Moradores de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, promovem neste sábado (27/6) uma passeata contra o projeto de concessão do Parque Estadual do Biribiri à iniciativa privada. Organizada pelo movimento popular "O Biribiri é Nosso", a manifestação pretende reunir moradores, trabalhadores, estudantes, esportistas, ambientalistas e representantes de comunidades tradicionais para defender a permanência da unidade de conservação sob gestão pública.
A concentração será às 9h, no Largo Dom João, com saída da caminhada às 10h. O trajeto seguirá pelo Centro Histórico, passando pelo Mercado Velho, até a Praça do Pão de Santo Antônio, no Rio Grande.
Segundo os organizadores, o objetivo é ampliar o debate sobre o futuro do parque e pressionar o Governo de Minas a interromper o processo de concessão. O movimento afirma que o espaço, utilizado há décadas para lazer, esportes, turismo, atividades culturais e práticas religiosas, deve continuar público, gratuito e administrado pelo Estado.
Criado em 1998, o Parque Estadual do Biribiri possui cerca de 17 mil hectares de área protegida e é considerado um dos principais patrimônios naturais do Vale do Jequitinhonha. A unidade abriga cachoeiras, campos rupestres, vegetação nativa, fauna típica do Cerrado e da Serra do Espinhaço, além de sítios com arte rupestre e paisagens que atraem visitantes de diversas partes do estado.
Conforme dados do Governo de Minas, o parque recebeu aproximadamente 60 mil visitantes em 2025 e a expectativa, caso a concessão seja implementada, é ampliar esse número para cerca de 179 mil até 2054.
Movimento diz que população foi surpreendida
Integrante do movimento "O Biribiri é Nosso", o professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), Mário Mariano, afirma que a mobilização começou no início deste ano, quando moradores souberam da intenção do governo de conceder os serviços turísticos do parque à iniciativa privada.
Segundo ele, um dos principais fatores que motivaram a organização do movimento foi a falta de informações sobre a proposta.
"Ninguém em Diamantina sabia que esse processo estava acontecendo. A gente foi descobrindo aos poucos, lendo os documentos publicados pelo Instituto Estadual de Florestas", afirma.
De acordo com Mário, o grupo é formado por trabalhadores, estudantes, professores e moradores de diferentes comunidades da cidade. Desde então, os integrantes passaram a realizar reuniões em bairros, escolas e espaços públicos, além de distribuir panfletos durante o carnaval e promover campanhas nas redes sociais para divulgar o projeto.
Agora, a principal ação será a passeata deste sábado, que, segundo ele, busca ampliar ainda mais o diálogo com a população.
"A nossa principal tarefa tem sido fazer com que mais pessoas saibam o que está acontecendo e possam se posicionar. A gente sente que a maioria da população de Diamantina é contra a concessão", diz.
Cobrança para acessar o parque
O principal temor do movimento é que a concessão transforme um espaço considerado patrimônio ambiental e cultural em uma atividade voltada ao lucro.
Mário afirma que o edital prevê a concessão, por mais de 30 anos, de áreas que concentram os principais atrativos turísticos do parque, como as cachoeiras da Sentinela e dos Cristais. Segundo ele, a possibilidade de cobrança de ingresso, estacionamento e outros serviços preocupa moradores.
"O parque é um direito social, ambiental e cultural. Muitas comunidades utilizam aquele espaço para lazer, esportes e até manifestações religiosas. A população não quer ver o Biribiri se transformar em mercadoria", diz.
O professor também critica um dos critérios previstos para selecionar futuras concessionárias. Segundo ele, o edital admite como experiência anterior a gestão de empreendimentos como shopping centers, o que, na avaliação do movimento, não demonstra conhecimento sobre conservação ambiental e administração de unidades de preservação.
Críticas à condução do processo
Outra reclamação dos organizadores envolve as audiências públicas realizadas durante a consulta pública do projeto. Segundo Mário Mariano, o primeiro evento teve uma divulgação fraca, mas mesmo assim, de acordo com ele, conseguiram reunir bastante pessoas. Já na segunda ocorreu em BH, na Assembleia Legislativa.
Imagens da segunda assembleia, onde a privatização foi discutida
De acordo com Mariano, na primeira audiência, houve falta de espaço, interrupção por queda de energia e demora para retomada dos trabalhos. O movimento chegou a pedir que a audiência fosse cancelada e transferida para um local mais amplo, no Centro da cidade, mas o pedido não foi aceito.
Para o professor, a situação reforçou a percepção de que o governo não promoveu um diálogo adequado com a população.
"Queríamos discutir o projeto, apresentar nossas preocupações e construir alternativas. Mas sentimos uma postura de pouca abertura para esse debate", afirma.
Governo prevê investimentos de R$ 5,1 milhões
Em nota, a Secretaria de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias (Seinfra) informou que o projeto integra o Programa de Concessão de Parques Estaduais (Parc), lançado em 2019, que já contempla os parques estaduais do Lund, Itacolomi e Ibitipoca.
Segundo a pasta, o projeto passou por consulta pública em março e, atualmente, está na fase de estruturação. Ainda não há data definida para o leilão da concessão.
A proposta prevê que a iniciativa privada seja responsável pelos serviços turísticos do Parque Estadual do Biribiri durante 30 anos. Nesse período, deverão ser investidos R$ 3,6 milhões em infraestrutura, incluindo melhorias em portarias, estacionamentos, centro de visitantes, trilhas, sinalização, sanitários, área de camping e equipamentos de apoio, além de R$ 1,5 milhão para reposição de ativos ao longo do contrato. Ao fim da concessão, todas as benfeitorias serão incorporadas ao patrimônio do Estado.
De acordo com a Seinfra, a iniciativa tem como objetivo qualificar a visitação, fortalecer o turismo sustentável e ampliar a arrecadação da região.
Movimento defende mais investimentos públicos
Apesar das justificativas do governo, o movimento "O Biribiri é Nosso" afirma que a solução não é transferir a gestão dos serviços turísticos para empresas privadas.
Segundo Mário Mariano, o principal argumento apresentado pelo Estado é a falta de recursos financeiros e de servidores para administrar o parque. Para ele, porém, a alternativa deveria ser ampliar os investimentos públicos.
"O governo diz que não tem dinheiro nem pessoal suficiente para cuidar do parque. Nós entendemos que o caminho é justamente o contrário: investir mais recursos, realizar concursos públicos e fortalecer o Instituto Estadual de Florestas para que ele tenha condições de fazer essa gestão", afirma.
O professor também defende maior participação da população nas decisões sobre a unidade de conservação e diz que os problemas enfrentados pelo parque podem ser solucionados sem a concessão à iniciativa privada.
Abaixo-assinado e expectativa de diálogo
Além da passeata, o movimento mantém um abaixo-assinado contra a concessão, que já reúne entre 4 mil e 5 mil assinaturas. O documento foi entregue à Prefeitura de Diamantina, que, segundo os organizadores, encaminhou a demanda ao governo estadual.
A expectativa do grupo é que o processo seja interrompido para que seja aberto um novo diálogo com moradores, entidades e comunidades que utilizam o parque.
"O Biribiri não pertence apenas aos moradores de Diamantina. É um patrimônio dos mineiros e precisa continuar sendo público, gratuito e acessível para todos. É isso que queremos defender com essa mobilização", conclui Mário.
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*Estagiária sob supervisão do subeditor Gabriel Felice
