RISCO RODOVIÁRIO

BR-251: por que a promessa de duplicação não tira o medo do caminho?

Concessão da rodovia marcada por tragédias no Norte de Minas traz expectativa de mais segurança. Mas duplicação apenas em trechos curtos é vista como paliativo

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“Toda vez que pego esta estrada, tenho muito receio e incerteza. A gente fica com aquela sensação de ir e, talvez, não voltar.” As palavras do motorista Paulo Ricardo Santos Lima, de 38 anos, um terço deles ao volante de um caminhão, resumem o sentimento de quem é obrigado a percorrer a perigosíssima BR-251 no Norte de Minas. Uma rodovia que ganhou o apelido de “Estrada do Medo”, por ser palco de constantes tragédias – a mais recente ocorrida na madrugada do último 24 de maio, que tirou nove vidas na batida entre um ônibus e uma carreta. A concessão da BR-251 para a iniciativa privada, formalizada apenas dois dias antes do acidente com múltiplas vítimas, traz expectativa de intervenções que freiem as tragédias no trecho. A mudança já tem data marcada mas, após décadas de espera, virá mais tímida do que esperavam os usuários, com duplicação limitada a 12,5% do percurso total concedido.

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A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) informa que está prevista para 17 de julho próximo a assinatura do contrato com a empresa Ecorodovias, que contempla a gestão de 734,9 quilômetros de estradas em Minas Gerais: a própria BR-251 (340 quilômetros) e a BR-116, no percurso entre Governador Valadares e a divisa com a Bahia (394,9 quilômetros), cortando os vales do Rio Doce e do Jequitinhonha.

O leilão dos dois trechos, em 31 de março passado, teve resultado homologado no último dia 22 de maio. O contrato de concessão para a Ecorodovias terá validade de 30 anos, prevendo investimentos da ordem de R$ 13,16 bilhões, sendo R$ 7,3 bilhões em obras e R$ 5,8 bilhões destinados à operação e manutenção dos trechos. Grande parte dos recursos virá de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo a ANTT, a concessionária só poderá iniciar a cobrança de pedágio “após a execução de melhorias iniciais, como recuperação do pavimento e reforço da sinalização”.


Décadas de cobranças

Ao longo de décadas, diante dos constantes acidentes na BR-251, lideranças e entidades de classe do Norte de Minas reivindicam intervenções para conter as tragédias na rodovia, pleiteando sua duplicação. Porém, no contrato estão previstos apenas 42,3 quilômetros de duplicações (12,5% do percurso total de 340 quilômetros), entre o terceiro e o oitavo ano da concessão, em quatro trechos da estrada, sendo um deles a perigosa Serra de Francisco Sá. Também está prevista a implantação de 136 quilômetros de faixas adicionais entre o quarto e o 10º ano após a entrada da concessionária, em trechos críticos nos municípios de Salinas, Grão Mogol e Francisco Sá.

De acordo com a ANTT, nos primeiros meses da concessão será executado um conjunto de intervenções voltadas para a melhoria das condições de trafegabilidade e para a eliminação de problemas que representem riscos iminentes à segurança viária. “Essa etapa terá início imediatamente após a transferência da rodovia à concessionária e prazo de até 24 meses, sendo que as medidas consideradas essenciais deverão ser concluídas nos primeiros 12 meses”, informa o órgão federal.

Entre as ações prioritárias previstas para a BR-251, segundo a ANTT, estão a recuperação emergencial do pavimento, correção de desníveis entre pista e acostamento, eliminação de segmentos críticos com irregularidades no pavimento, recomposição e reforço da sinalização horizontal (no asfalto) e vertical (placas), recuperação e substituição de dispositivos de proteção e segurança viária, implantação de sinalização em trechos deficientes e reforço dos sistemas operacionais e de atendimento aos usuários.

“Na etapa seguinte, serão executadas intervenções estruturantes previstas ao longo da concessão, com concentração das obras entre o segundo e o 10º ano contratual. Estão previstas obras de ampliação de capacidade, implantação de faixas adicionais, correções de traçado, melhorias em interseções, dispositivos de segurança, passarelas, acessos, pontos de parada e serviços operacionais”, detalha a ANTT.

O projeto prevê ainda correções em curvas e segmentos considerados críticos da BR-251, como na Serra de Francisco Sá, e em trechos sinuosos da rodovia, além da implantação de novos dispositivos de interseção com o objetivo de ampliar a segurança viária e organizar os acessos urbanos e rurais, informa a agência federal. Ainda segundo a ANTT, “eventuais necessidades de antecipação de obras poderão ser analisadas após a assinatura do contrato de concessão”.


Os trechos que serão duplicados

Conforme o edital do leilão da concessão e o Programa de Exploração da Rodovia (PER), elaborados pela ANTT, após a assinatura do contrato com a agência, a empresa Ecorodovias deverá duplicar 42,3 quilômetros da BR-251, distribuídos por quatro trechos da rodovia. O primeiro deles vai da saída de Montes Claros (Km 521,2) até o trevo com a MGC-122, estrada para Janaúba (Km 501,9), compreendendo 19,3 quilômetros. A previsão de entrega é no terceiro ano da concessão.

