HOSPITAL COLÔNIA

Cerimônia marca 'fim' do Hospital Colônia em Barbacena

Os últimos 14 sobreviventes serão realocados para um lar de acolhimento na zona rural da cidade, a partir desta segunda-feira (25/5)

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Um dos capítulos mais brutais da história da saúde mental no Brasil foi, simbolicamente, encerrado nesta segunda-feira (25/5). A data marca a desinstitucionalização dos últimos 14 sobreviventes do Hospital Colônia, em Barbacena, na região Central de Minas. Uma cerimônia foi realizada no local para marcar o momento. 

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Os últimos ex-pacientes do manicômio, fundado em 1903, serão realocados para um lar de acolhimento na zona rural da cidade. O hospício começou a ser desativado em 1980 e, em 1987, os internos foram transferidos para quatro casas construídas no mesmo terreno onde funcionava o hospital, cenário dos horrores que vitimaram mais de 60 mil pessoas.

A medida dá fim a um dos capítulos mais violentos da história da saúde mental brasileira. O fechamento da instituição foi oficializado no dia 27 de abril pelo governo estadual durante vistoria das obras finais de uma nova Unidade Básica de Saúde (UBS) no município. 

Um dos capítulos mais brutais da história da saúde mental no Brasil foi, simbolicamente, encerrado
Um dos capítulos mais brutais da história da saúde mental no Brasil foi, simbolicamente, encerrado Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press

Na abertura da solenidade, as palavras de um ex-interno comoveram o público que se amontoava para ouvir. Bento, de 61 anos, viveu um período em internação no Colônia e atualmente está em uma residência terapêutica de Barbacena.

"Foram inúmeras violações de direitos e sofrimentos. Porém, hoje sou livre. Tenho a minha independência e vivo da maneira que quero em total liberdade. É um momento de passarmos um cadeado definitivo nessa história de dor. Os sobreviventes viveram aqui por quase 50 anos e tiveram a história marcada pelo sofrimento. Três deles chegaram antes mesmo de completarem 15 anos de idade", afirmou em depoimento.

Parte dos 14 sobreviventes, entre seis homens e oito mulheres, foram internados ainda crianças ou adolescentes, sem diagnóstico de transtorno mental, em um sistema que, durante décadas, utilizou a exclusão social como justificativa para confinamentos forçados.

Segundo a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), todos continuarão recebendo acompanhamento médico, psicológico e assistência integral após a mudança. A medida dá fim a um dos capítulos mais violentos da história da saúde mental brasileira. A servidora pública Tainara de Paula, também discursou e relatou ser bisneta de uma das vítimas do manicômio. "Realizo hoje um sonho profissional e pessoal. Desinstitucionalizar é reconstruir possibilidades de vida", afirmou ela.

"Lembro quando eram 200 (sobreviventes), quando passaram para 80. E lembro quando me disseram que nenhum lugar podia receber os últimos. Mas, não aceitamos que os últimos 14 saíssem daqui para o cemitério", destacou o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti.

Décadas de abandono

“A maior parte chegou no hospital ainda criança. A média de internação - ou seja, o tempo em que eles permaneceram no local - é de 50 anos, já a de idade, é de 73…há um idoso com 90 anos, por exemplo”, informou uma fonte da Fhemig ao Estado de Minas.

Após a mudança, a equipe da Fhemig continuará os acompanhando conjuntamente à equipe da prefeitura - até que o Executivo assuma totalmente. A intenção é que haja uma mescla no tratamento para que os idosos não estranhem, será um processo de transição.

Os antigos pacientes estão bastante debilitados. A única pessoa que consegue se locomover sozinha possui os dois olhos furados e, por isso, não enxerga. A informação foi confirmada pela psicóloga e presidente do Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais, Lurdes Machado, que atuou no local e marcou presença na cerimônia. Ela conta que começou a compreender a dimensão da tragédia quando integrou equipes do Programa Nacional de Avaliação dos Hospitais Psiquiátricos (PNASH) no início dos anos 2000, período em que o país começava a revisar o modelo manicomial brasileiro. 

“Quando comecei a ouvir os relatos, fui percebendo que tudo o que incomodava a ordem social vinha parar aqui”, afirma. Segundo ela, pacientes de diferentes regiões de Minas eram enviados primeiro ao Hospital Raul Soares, em Belo Horizonte, e, quando não havia mais vagas, acabavam despachados para Barbacena “literalmente dentro de um trem”. “As pessoas chegavam sem nome, sem endereço, muitas sem lembrar de onde eram”, diz. 

Ela relata ainda episódios extremos narrados por sobreviventes e trabalhadores da época. “Quando não tinham corpos para ceder às faculdades de medicina, colocavam pessoas nuas no frio de Barbacena para morrer de hipotermia”, afirma.

Segundo a psicóloga, as pessoas que restaram vivem uma realidade marcada pelas sequelas. Com exceção de uma que consegue andar, os demais estão acamados, em situações delicadas de saúde. Além disso, os sobreviventes não possuem ligações familiares. Isso explica o porquê de não receberem outro tipo de apoio ao longo das últimas décadas.  

Apesar de a cerimônia desta segunda marcar simbolicamente o fechamento do Colônia, ainda existem leitos psiquiátricos de agudos funcionando na estrutura do hospital, conforme informado por Lourdes Machado. A modalidade, segundo ela, refere-se a atendimentos de crise aguda, ou seja, internações de curta duração destinadas a pacientes encaminhados pelos Centros de Atenção Psicossocial (Caps).

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Esses leitos funcionam hoje para estabilização clínica temporária. “Já existe a decisão política de fechar também e ser regulado nos hospitais gerais. Então isso vai ser regulado. Barbacena vai continuar como hospital regional, mas sem nada da psiquiatria”, disse Lourdes.

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