A navegação fluvial mineira se restringe a pequena atividade econômica regular em poucos trechos mais largos de rios como o São Francisco, Paranaíba ou Grande, bem como as travessias. Um trabalho profundo de mapeamento que gerou até sistema de rotas por aplicativo (veja o mapa) começa a mudar essa realidade no Rio Pará, em Minas Gerais.

O desejo de navegar voltou à Região Central e Centro-Oeste mineira com a Expedição Rio Pará Vivo 2026. Não apenas ativistas e comunidade vão atravessar 300 quilômetros do afluente do Velho Chico, mas já utilizam o mapeamento, despertando por onde passam interesse em lazer náutico, turismo, pesca, transporte de cargas e passageiros.

A reportagem do Estado de Minas acompanha os diários da expedição e traz o mapeamento inédito da navegação no Rio Pará.

A expedição é realizada pelo Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio Pará, e começou na segunda-feira (11/05) entre Resende Costa, na nascente, e Passa Tempo. Nesta terça-feira (12/05) passa por Carmo do Cajuru. O encerramento será no sábado (16/05), em Pompéu.

O CBH do Rio Pará também foi o responsável pelo levantamento da navegabilidade do rio mineiro e os aplicativos de navegação já estão disponíveis.

Cachoeiras, trechos rasos, bancos de areia e rochas predominam e tornam a navegação pelo Rio Pará uma tarefa considerada “difícil” na maioria de seu percurso; “fácil” em uma pequena parte que é proporcional à extensão considerada inviável (não navegável).


Os expedicionários remam caiaques nesta que é considerada a primeira descida oficial de conscientização pelas águas da bacia.

Estão munidos das informações do Projeto de Mapeamento da Navegabilidade que mapeou desde 2023 um total de 294 quilômetros do manancial, entre Passa Tempo e a foz no Rio São Francisco, em Pompéu.
Foram feitos trabalhos de batimetria (levantamento de profundidade), uso de drones e receptores GNSS (posicionamento global), entre outros.

Trechos do Rio Pará onde a navegação é fácil, difícil ou se tratam de segmentos não navegáveis

Reprodução
 

A falta de volume de água da nascente do Rio Pará, em Resende Costa, as pedras, quedas, rápidos, bancos de areia e outros obstáculos levantados consideraram o manancial não navegável até os municípios de Cláudio e Itaguara, limite considerado na ponte da rodovia MG-260 sobre o manancial.

Desta forma, no trecho mais alto, não se considera o rio navegável em Desterro de Entre Rios, Passa Tempo, Piracema, Carmópolis de Minas e em parte de Itaguara.

Outros dois segmentos do Rio Pará também foram considerados não navegáveis, sendo um deles o compreendido pela zona da barragem da Pequena Central Hidrelétrica de Gafanhoto, entre Divinópolis e Carmo do Cajuru, e em Conceição do Pará, entes de Pitangui, na área da Usina Hidrelétrica do Carioca.

A navegabilidade é considerada fácil entre Carmo do Cajuru e Cláudio, em um pequeno trecho entre Divinópolis e Carmo do Cajuru, após a usina, entre Pitangui e Martinho Campos e entre Martinho Campos e Pompéu antes da foz no Rio São Francisco.

Em todo o restante o rio Pará foi considerado de difícil navegação se mantidas as condições atuais e os obstáculos encontrados entre 2023 e 2024.

Nos trechos de fácil navegação poder-se-ia admitir transporte comunitário, carga leve e acesso fluvial regular.

Expedicionários percorrem trechos de navegação difícil, desviando de bancos de areia e rochas pelo Rio Pará

Tanto Expresso/CBH Rio das Velhas

Podem ser empregados lanchas, barcos e canoas motorizadas, com motores de popa, remos e velas, feitos de alumínio, madeira ou fibra, de até 8 metros de comprimento e 2,2 metros de largura.

Onde a navegação foi considerada difícil o movimento se restringirá a pequenas embarcações para transporte próprio, pesca e até esportes radicais.

O recomendado é o uso de canoa, caiaque e bote inflável, com remos ou pequenos motores de popa, feitos de fibra, alumínio ou plástico, com 4,5 metros de comprimento e 1,2 metro de largura.

Onde a navegação é mais comum no Rio Pará?


O segundo dia da expedição não poderia ocorrer em local mais representativo do que o município do Centro-Mineiro de Carmo do Cajuru, onde a represa de mesmo nome evoca toda opulência do Rio Pará e já é largamente utilizada para lazer e pesca, se tornando símbolo da região.

