EDUCAÇÃO

Da cela à medicina: a trajetória do ex-presidiário que mudou de vida

Aos 47 anos, Wallace William da Costa cursa medicina na Universidade Federal do Tocantins, inspira detentos e estudantes e prova que recomeços são possíveis

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Preso em 1997, aos 18 anos, por tráfico de drogas, sem ter concluído o ensino médio e com poucas perspectivas de futuro, Wallace William da Costa jamais imaginou que um dia vestiria um jaleco branco e se prepararia para exercer a medicina. Hoje, aos 47 anos, estudante do oitavo período da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), em Araguaína, ele carrega uma trajetória marcada por erros, preconceitos, superação e, especialmente, pela crença de que a educação pode transformar vidas.

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Natural de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, Wallace passou cinco anos privado de liberdade, reconstruiu sua vida por meio dos estudos, foi aprovado em diversos concursos públicos, trabalhou na área da saúde e, décadas depois de deixar a prisão, conquistou a vaga que sempre sonhou em um curso de medicina. Sua história tem inspirado estudantes, professores e até pessoas privadas de liberdade em diferentes estados do país.

A experiência vivida por Wallace reflete uma realidade que ainda envolve milhares de brasileiros. Segundo dados do Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional (Sisdepen), Minas Gerais contabilizava 73.432 pessoas privadas de liberdade em celas físicas no segundo semestre de 2025. 

Do número total de indivíduos, apenas 542 possuíam ensino superior completo, o equivalente a 0,74% da população prisional do estado. Em contrapartida, a maior parte dos detentos concentrava-se nos níveis mais baixos de escolaridade, com 35.499 pessoas sem concluir o ensino fundamental. 

Sua trajetória começou a mudar dentro da penitenciária

Aos 16 anos, enquanto cursava o primeiro ano do ensino médio, ele começou a usar drogas e acabou se envolvendo com o tráfico. Dois anos depois, foi preso. O jovem que via os amigos construindo suas vidas do lado de fora passou a viver a rotina dura do sistema prisional.

Foi durante um sábado comum, observando o céu por trás das grades, que algo mudou. "Eu vi uma lua cheia muito bonita. Quando olhei para ela através das grades, parecia que ela estava dividida em quadrados. Fiquei imaginando o que os meus amigos estariam fazendo naquele momento. Pensei que eu poderia estar estudando, trabalhando, namorando, vivendo. Ali eu tive um estalo. Percebi que não queria aquela vida para mim", relembra.

A reflexão se transformou em decisão

Na segunda-feira seguinte, Wallace procurou os professores da escola existente dentro da penitenciária Penitenciária José Edson Cavalieri, em JF. O local utilizava o Telecurso 2000, programa educacional que permitia a jovens e adultos concluírem seus estudos por meio de aulas gravadas exibidas em fitas de vídeo.

A rotina era simples, mas exigia disciplina. Os alunos assistiam às aulas, estudavam os conteúdos e realizavam avaliações periódicas para avançar nas disciplinas. Foi assim que ele retomou os estudos e concluiu o ensino médio dentro da prisão.

Seu interesse pela medicina surgiu ainda naquele período. Em 2001, antes mesmo de conquistar a liberdade, prestou vestibular para medicina na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Como os detentos não podiam sair da unidade prisional para fazer a prova, a universidade enviou aplicadores até o presídio.

O resultado quase mudou sua vida naquele momento. "Eu não passei por apenas um ponto", recorda.

No ano seguinte, em 2002, Wallace deixou a prisão decidido a reconstruir sua história. O caminho, porém, não seria simples. Incentivado pela irmã, técnica de enfermagem, ele fez um curso na área da saúde e iniciou a busca por oportunidades de trabalho. Mas logo percebeu que o passado continuava pesando.

Após participar de processos seletivos em hospitais particulares, era frequentemente questionado sobre antecedentes criminais. Sempre respondia com sinceridade. "Eu dizia que já tinha tido problema com a Justiça, mas que havia cumprido minha pena e não devia mais nada. Diziam que iam ligar depois, mas essa ligação nunca chegou", recorda. 

Embora ninguém declarasse oficialmente que a rejeição estava relacionada ao seu histórico criminal, o estudante acredita que o preconceito fechou muitas portas.

Mesmo diante das dificuldades, ele não desistiu. Mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a prestar concursos públicos. O resultado foi surpreendente. Foi aprovado em nove concursos.

Em um concurso para uma grande empresa, porém, viveu situação semelhante à que já havia enfrentado anteriormente. Classificado entre os primeiros colocados para uma das vagas disponíveis, realizou exames médicos e apresentou toda a documentação exigida. Novamente foi questionado sobre antecedentes criminais. Depois disso, nunca mais recebeu retorno.

Ainda assim, a aprovação em outros concursos permitiu que seguisse sua carreira profissional. Durante anos trabalhou na área da saúde até que, em 2016, uma cirurgia na coluna resultou em aposentadoria por invalidez. Foi então que uma nova etapa começou.

Wallace retornou a Juiz de Fora para ficar mais próximo da família e ajudar na criação das quatro filhas. Casado desde 2009, passou a dedicar mais tempo à esposa e às crianças.

