Gangues no Taquaril, em BH, atuam com "procuração" de facções nacionais
Em um das comunidades com mais confrontos de grupos criminosos desde 2025, gangues agem como "franquias" de organizações criminosas baseadas em Rio e São Paulo
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O Taquaril, na Região Leste de Belo Horizonte, é a base de facções e gangues que tiveram o segundo histórico mais violento de disputas na área mais conflagrada do estado, segundo levantamento feito pelo Estado de Minas no periodo de 2025 a maio deste ano. Na comunidade, duas frentes principais, que agem por procuração para organizações criminosas nacionais, disputam poder e pontos de venda de drogas. O Comando Vermelho (CV) atua associado à Gangue do PH (ou Gangue do Capeta). Essa organização seria liderada por Paulo Henrique (vulgo “PH”), que coordena as operações a distância, muitas vezes a partir da Favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Esse grupo busca expansão e retomada de pontos de tráfico, adotando táticas de terror e demarcando território com pichações. Em oposição está a Gangue do Gordo, que age com suporte do PCC e do TCP, liderada pelo traficante conhecido como “Gordo”. Além dos confrontos, o bando faz cobertura de pichações rivais, cada qual usando códigos próprios.
Os dois chefes dessas gangues já tiveram uma relação próxima, mas tornaram-se inimigos. Segundo informações policiais, o rompimento foi agravado por eventos violentos, incluindo a morte do filho de “Gordo”, fato atribuído a “PH”.
Nove mortos em conflitos e ataques
No período analisado, a guerra entre os grupos resultou em pelo menos oito confrontos e nove pessoas mortas no Taquaril. Os conflitos e ataques ocorreram na Rua Joaquim Teixeira dos Anjos, onde houve execuções ligadas à Gangue do PH. A Rua Alvimar Carneiro é apontada como um ponto de atuação da Gangue do Gordo, bem como o local de venda de entorpecentes chamado “Boca do Gordo”.
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A Polícia Militar tem um histórico de monitoramento das ruas Ramiro Siqueira e Luiz Vaz Torres, onde ocorreram confrontos armados e execuções por fuzil. O conflito afeta também o Bairro Castanheiras, região vizinha que começa a sofrer a influência da expansão do CV. Fora da região, os Predinhos do Cascalho, no Morro das Pedras, Região Oeste de BH, tornaram-se um ponto logístico conectado às lideranças que operam no Taquaril.
No período analisado, ocorreram ataques e contra-ataques. Em abril de 2025, integrantes do CV invadiram o Taquaril em três veículos, disfarçados de policiais civis. Eles retiraram um jovem de 19 anos (ligado ao TCP) de sua residência e o executaram com 14 tiros de fuzil em um escadão, filmando a ação para divulgação.
No mês seguinte, criminosos do CV, sob ordens de “PH”, invadiram a comunidade portando fuzis e granadas para cobrar “pedágio” e retomar bocas de fumo do grupo de “Gordo”. O confronto com a PM resultou na morte de dois membros do CV, incluindo o braço direito de “PH”.
Naquele mesmo mês, a Polícia Civil mobilizou 120 agentes na “Operação Cerberus” para desarticular a estrutura de “PH” no Taquaril, focada em lavagem de dinheiro e homicídios. Mas, no mês seguinte, os criminosos voltaram a desafiar a polícia, promovendo o “Feirão do Pó” no escadão da Rua Itamarati. Imagens em vídeo mostraram a venda de drogas a céu aberto, com formação de fila organizada pelos traficantes e aceitação de pagamentos via Pix, demonstrando a audácia e a organização logística do tráfico.
Em julho, ocorreu outra morte. A Gangue do Gordo executou um usuário de drogas com mais de 10 tiros por cometer pequenos furtos na comunidade, evidenciando a imposição de um tribunal do crime na comunidade.
A geografia do crime na Região Oeste de BH
Na Região Oeste da capital, o Morro das Pedras registrou 18 ações relativas à guerra das facções no período analisado pelo EM. Foram seis pessoas mortas e duas feridas. Lá, o CV detém a maior hegemonia territorial, mas enfrenta resistência e disputas diretas com o TCP e tentativas de incursão do PCC. A repressão policial é intensa, com oito grandes operações realizadas e cinco apreensões de armamento pesado, entre fuzis e explosivos.
As ações concentram-se em pontos estratégicos do aglomerado, como a Vila Leonina, onde incursões da Rotam e prisões de gerentes do tráfico foram registradas. Nos Predinhos do Cascalho, foi descoberto um alçapão camuflado em uma laje, usado para esconder fuzis e grandes carregamentos de cocaína.
No Bairro Nova Granada, a área periférica ao aglomerado registrou intensos tiroteios. O comando local também exerce influência sobre o Morro do Querosene, o Conjunto Santa Maria e o Taquaril.
Tensão e tribunais do crime na Cabana
Na mesma região, o aglomerado Cabana do Pai Tomás é a base de operação da facção TCP em Minas e registrou cinco mortes no período pesquisado. A região vive sob constante tensão devido à rivalidade com o Comando Vermelho.
Essas disputas usam tribunais do crime para punir alusões aos grupos inimigos e manter a comunidade sob poder da facção. O CV atua em áreas próximas, como o Morro das Pedras, e realiza incursões armadas contra o TCP.
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O grupo da Cabana tem fortes ligações com o Morro da Mineira, no Rio de Janeiro, e redes de distribuição em Santos (SP), de onde coordena o envio de drogas e armas para bairros como Conjunto Paulo VI, Piratininga e Pedreira Prado Lopes, em BH.