Os muitos desafios do envelhecimento no Brasil
Estudo revela que, além das questões de saúde, fatores urbanos, sociais e estruturais têm papel decisivo na qualidade de vida dos idosos brasileiros
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A hipertensão arterial sistêmica segue como uma das condições mais relevantes de saúde de mais de um terço dos idosos do país. Esse é um dos indicadores mais importantes obtidos pela terceira etapa do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (Elsi-Brasil), uma das mais abrangentes pesquisas nacionais sobre envelhecimento no Brasil, apresentada, nessa terça-feira (26/5) pela Fiocruz Minas e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Além dos resultados sobre o estudo, as instituições lançaram o Painel de Indicadores sobre Envelhecimento. A plataforma on-line tem cerca de 100 indicadores relacionados à saúde da população com 60 anos ou mais, abrangendo diferentes aspectos, como condições de vida, funcionalidade, ambiente social, acesso a políticas públicas, entre outros.
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A pesquisa, que incluiu a aferição domiciliar da pressão arterial com metodologia padronizada, identificou que 34,4% dos idosos apresentam níveis compatíveis com hipertensão, ou seja, pressão a 14 por 9 ou acima disso. Segundo a coordenadora do estudo, a pesquisadora Maria Fernanda Lima-Costa, isso corresponde a cerca de 11 milhões de idosos que precisam de avaliação clínica, diagnóstico e tratamento para prevenir desfechos graves, como infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência renal e demência vascular.
A prevalência da pressão alta aumenta progressivamente com a idade: 31,9% entre 60 e 69 anos, chegando a 40,1% entre pessoas com 80 anos ou mais. Diferentemente de outros indicadores, não houve diferenças significativas entre homens e mulheres, o que reforça o caráter generalizado da condição, segundo os pesquisadores.
“Essas pessoas podem estar com pressão alta por dois motivos: não sabem que têm hipertensão – porque é uma doença sintomática – ou o remédio não está funcionando adequadamente. Por isso, o programa é importante porque é um problema silencioso. E se não é tratado, aumenta o risco para uma série de doenças graves”, afirma a pesquisadora.
Como a condição frequentemente é assintomática, os pesquisadores destacam ainda a importância do rastreamento regular e do fortalecimento da atenção primária para evitar subdiagnóstico e complicações.
Medo de queda e da violência
Outros indicadores da pesquisa revelam que fatores urbanos, sociais e estruturais têm papel decisivo na qualidade de vida dos idosos, mostrando que envelhecer no Brasil envolve desafios muito além da ausência de doenças. O estudo mostra que 42,7% dos idosos que vivem em áreas urbanas relatam medo de cair por causa de defeitos em calçadas, passeios ou vias públicas próximas de suas casas.
Entre as mulheres idosas, esse índice chega a 50,5%, enquanto entre os homens é de 31,9%. A preocupação também aumenta com a idade: atinge 35,2% das pessoas entre 60 e 69 anos, sobe para 47,1% entre 70 e 79 anos e alcança 63,1% entre aqueles com 80 anos ou mais. “Os dados reforçam a urgência de políticas públicas voltadas à adaptação das cidades para uma população cada vez mais envelhecida, incluindo acessibilidade, segurança viária, mobilidade e planejamento urbano inclusivo”, destaca a pesquisadora Maria Fernanda Lima-Costa. Ela lembra que a queda é um problema de saúde pública importante, sobretudo em idosos.
O estudo mostra ainda que 12,1% dos idosos brasileiros consideram a vizinhança onde vivem muito insegura em relação à violência e criminalidade. Em números absolutos, isso representa aproximadamente 3,8 milhões de pessoas vivendo em contextos marcados pelo medo e pela vulnerabilidade social.
Os pesquisadores ressaltam que a percepção aparece de forma relativamente homogênea entre homens e mulheres e entre diferentes faixas etárias, indicando que a violência urbana é um problema transversal e disseminado, com impacto direto sobre a qualidade de vida, a saúde mental e a circulação social dessa população.
“A violência urbana é um problema generalizado. Implica uma série de questões, medo de sair de casa, o estresse constante. E é um problema do país que depende de mudanças mais amplas. É mais complexo”, afirma Maria Fernanda.
Perda da capacidade funcional
A perda da capacidade funcional aparece como outro eixo central do estudo. De acordo com os resultados, 20,4% dos idosos brasileiros apresentam dificuldade para fazer pelo menos uma atividade básica da vida diária, como se vestir, tomar banho, comer, usar o banheiro ou levantar-se da cama. “Isso significa que cerca de 6,5 milhões de pessoas vivem com algum grau de limitação funcional, condição que impacta não apenas sua autonomia, mas também suas famílias, cuidadores e os sistemas de saúde e assistência social”, explica a pesquisadora.
Neste caso, há diferença conforme o gênero: 23,1% das mulheres apresentam limitação funcional, contra 17% dos homens. A progressão por idade é ainda mais contundente: a prevalência passa de 13,9%, entre pessoas de 60 a 69 anos, para 44,2% entre idosos com 80 anos ou mais.
Os dados também revelam fragilidades importantes na rede de apoio. Entre os idosos que apresentam dificuldades para fazer uma ou mais atividades da vida diária, apenas 37,9% recebem ajuda para fazer essas atividades. Essa proporção aumenta gradualmente com a idade: de 24,1% para 38,1% e 55,4% entre aqueles com 60 a 69, 70 a 79 e 80 anos ou mais, respectivamente.
