A dor sem fim dos filhos do holocausto brasileiro
Amparados por ações individuais e inquérito do MPF, sobreviventes relatam o trauma de terem sido arrancados de suas mães nos pavilhões do Hospital Colônia
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Arrancados dos braços maternos logo após o parto ou na primeira infância, esses cidadãos carregam na pele e na mente os desdobramentos de uma política de higienização social que operou sob o disfarce da psiquiatria. Estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham morrido dentro dos muros do Colônia ao longo do século 20, a maioria sem qualquer diagnóstico de transtorno mental. Eram mães solteiras, homossexuais, prostitutas, opositores políticos, andarilhos e adolescentes vulneráveis, despachados de diversas partes do estado para um confinamento perpétuo.
Para os filhos que sobreviveram a esse sistema, o processo judicial não representa apenas uma busca por indenização monetária. Segundo João Bosco Siqueira, de 59 anos, a ação é o reconhecimento oficial de que o Estado brasileiro destruiu seus núcleos familiares, perpetuando um crime contra a humanidade cujas sequelas ecoam de forma intergeracional.
“O Estado foi também agente atuante na privação de direito da pessoa, porque minha mãe foi internada lá quando estava sob guarda do Estado. Por que o Estado não a protegeu?”, questiona o tenente aposentado do Corpo de Bombeiros, filho de Geralda de Siqueira Santiago Pereira, deixada no hospital com apenas 14 anos para encobrir uma gravidez fruto de estupro. No local, sofreu diversas torturas durante anos.
VAZIO AFETIVO
Os castigos aplicados rotineiramente no Colônia desenham um cenário de crueldade institucionalizada. Relatórios médicos e prontuários da época detalham a aplicação indiscriminada da eletroconvulsoterapia – os temidos eletrochoques – sem o uso de anestésicos. Relaxantes musculares também eram utilizados frequentemente como ferramenta de punição e tortura para “amansar” as internas mais rebeldes.
Aquelas que ousavam protestar contra a falta de comida e água potável eram trancadas nuas em celas solitárias minúsculas, úmidas e infestadas por roedores, onde permaneciam por dias sobre os próprios dejetos. Esse foi o caso de Sueli Aparecida Resende, mãe de Débora Soares, de 41 anos, que expõe as práticas desumanas sofridas dentro do hospital. Ao contrário do que encontrou em documentos e ouviu de funcionários que trabalhavam no local, ela acredita que Sueli apenas resistiu à violência.
“Ela tinha que sobreviver. Ela lutou muito para preservar a identidade dela e a integridade. Minha mãe era considerada uma paciente bem agressiva, até polêmica, dentro do hospital, mas depois eu fui lendo e entendendo o porquê. Foi um meio de defesa dela, pois era muito punida”, disse Débora, que hoje é operadora de caixa.
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Em meio à violência sistemática, o sofrimento estendia-se aos seus filhos. A separação compulsória criou um vazio afetivo insuperável. As crianças eram tratadas como “reféns institucionais” ou doadas ilegalmente, crescendo sob o estigma da rejeição, privadas do colo materno, do aprendizado das primeiras palavras e da própria identidade biológica. Hoje, os sobreviventes dessa segunda geração lidam com quadros emocionais e até certa dificuldade de vinculação afetiva.
O PRONTUÁRIO 947
A trajetória de Débora sintetiza a perversidade que existiu no Colônia. Ela nasceu em 23 de agosto de 1984, dentro do hospital. A mãe biológica, Sueli Aparecida Resende, era uma jovem epiléptica que foi deixada por sua família na adolescência e jogada em hospitais psiquiátricos até ser despejada em Barbacena. O pai de Débora foi José Malaquias, internado por ter crises esquizofrênicas. Com apenas dez dias de vida, ela foi entregue por meio de uma adoção à brasileira, uma cessão ilegal acobertada pela direção do hospital, a um casal de funcionários da instituição.
Ela cresceu dentro do hospital, já que os pais trabalhavam lá, e recorda que sentia uma certa incompletude. Em casa, ouvia os relatos dos pais sobre a rotina de choques e contenções que aplicavam nos internos, sem imaginar que uma daquelas figuras desumanizadas era sua própria mãe. Sua mãe adotiva, inclusive, convivia diariamente com Sueli nos pavilhões, e dava medicamentos e eletrochoques nela, enquanto mantinha o segredo guardado.
Débora só teve conhecimento de que era filha de Sueli aos 23 anos, em 2007, e reconstruiu sua origem a partir de arquivos da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), responsável pela gestão do hospital. Infelizmente, descobriu que a mãe biológica havia falecido em janeiro de 2006, vítima de um infarto após 35 anos de confinamento. Por poucos meses, Débora não conheceu a mãe em vida. Outra filha da interna foi Luzia, nascida em 1986 e adotada por uma família francesa. Hoje também sofre por saber o que a mãe viveu.
