Rompimento de Obstáculo, seguido consistentemente pela Escalada. Juntos, esses dois métodos representam a quase totalidade das ocorrências. A segunda-feira aparece como o dia da semana com maior volume de registros na maioria das cidades analisadas (Uberlândia, Montes Claros, Juiz de Fora e Patos de Minas), sugerindo que muitas invasões podem ocorrer ou ser descobertas no início da semana útil.
Há uma clara divisão no comportamento dos criminosos dependendo da região. Em Uberlândia (195 casos) e Uberaba (91 casos), o período mais visado é a madrugada. Em Montes Claros, o pico ocorre no período da tarde, com 62 casos, enquanto em Juiz de Fora (44 casos) e Patos de Minas (41) o maior volume é pela manhã, momentos em que as residências costumam ficar vazias devido à rotina de trabalho e estudos.
Em Uberlândia, os bairros onde as residências foram mais invadidas para serem furtadas foram o Santa Mônica (50 ocorrências), Brasil (33) e Santa Rosa (26). No município de Uberaba, as ocorrências se concentraram mais no Nossa Senhora da Abadia (15), Vila Raquel (10) e Parque das Américas (10). Em Montes Claros, os maiores alvos foram o Planalto (8), São José (8) e o Major Prates (8). No município de Juiz de Fora, os ladrões agiram mais nos bairros Benfica (6), Granbery (4) e Santa Luzia (4). Por fim, no município de Patos de Minas os furtos foram mais expressivos no Centro (12), Lagoa Grande (7) e Caramuru (5).
A Polícia Militar de Minas Gerais costuma lançar entre dezembro e janeiro a operação férias e destaca recomendações gerais que podem ajudar a manter a residência mais segura dos ladrões. Uma delas é ter uma rede de vizinhos confiável. Peça a um parente ou vizinho de confiança para recolher correspondências, verificar o imóvel e evitar a impressão de abandono. Manter a discrição também é importante.
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Não comente sobre as datas da sua viagem com muitas pessoas e evite deixar luzes acesas durante o dia. Suspenda a entrega de correspondências para que não se acumulem dando a impressão de que a casa está vazia. Não guarde joias ou grandes quantias em casa e certifique-se de que portas e trancas estejam bem reforçadas. Para acionar a corporação em caso de movimentações suspeitas ou emergências, o canal oficial é o telefone 190. Denúncias também podem ser feitas anonimamente pelo 181, o Disque Denúncia. (Colaborou Sofia Maia)