Outro destaque foi a falta de treinamento para aqueles que prestam cuidado aos idosos: somente 5,8% dos cuidadores relataram ter recebido algum tipo de treinamento. Segundo os pesquisadores, isso evidencia a ausência de políticas estruturadas para formação e suporte a cuidadores familiares ou informais. “Esse cenário aponta para a necessidade urgente de políticas integradas de cuidado de longa duração, apoio domiciliar e qualificação daqueles que prestam cuidados”, afirma a pesquisadora.
A importância da atenção primária
Para os pesquisadores, os resultados reafirmam ainda o papel central do Sistema Único de Saúde (SUS) como principal base de cuidado para a população idosa do país. Cerca de 2/3 das pessoas com 60 anos ou mais têm o SUS como única fonte de atenção à saúde. A Estratégia Saúde da Família (ESF), uma das principais políticas de atenção primária do SUS, também se destaca: 69,2% dos idosos brasileiros estão vinculados à iniciativa, o que representa cerca de 22,2 milhões de pessoas.
“Nesse sentido é muito importante a Estratégia Saúde da Família. É considerado um dos maiores programas de saúde do mundo, reconhecido mundialmente. Todos os resultados que já foram publicados até agora, falam a favor da eficácia da estratégia. Para se ter uma ideia, o acesso, ou seja, a pessoa que procura consulta e consegue é parecido com os de países da Europa Continental”, ressalta a coordenadora do estudo.
ROTINA DE Preocupações
A aposentada Vanda Natividade, de 80 anos, representa quase perfeitamente os indicadores revelados pela pesquisa. A idosa conta que tem artrose na perna esquerda e precisa fazer uma cirurgia. O problema acarreta dificuldades para que ela possa se locomover. Vanda diz que sente medo de cair por conta da fragilidade nas pernas. “Minha fisioterapeuta fala para eu andar com o pé firme para não correr o risco de tropeçar.”
Defeitos em passeios e vias públicas tornam esse medo ainda maior. A idosa relata que já sofreu várias quedas pela dificuldade de se adaptar ao andador e à bengala. Moradora em Vespasiano, na Grande BH, ela raramente sai de casa por medo da violência e da dificuldade de se locomover. “Só vou à igreja aos domingos, faço minhas orações e o pastor me deixa no portão de casa.”
A única coisa da qual ela não reclama é de perda da capacidade funcional. “Troco de roupa sozinha, tomo meu banho, varro o quintal, passo pano na casa, colho frutas no quintal”, se orgulha. Ela mora sozinha, apesar de o filho viver em uma casa próxima a dela.
Em relação à saúde, Vanda diz que toma remédio para controlar a pressão arterial há cerca de dez anos. “Comecei a tomar depois que fiz a cirurgia na perna, em 2016. Faço acompanhamento médico”, ressalta. Ela se trata pelo SUS e está inserida na Estratégia de Saúde da Família. “Eles vão na minha casa, me acompanham”, completa.
Painel ajuda a definir prioridades
Além do resultado do estudo, foi lançado o painel de indicadores sobre envelhecimento. Segundo os pesquisadores, a plataforma vai permitir acesso público e ampliado a informações sobre várias dimensões do envelhecimento no país. A ferramenta foi concebida para apoiar pesquisadores, gestores públicos, profissionais de saúde e sociedade civil no monitoramento contínuo das condições de vida e necessidades da população idosa brasileira.
Para a pesquisadora Maria Fernanda, a contribuição do painel permite conhecer a demanda de prioridade e produzir políticas tanto sociais quanto de apoio ao SUS para melhorar essas iniciativas. Ela lembra que a população idosa brasileira é das que mais cresce no mundo. Segundo o Censo 2022, o país já conta com mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais.
Sobre o estudo
O Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) é uma pesquisa de base domiciliar, conduzida pela Fiocruz Minas e pela UFMG, com financiamento do Ministério da Saúde. O estudo acompanha adultos com 50 anos ou mais, moradores de 70 municípios das cinco regiões do país. Dentro de cada município são sorteados domicílios.
De acordo com os pesquisadores, a pesquisa permite compreender, ao longo do tempo, transformações nas condições de saúde, nos aspectos socioeconômicos e nas necessidades dessa população. O painel é baseado nos participantes com 60 anos ou mais.
A primeira etapa foi feita em 2015-2016, a segunda em 2019-2021 e a terceira em 2023-2024. Segundo a pesquisadora, a intenção é submeter a próxima etapa para aprovação no fim deste ano e ter financiamento a partir do ano que vem. O objetivo é fazer várias etapas do estudo.
A pesquisadora explica que dentro dos domicílios são selecionados aqueles com 50 anos ou mais. “É feita uma entrevista. Acompanhamos os participantes desde a primeira etapa, mas a cada uma incluímos novos participantes para garantir a representação nacional. Alguns mudam de endereço, outros morrem”, explica. Por isso, os pesquisadores repõem a amostra para atingir o número pré-determinado de entrevistas, que é em torno de 10 mil por etapa.
NÚMEROS
34,4%
dos idosos brasileiros apresentam níveis compatíveis com hipertensão, ou seja, pressão a 14 por 9 ou acima
42,7%
dos 60+ que vivem em áreas urbanas relatam medo de cair por causa de defeitos em calçadas, passeios ou vias públicas próximas de suas casas
12,1%
da população do país acima de 60 anos considera a vizinhança onde vive muito insegura em relação à violência e criminalidade
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20,4%
dos idosos apresentam dificuldade para fazer pelo menos uma atividade básica da vida diária, como se vestir, tomar banho, comer, usar o banheiro ou levantar-se da cama