O segundo percurso a ser duplicado é o da perigosa Serra de Francisco Sá, entre os Kms 476,9 e 465,8 (total de 11,1 quilômetros), uma sequência de curvas em área de relevo acidentado, onde as batidas e tombamentos são rotineiros. A previsão de entrega foi estipulada para o quinto ano da concessão.

Será duplicado ainda o trecho da perigosa “Curva do Vento Lateral”, entre os Kms 465,8 e 462,3 (extensão de 3,5 quilômetros), que vai se ligar à intervenção na Serra de Francisco Sá, totalizando 14,6 quilômetros de duplicação em sequência, com previsão de entrega também no quinto ano.

O quarto trecho da rodovia que terá pista dupla compreende 8,4 quilômetros, junto ao perímetro urbano de Salinas, do Km 317,7 ao Km 309,3, com previsão de conclusão no oitavo ano da concessão.


Faixas adicionais

Conforme o edital do leilão realizado pela ANTT, a concessionária da BR-251 deverá implantar 136 quilômetros de faixas adicionais entre o quarto e o 10º ano da concessão, em sete trechos. Entre os mais críticos e perigosos, com mais ocorrências de acidentes, estão a “Reta do Sabão” (3,1 quilômetros, do Km 489,6 ao Km 492,7, entre Francisco Sá e Montes Claros), e a “Serra de São Calixto” (5,1 quilômetros, do Km 450,8 ao Km 445,7, no município de Grão Mogol, no trecho Francisco Sá/Salinas).

Ainda entre Francisco Sá e Salinas, está prevista a implantação de faixas adicionais ao longo de 36,92 quilômetros na região da Serra de Salinas (do Km 355,02 ao Km 318,1). Segundo a ANTT, após a concessão para a iniciativa privada, “todos os pontos, bem como os demais segmentos da rodovia que demandam atenção, receberão intervenções imediatas de reforço na sinalização horizontal e vertical”.


Medo à espera de obras

Enquanto as obras não chegam, motoristas e passageiros que precisam percorrer a BR-251 convivem com a apreensão de se expor aos riscos constantes de desastres na Estrada do Medo. Entre esses condutores está o caminhoneiro Paulo Ricardo Santos Lima, com mais de uma década como profissional do volante. “A gente sempre entra na BR-251 com algum receio”, afirma o morador de Montes Claros, com o conhecimento de quem passa pelo trecho uma vez por semana, transportando cargas de Minas Gerais para o Nordeste – atualmente, carregamentos de cerveja.

O caminhoneiro salienta que no caminho é inevitável pensar na família que deixou em casa: a mulher, Laurice, de 33; e os três filhos, Diogo, de 12, Alice, de 9, e Raissa, de 6. “Esta rodovia tem pista simples, com muitas curvas perigosas e serras, e com um trânsito muito complicado, muita imprudência e muitos acidentes. Quando chove ou ocorre qualquer garoa, a pista fica muito escorregadia”, relata Paulo Ricardo.

Ele destaca ainda que a imprudência de boa parte dos caminhoneiros, que dirigem com velocidade excessiva e fazem ultrapassagens proibidas, amplia mais ainda os riscos para os demais motoristas de veículos de carga, ônibus e carros de passeio. Paulo Ricardo lembra que, por inúmeras vezes, teve que atrasar as viagens devido à interrupção do trânsito provocada por acidentes.

Para o caminhoneiro, a solução definitiva para frear as tragédias e mortes na BR-251 seria a duplicação de toda a rodovia. “Se duplicar os pontos críticos, principalmente nos trechos de serras e de curvas perigosas, pode melhorar muito, mas não vai melhorar 100%”, avalia.

A opinião é compartilhada pelo também caminhoneiro João Gabriel Novaes Azevedo, de 28. Ele é outro a destacar que o risco das pistas simples, curvas e serras perigosas se soma à imprudência de outros condutores de caminhões e carretas que viajam com excesso de velocidade e ultrapassam em locais proibidos. “Se vier um doido de lá para cá, a gente não sabe se vai sair vivo ou não”, comenta, ao se referir aos motoristas imprudentes.

Azevedo, que também mora em Montes Claros, afirma que percorre a BR-251, em média, quatro vezes por mês, transportando frutas do interior de Minas e de São Paulo para estados do Nordeste. “Dá mais medo subir a serra do que descer”, assegura o profissional, ao se referir a motoristas de caminhões e carretas que não obedecem à sinalização, descem a serra em alta velocidade e frequentemente acabam perdendo o controle da direção, provocando acidentes.

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Ele também afirma que a duplicação somente de 42,3 quilômetros da BR-251, abrangendo pontos críticos, vai apenas atenuar os riscos na rodovia, mas não resolve o problema. “A estrada só vai melhorar mesmo quando for toda duplicada. Se não duplicar, pode cobrar pedágio, pode fazer o que for, que vai acontecer acidente do mesmo jeito”, acredita.

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