Mineiros fazem história e levam o maior mundial de robótica
Equipe de BH venceu pela primeira vez o principal torneio de robótica do mundo. Adolescente mineira também conquistou prêmio inédito
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Pela primeira vez, uma equipe brasileira venceu o FIRST® Championship 2026, considerado o maior torneio de robótica do mundo, realizado em Houston, no Texas, Estados Unidos. E o feito histórico veio de Minas Gerais: os belo-horizontinos da equipe Amigos Droids superaram 342 times internacionais e conquistaram o principal prêmio da competição.
Formada por adolescentes de 15 a 18 anos, a equipe venceu o Inspire Award, categoria que reconhece o melhor desempenho geral do torneio, da engenharia e programação à gestão, sustentabilidade e impacto social.
Além do título coletivo, a mineira Sofia Lana, de 15 anos, se tornou a primeira brasileira a conquistar o First Leadership Award, prêmio individual que homenageia jovens líderes da robótica mundial.
Na categoria disputada pelos mineiros, foi preciso criar um robô capaz de atuar em uma arena colaborativa, semelhante a uma mistura de futsal e basquete. Batizada de “Priscila”, a máquina chamou atenção pela inovação: sem recursos para construir uma estrutura metálica tradicional, a equipe desenvolveu um sistema próprio feito de policarbonato e abraçadeiras, inspirado na biologia humana.
“O Brasil pode estar no topo em robótica e educação!”, resumiu Sofia.
Robô sem metal virou diferencial
O projeto da equipe mineira nasceu justamente da limitação financeira. Enquanto muitas equipes internacionais utilizam peças metálicas caras e contam com escolas mantenedoras, os Amigos Droids precisaram encontrar alternativas mais acessíveis.
“A maioria das equipes tem uma instituição que paga tudo. A gente não tinha isso. Então, criamos o nosso próprio sistema construtivo”, explicou Sofia.
O sistema, chamado Fast, dispensa metais e parafusos. Em vez disso, usa uma estrutura de vetor ativo, formada por hastes e treliças espaciais que distribuem os impactos pela estrutura do robô.
“Quando uma peça de metal sofre impacto, ela amassa. O nosso robô dissipa esse impacto pelo corpo inteiro”, contou a estudante.
Foi justamente essa tecnologia que permitiu à equipe competir em igualdade com outras tradicionais dos Estados Unidos e de vários países.
“A rotina é de atleta de alta performance”
Por trás do título mundial existe uma rotina intensa de treinamento. Segundo Débora Lana, pedagoga, professora de robótica e uma das técnicas da equipe, os estudantes conciliam os estudos com uma carga pesada de preparação.
“Não existe férias de janeiro ou carnaval. Eles treinam de 8h às 15h quando necessário. Sábado e domingo são incondicionais”, afirmou. A comparação, segundo ela, é direta com atletas profissionais. “É o mesmo tipo de rotina de um atleta de alta performance.”
Débora é mãe de Sofia e também de Heitor Lana, fundador e líder da equipe. Ela contou que os Amigos Droids nasceram há cerca de dez anos, quando Heitor, ainda criança, insistiu para criar um time de robótica com amigos da escola.
Na época, eles tinham apenas 7 anos, abaixo da idade mínima para competir.
“Eles fizeram uma carta pedindo autorização para participar do torneio. Os organizadores ficaram encantados quando conheceram os meninos”, relembrou.
A equipe acabou autorizada a competir como convidada especial. Desde então, os estudantes acumulam títulos internacionais.
Robótica para alunos de escolas públicas
O trabalho da equipe vai além das competições. A partir do sistema Fast, os jovens criaram o FX4, um programa educacional voltado para democratizar o acesso à robótica.
O projeto oferece kits de montagem, plataforma on-line, mentorias e torneios próprios para estudantes, principalmente de escolas públicas e comunidades vulneráveis.
Segundo Sofia, mais de 1,3 mil jovens já foram impactados pelo programa em pouco mais de um ano. “Tem criança que chega achando que nunca vai conseguir construir nada. E aí ela monta um robô. Isso muda a vida dessas pessoas”, disse.
As ações acontecem em parceria com empresas patrocinadoras, que financiam os kits e escolhem quais cidades e escolas receberão o projeto. Municípios mineiros como Abaeté e Caeté já participaram das iniciativas.
“Quero inspirar outras meninas”
Sofia cresceu dentro do universo da robótica. Filha dos donos da escola Robótica DEL, no Bairro Lourdes, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, ela teve contato com competições ainda bebê.
“O primeiro torneio da First em que estive eu tinha 6 meses. Comecei aula de robótica com 4 anos e ganhei meu primeiro mundial aos 7”, contou.
Hoje, ela lidera projetos sociais da equipe e diz que o reconhecimento internacional também representa um incentivo para outras meninas ocuparem espaços na tecnologia.
“Quando as meninas veem outras na robótica, elas se inspiram. Eu quero ser essa inspiração para outras crianças”, afirmou.
Entre os dez vencedores do prêmio individual de liderança, Sofia foi a única estrangeira. Todos os outros homenageados eram norte-americanos.
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*Estagiária sob supervisão do subeditor Gabriel Felice