Minas Gerais encerrou 2024 entre os estados com menor taxa de feminicídio do país, mas o dado positivo não se distribui da mesma forma entre todas as mineiras. Apesar da queda nos indicadores, mulheres negras continuam sendo as principais vítimas e enfrentam um risco significativamente maior de morrer por violência.

É o que apontam os dados do Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26/5) em parceria entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Segundo o levantamento, Minas registrou 264 feminicídios em 2024, taxa de 2,4 mortes para cada 100 mil habitantes do sexo feminino. O índice é o quarto menor do país, atrás apenas de São Paulo, Distrito Federal e Santa Catarina, e representa queda de 7,7% em relação ao ano anterior.

Na comparação histórica, a redução é ainda mais expressiva. Em dez anos, a taxa de feminicídios caiu 38,5% no estado.

Mas o recorte racial mostra que esse avanço não alcançou todas da mesma forma. Das 264 mulheres assassinadas em Minas em 2024, 176 eram pretas e pardas, enquanto 87 eram brancas, amarelas ou indígenas.

Quando o dado é ajustado proporcionalmente pela população, a desigualdade aparece com mais força: a taxa de homicídios entre mulheres negras foi de 2,8 por 100 mil habitantes, contra 1,9 entre as não negras. Isso significa que uma mulher negra em Minas teve, em 2024, um risco 47% maior de ser assassinada do que uma mulher não negra.

A diferença também aparece no ritmo da melhora ao longo dos anos. Entre 2014 e 2024, a taxa de homicídios de mulheres não negras caiu 38,7% no estado. Entre mulheres negras, a redução foi menor: 32%.

O padrão observado em Minas acompanha o cenário nacional. Em todo o Brasil, 3.642 mulheres foram assassinadas em 2024, o equivalente a 3,4 mortes por 100 mil habitantes, queda de 6,7% em relação ao ano anterior e o menor índice da série histórica iniciada em 2014. Ainda assim, o número acumulado revela a dimensão do problema: 46.336 mulheres foram mortas no país na última década.

No cenário nacional, a desigualdade segue padrão semelhante. Mulheres negras representam 67,5% das vítimas de homicídio feminino no país e enfrentam taxa de vitimização 66,7% superior à observada entre mulheres não negras.

Subnotificação

Com base em modelos estatísticos que corrigem possíveis falhas de notificação no sistema de saúde, o Atlas estima que a taxa real de homicídios femininos em 2024 pode ter sido de 4,4 mortes por 100 mil mulheres, um ponto acima do indicador oficialmente registrado. A diferença é a maior de toda a série histórica e sugere cautela na interpretação da queda recente.

O relatório indica que parte da redução observada nos números oficiais pode estar relacionada a problemas no registro e na notificação dos dados de saúde, o que dificulta a leitura completa da violência contra mulheres e pode ocultar parte do fenômeno.

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“O menor índice da série histórica coincide com o maior distanciamento entre homicídios registrados e estimados, indicando possíveis limitações na capacidade de mensurar a violência contra mulheres”, reforçam os especialistas responsáveis pela pesquisa em um trecho do estudo. 

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