ATLAS DA VIOLÊNCIA

Três em cada quatro vítimas de homicídio em Minas são negras

Atlas da Violência 2026 mostra que população negra concentra 75,8% das mortes violentas no estado e tem risco de assassinato 2,3 vezes maior que o de não negros

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Minas Gerais aparece entre os estados com menores taxas oficiais de homicídio do país, mas um recorte do Atlas da Violência 2026 mostra que essa redução da letalidade não atinge todos os grupos da mesma forma. Em 2024, três em cada quatro pessoas assassinadas no estado eram negras.

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Ao todo, foram 2.069 homicídios de pessoas pretas e pardas, o equivalente a 75,8% das 2.731 mortes registradas oficialmente em território mineiro. Os dados integram o Atlas da Violência 2026, levantamento elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgado nesta terça-feira (26/5).

Embora Minas registre uma das menores taxas gerais de homicídio do Brasil, o estudo indica que a violência continua tendo cor. No estado, a taxa de homicídios entre pessoas negras foi de 16,5 por 100 mil habitantes negros, a quinta menor do país para esse grupo.

Ainda assim, o dado isolado esconde uma desigualdade importante: uma pessoa negra em Minas tem 2,3 vezes mais chances de ser assassinada do que uma pessoa não negra.

O Atlas trata esse padrão como parte de uma dinâmica estrutural que atravessa o país e persiste mesmo em contextos de melhora dos indicadores gerais. No Brasil, o cenário é semelhante.

Em 2024, o país registrou 32.820 homicídios de pessoas negras, o equivalente a 77% de todos os assassinatos registrados nacionalmente. A taxa nacional de homicídios entre negros foi de 27,3 por 100 mil habitantes, enquanto entre não negros ficou em 10,1. Isso significa que um negro teve 2,7 vezes mais chances de ser morto por homicídio no Brasil do que uma pessoa branca, amarela ou indígena.

Desigualdade na queda

O Atlas chama atenção para o fato de que a redução dos homicídios observada na última década ocorreu de forma desigual entre grupos raciais. Entre 2014 e 2024, a queda nacional da violência letal foi mais intensa entre pessoas não negras (38,9%) do que entre pessoas negras (21,7%).

O dado sugere que, embora o país esteja matando menos do que há dez anos, o ritmo da melhora tem sido mais lento justamente entre os grupos historicamente mais vulneráveis.

A desigualdade racial também dialoga com outros indicadores do levantamento. No caso das mulheres, por exemplo, o Atlas mostra que as negras continuam mais expostas à violência em Minas. Em 2024, foram assassinadas 176 mulheres negras, contra 87 mulheres não negras, com risco de morte 47% superior entre pretas e pardas.

Entre jovens, grupo que historicamente concentra os homicídios, Minas registrou 1.157 mortes entre pessoas de 15 a 29 anos, embora tenha uma das menores taxas proporcionais do país. O Atlas não cruza diretamente juventude e raça no recorte estadual, mas os dados gerais reforçam que a violência continua concentrada em grupos específicos.

Metodologia na amostra

Outro dado do Atlas ajuda a dimensionar esse cenário. Em 2024, Minas registrou oficialmente 2.731 homicídios, mas o estudo estima que o número real de mortes violentas pode ter chegado a 3.949 casos, quando incorporadas as chamadas Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), mortes inicialmente registradas sem definição entre homicídio, suicídio ou acidente.

Com essa metodologia, o estado contabilizou 1.218 homicídios ocultos, alta de 240,2% em relação ao ano anterior.

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Ainda que o Atlas não apresente o recorte racial desses homicídios estimados, os autores alertam que o crescimento das mortes sem classificação adequada dificulta compreender plenamente a distribuição da violência e formular políticas públicas mais precisas.

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