Mas a sensação de ociosidade o incomodava. Com a chegada da pandemia de COVID-19, decidiu voltar a estudar. Em 2021, prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

O local da prova parecia um sinal do destino. A antiga unidade prisional onde havia passado os primeiros meses após a prisão havia sido desativada e transformada em escola. Foi justamente naquele prédio que ele realizou o exame. "Quando entrei ali, pensei que Deus não tinha me levado naquele lugar à toa." 

A nota conquistada garantiu aprovações em diferentes cursos. Wallace chegou a ingressar em odontologia na UFJF e também foi aprovado em engenharia mecatrônica.

O sonho antigo permanecia vivo

Ao pesquisar vagas disponíveis pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), encontrou uma oportunidade para medicina na então Universidade Federal do Tocantins, atual Universidade Federal do Norte do Tocantins. Sem sequer conhecer Araguaína, decidiu tentar e foi aprovado. 

Somente depois descobriu que a cidade ficava a mais de 2.200 quilômetros de sua casa. A mudança exigiu coragem e sacrifícios.

Enquanto ele se mudou para o Tocantins, a esposa Patrícia Franco permaneceu em Minas Gerais cuidando das quatro filhas: Mariana, de 16 anos; Maria Antônia, de 13, que é neurodivergente; Maria Luísa, de 12; e Maria Clara, de 10.

Quando ele recebeu a notícia da aprovação e a necessidade de se mudar, foi ela quem assumiu a criação das quatro filhas. Patrícia admite que a rotina nem sempre foi fácil, especialmente pela longa distância entre a família e o estudante, mas afirma que nunca cogitou desencorajá-lo. "É o sonho dele", resume.

A distância se tornou uma das maiores dificuldades da graduação. "Eu fico quatro ou cinco meses sem vê-las. Depois consigo passar algumas semanas em casa. O mais difícil é estar longe da família", conta o pai das meninas. 

No ambiente universitário, também precisou enfrentar novos desafios. Além de ser o estudante mais velho do curso, relata situações de preconceito relacionadas à idade, à cor da pele e ao passado criminal.

"Já ouvi comentários de pessoas dizendo que esse não era o perfil de gente que eles queriam. O curso de medicina ainda tem um perfil muito específico. Quando uma pessoa preta, mais velha e ex-presidiária ocupa esse espaço, acaba quebrando paradigmas." 

No ambiente universitário, também precisou enfrentar novos desafios. Além de ser o estudante mais velho do curso, relata situações de preconceito relacionadas à idade, à cor da pele e ao passado criminal
No ambiente universitário, também precisou enfrentar novos desafios. Além de ser o estudante mais velho do curso, relata situações de preconceito relacionadas à idade, à cor da pele e ao passado criminal Reprodução/Arquivo Pessoal

Apesar disso, encontrou apoio em colegas e professores. Entre eles estão Daniel e Jailson, estudantes acima dos 40 anos que se tornaram parceiros de jornada. Os três enfrentaram dificuldades para se adaptar à metodologia ativa utilizada pela universidade, diferente do modelo tradicional de ensino que haviam conhecido anteriormente.

A parceria foi fundamental para superar obstáculos acadêmicos e emocionais. "Se não fossem esses amigos, eu já teria desistido", revela. 

Dedicação aos estudos

Segundo o graduando, sua rotina envolve cerca de 10 horas diárias de estudos. Foi dessa necessidade que surgiu uma ferramenta tecnológica desenvolvida por um dos colegas do grupo. O aplicativo organiza conteúdos e ajuda a otimizar o tempo de estudo.

A partir daí, os resultados já começaram a aparecer. Mesmo antes da formatura, Wallace foi aprovado em concurso público para médico no interior de Minas, em uma cidade também na Zona da Mata. Um dos colegas também conquistou aprovação para o cargo de perito médico-legista.

"Para fazer o concurso e passar, não é necessário concluir a graduação, mas para tomar posse preciso do diploma", descreve. 

A previsão é que ele conclua a graduação em 2028, mas a formação acadêmica não é seu único objetivo: Nos últimos anos, ele decidiu tornar pública a própria história para inspirar outras pessoas. Passou a realizar palestras em escolas, instituições sociais e unidades prisionais.

Sempre que possível, conversa com jovens e detentos sobre educação, responsabilidade e recomeços com o objetivo de mostrar que erros não precisam definir uma vida inteira. "Se uma única pessoa ouvir minha história e entender que vale a pena estudar, que a educação transforma, então já valeu a pena contar tudo isso."

Repercussão intensa

Mensagens chegam de diferentes partes do país. Muitas delas são de pessoas que enfrentam dificuldades, carregam histórias semelhantes ou simplesmente encontraram motivação em sua trajetória. Para Wallace, cada relato reforça uma convicção construída ao longo de quase três décadas.

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Aquele jovem que observava a lua através das grades acreditava ter perdido todas as oportunidades. Hoje, prestes a se tornar médico, ele representa justamente o contrário: a prova de que a educação continua sendo um dos caminhos mais poderosos para transformar destinos. E é essa mensagem que ele pretende levar adiante, dentro dos hospitais, das escolas e das prisões, porque, para ele, recomeçar nunca é tarde demais.

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