O prontuário 947, ao qual Débora conseguiu acesso para leitura, revelou a extensão do amor materno que resistiu à barbárie. Sueli jamais aceitou o esquecimento. Todos os anos, nos meses de junho e agosto, ela entrava em severas crises de choro e automutilação, implorando às assistentes sociais e psicólogas por “um retratinho” de suas duas filhas. Conforme relatado por funcionários a Débora, Sueli contava os anos de crescimento das meninas com precisão e rezava o terço todas as noites por elas, transformando a maternidade “destruída” em uma âncora de sanidade.
“Até o último dia da vida dela, ela esperou por esse momento (de reencontro), porque no fundo ela não pôde ser filha, já que foi abandonada pelos pais, e também não pôde ser mãe. Então, a maternidade mudou a identidade dela lá dentro. Ela se sentia orgulhosa por ter tido duas filhas. Isso a fortaleceu, mas foi tirado dela também”, lamenta.
O impacto psicológico da descoberta exigiu de Débora alguns anos de psicoterapia para lidar com o sentimento de culpa e de revolta. Em 2019, localizou sua irmã, que cresceu acreditando ter sido abandonada em um país distante. Para dar voz ao silenciamento de sua mãe, a operadora de caixa escreveu um livro intitulado “Prontuário 947” – que reúne registros clínicos de torturas. Ela tem o desejo de publicar a obra, mas ainda não conseguiu recursos para a publicação.
MARCAS INVISÍVEIS
Também fruto do descaso e falta de assistência, a história de João Bosco perpassa por caminhos próximos à de Débora, uma vez que foi tomado de sua mãe e sentiu-se abandonado durante anos sem saber a verdade. A mãe, Geralda de Siqueira, tinha apenas 14 anos, era órfã e trabalhava como empregada doméstica para famílias influentes de Virginópolis, no Vale do Rio Doce. Em um ambiente doméstico de extrema vulnerabilidade, foi submetida a abusos sexuais praticados por seu patrão – um advogado de renome e fazendeiro.
Grávida de João, ela foi enganada com uma falsa promessa de emprego em Barbacena, para que evitassem uma polêmica. Logo no primeiro dia, mesmo gestando, a jovem recebeu sua primeira descarga de eletrochoque. A internação não atendia critérios médicos, mas tinha o objetivo de ocultar o estupro. João nasceu no Pavilhão Zoroastro Passos, sem qualquer assistência ou higiene.
Ficou confinado em um berçário precário dentro do hospital até os 2 anos, enquanto a mãe trabalhava como doméstica em casas de família da cidade, mas era obrigada a retornar todas as noites para pernoitar no Colônia. A criança, no entanto, foi transferida para uma unidade da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem) em Belo Horizonte, sem que Geralda soubesse. Ao perceber o sumiço do filho, entrou em desespero e foi castigada com novos choques.
“Eu fui arrancado dela. Ela foi arrancada de mim. Eles me tiraram o direito de ter mãe e tiraram o direito dela de ser minha mãe. Isso reflete na forma mais profunda que o ser humano tem, que é essa ligação do filho com a mãe. O Estado foi condescendente com isso. A minha dor ainda é tão grande, essas marcas são tão profundas, que ainda não consegui chegar na profundidade delas. Ainda não consegui entendê-las. É um vazio, uma lacuna que se forma ali”, diz o ex-tenente, que recorda até ter sido cuidado em algumas instituições, mas afirma que a ligação materna é única.
Além da Febem, João também passou pelo Patronato Padre Cunha e a Escola Totó Carlos. No Patronato, em Pinheiro Grosso, no distrito de Barbacena, tomou choques e banhos gelados e, anos mais tarde, observou um monitor abusar sexualmente de meninos. A infância sem referências biológicas forjou um adulto que, por bastante tempo, ficou revoltado, pois acreditava que havia sido abandonado. Ele relata que a noção de pertencimento não existia, pois ele não tinha consigo o conceito de família, ou para onde retornar nos feriados natalinos.
O reencontro oficial com sua mãe ocorreu apenas em 2011, organizado com cautela pelo comando dos Bombeiros. Hoje, ao analisar o cenário de sua origem, João confronta uma das maiores ironias dessa injustiça histórica. O nome de seu pai biológico – o agressor que engravidou sua mãe – permanece estampado em placas, batizando ruas e praças em cidades do interior de Minas Gerais, celebrando seu prestígio político. Em contrapartida, quase ninguém conhece o nome de Geralda de Siqueira, sobrevivente do holocausto brasileiro que suportou décadas de miséria e terror psicológico forçado. A ação judicial representa, para João, a oportunidade de inverter a balança, exigindo que o Estado assuma o peso de sua cumplicidade.