O presidente do CBH do Rio Pará, José Hermano Oliveira Franco, considera que a passagem pelas comunidades locais e pela represa ajudará a chamar a atenção para os potenciais usos múltiplos da água do manancial, como a navegação que não é tão comum na bacia.

Curso do Rio Pará é considerado majoritariamente de difícil navegação, mas há pontos onde grandes embracações podem transitar

Tanto Expresso/CBH Rio das Velhas

“A gente pensa em água para abastecimento, água para dessedentação (animal), água para produção, mas tem água que é turismo. E Carmo do Cajuru é um lugar onde isso já ocorre e pode ser exemplo para a bacia”, afirma Franco.

O líder do CBH e um dos navegantes destaca que já ocorre no local o uso de lanchas a partir de condomínios. Corridas já foram realizadas aproveitando as margens de pedras. “Existe um potencial que o rio traz junto com ele de geração de emprego e renda com atividades de menor impacto como o turismo, o esporte, a pesca entre outros”, destaca o presidente José Hermano Franco.


Nesta tarde, os expedicionários seguem para a região do Retiro do Lago, na Barragem de Carmo do Cajuru. Paralelamente ao remo, a programação inclui sempre a proximidade com a comunidade e reúne oficina temática, apresentações artísticas de alunos da rede municipal, contação de histórias, exposição educativa e mesa de debate com especialistas sobre gestão hídrica e sustentabilidade.

Durante o evento, também será assinado o Acordo de Cooperação Técnica do Programa de Saneamento Rural no município, com previsão de implantação de 83 soluções de esgotamento sanitário em comunidades locais.

A jornada atual é a segunda etapa de ações do CBH do Rio das Velhas que realizou em 2023 a primeira expedição quase que exclusivamente por terra, com educação ambiental e articulação com autoridades. Agora, o Rio Pará é vivenciado como o protagonista e eixo estruturante da região.

Cada desembarque abrigará recepções, palestras para usuários de recursos hídricos e atividades culturais. Sob o aspecto de infraestrutura verde, a expedição será o palco para a celebração de parcerias técnicas focadas em saneamento rural.

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Acordos viabilizarão o tratamento individualizado de esgoto em áreas afastadas e tradicionais, garantindo a proteção sanitária das águas mapeadas.

Pontos navegáveis e embarcações recomendadas

  • Trecho Carmo do Cajuru a Cláudio: navegabilidade considerada fácil para lanchas e barcos de até 8 metros
  • Segmento após a Usina do Gafanhoto: águas propícias para embarcações motorizadas de alumínio ou fibra
  • Região entre Pitangui e Martinho Campos: tráfego facilitado para transporte comunitário e pequenas cargas
  • Percurso de Martinho Campos a Pompéu: condições favoráveis para navegação regular antes da foz
  • Alto Rio Pará (Resende Costa a Itaguara): trecho não navegável devido a pedras, quedas e baixo volume
  • Entorno de barragens e usinas: áreas restritas à navegação em função de estruturas hidrelétricas
  • Zonas de difícil navegação: restrição a canoas, caiaques e botes infláveis de até 4,5 metros
  • Áreas com bancos de areia e rochas: exigência de condução manual com remos ou motores de popa leves

Potenciais de uso e lazer no Rio Pará

  • Lazer náutico: uso de lanchas e motos aquáticas em áreas de profundidade adequada
  • Pesca esportiva: fomento à captura sustentável de espécies como o pacu e a piapara
  • Turismo ecológico: observação guiada da fauna e flora nas margens preservadas
  • Transporte comunitário: integração de povoados isolados através de pequenas embarcações
  • Cargas leves: escoamento de produção rural em trechos de navegabilidade fácil
  • Esportes de aventura: descida de corredeiras com caiaques e botes infláveis
  • Eventos náuticos: realização de regatas e encontros de navegadores na represa de Carmo do Cajuru
  • Geração de renda: criação de empregos diretos em marinas e serviços de guia turístico

Tecnologias e ações de proteção hídrica

  • Batimetria técnica: medição sistemática da profundidade para garantir rotas seguras
  • Mapeamento GNSS: uso de coordenadas de alta precisão para sistemas de navegação
  • Monitoramento por drones: identificação aérea de bancos de areia e obstáculos naturais
  • Saneamento rural: instalação de 83 sistemas de tratamento individualizado de esgoto
  • Educação ambiental: oficinas temáticas para conscientização das comunidades ribeirinhas
  • Mata ciliar: preservação da vegetação marginal para evitar o assoreamento do leito
  • Gestão de conflitos: mediação do uso da água entre irrigação, abastecimento e lazer
  • Sistemas mobile: disponibilização de mapas de rota via aplicativos para o público geral
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