CRIMES CONTRA A HUMANIDADE SEM PRESCRIÇÃO
As marcas emocionais relatadas por Débora Soares e João Bosco Siqueira, filhos de duas mulheres que sofreram todas as mazelas impostas aos internos do Hospital Colônia de Barbacena, mostram que a passagem do tempo não é capaz de curar traumas estruturais. O dano causado pelo sistema manicomial se projetou na privação do afeto, na perda de oportunidades econômicas e no desenvolvimento de mecanismos de defesa psicológica que afetaram a capacidade dessas vítimas de estabelecerem vínculos saudáveis na vida adulta.
Juridicamente, as petições sustentam que a conduta omissiva e comissiva (quando não cumpre o dever de agir) do Estado violou preceitos da dignidade humana, configurando crimes contra a humanidade que, por sua natureza, são imprescritíveis. O advogado que representa as vítimas argumenta que o acolhimento institucional e a concessão de indenizações não visam apenas mitigar o sofrimento financeiro de uma sobrevida marcada pela dor, mas possuem um caráter pedagógico e histórico urgente.
“Não é só a tortura, houve a separação de famílias, roubos de crianças, funcionários manuseando medicamentos. O problema é muito extenso. Essas pessoas não tiveram muitas oportunidades devido ao afastamento de suas mães. São crimes tão graves quanto (os de tortura)”, diz o advogado Gabriel Hess.
A recente transferência das últimas 14 vítimas e o fechamento do hospital também é alvo de crítica, pois, segundo Hess, as vítimas continuam sofrendo e o Estado não oferece suporte adequado, como terapia. “As vítimas até hoje não foram procuradas pelos direitos humanos, não foram procuradas pelo Estado. Elas estão tendo que sobreviver sozinhas”, reforça.
A busca por justiça transita pela necessidade de reescrever a história, garantindo que o sofrimento de Sueli, Geralda e milhares de outras pessoas não permaneça enterrado sob o estigma da loucura. Para Débora e João Bosco, cada audiência judicial ocorre tardiamente, mas é estritamente necessário.
O inquérito civil em andamento no MPF investiga as violações de direitos fundamentais ocorridas no Hospital Colônia, fornecendo subsídios probatórios fundamentais para que dezenas de filhos de ex-internas ingressem com ações de reparação por danos morais e existenciais crônicos.
A reportagem do Estado de Minas entrou em contato com o governo federal, por meio da Presidência da República, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. Já a Fhemig respondeu por meio da Advocacia-Geral do Estado (AGE) que se manifestará somente nos autos do processo. n
MEMÓRIA/TEMPO DE HORROR QUE FICOU PARA TRÁS
Gustavo Werneck
O último dia 25 de maio marcou o fim do Hospital Colônia que, durante décadas, ficou conhecido como “Hospício de Barbacena”, mas a história centenária, com certeza, não vai se apagar facilmente. Inaugurado em 1903 como Sanatório de Barbacena, voltado inicialmente ao tratamento de tuberculose, o espaço se tornou, em 1911, o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas.
Ao longo do século 20, o Hospital Colônia se tornou símbolo de um modelo manicomial marcado por superlotação, abandono e violações de direitos. Entre 1942 e 2020, 40 mil pessoas passaram pela instituição, cerca de 24 mil morreram e, em determinado momento, o local chegou a reunir 3.500 pacientes simultaneamente.
Conforme reportagens publicadas entre as décadas de 1960 e 1980, bem antes da luta antimanicomial, havia uma situação degradante nas quais viviam os internos. Há exatos 65 anos, em maio de 1961, a extinta revista “O Cruzeiro”, dos Diários Associados, trazia a reportagem “Hospício de Barbacena: Sucursal do Inferno”, com pessoas de todas as idades amontoadas.
Em julho de 1979, o Estado de Minas publicou a série de 10 matérias “Nos porões da loucura”, do jornalista Hiram Firmino. O trabalho ganhou o Prêmio Esso e se tornou livro, com o mesmo nome, publicado pela Editora Codecri.
Novos tempos, novas formas de vencer os desafios. Desde 2019, a Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais conduz o processo de desinstitucionalização de usuários em situação de longa permanência no local hoje chamado Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB). O trabalho envolveu a construção de um plano de ação regional, pactuação com municípios, visitas técnicas, apoio institucional e fortalecimento da rede de cuidado territorial.
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Entre 2019 e 2025, 68 moradores do CHPB receberam alta para continuidade do cuidado em liberdade. Em 2022, foi registrado o maior número de altas do período, com 27 transferências para Serviços Residenciais Terapêuticos de Antônio Carlos, Carandaí e Ibertioga. Juntamente com Barbacena, os três municípios tiveram papel fundamental no acolhimento de usuários em Serviços Residenciais Terapêuticos. A implantação da Casa de Acolhimento em Barbacena também foi estratégica, conforme as autoridades estaduais da Saúde, para apoiar a transição e garantir moradia adequada aos últimos moradores da instituição.