Tradição de "subir a Cartuxa", em Mariana, resgata história de dom Viçoso
Ao longo de seis quilômetros morro acima, fiéis fazem paradas em pontos da via-sacra
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No único dia do ano sem missa e toque de sinos, com o silêncio quebrado pelo som das matracas, a Sexta-Feira da Paixão (3/4) em Mariana, na Região Central de Minas, teve a tradicional caminhada até a Cartuxa de dom Viçoso.
O grupo de fiéis – liderados pelo reitor e pároco da Sé de Mariana, padre Geraldo Dias Buziani, e o titular da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, padre Fabiano Alves – saiu cedo para chegar ao topo da elevação distante seis quilômetros do Centro da cidade. Ao longo do caminho, orações e paradas nos pontos da via-sacra.
“Além da Sexta-feira da Paixão, todo dia 13 tem essa peregrinação. Aqui, viveu e morreu dom Viçoso”, explica o padre Geraldo Buziani. Cartuxa tem a ver com a história do sétimo bispo de Mariana, dom Antônio José Ferreira Viçoso (1787-1875).
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Bispo da diocese de Mariana (atual arquidiocese) de 1844 a 1875, o português dom Viçoso ingressou no noviciado da Congregação da Missão, em Lisboa, em 1811, sendo ordenado padre lazarista sete anos depois. Veio de Portugal para fundar missões na então província de Mato Grosso, mais tarde dirigindo o Colégio do Caraça (hoje Santuário do Caraça, em Catas Altas, a 120 quilômetros de Belo Horizonte).
Em processo de canonização, dom Viçoso recebeu (2014) o título de Venerável, em reconhecimento a suas virtudes heroicas.
No alto do morro, se encontram a modesta casa, um cruzeiro com uma vista magnífica e muitas árvores. Nesse cenário, o peregrino “de primeira viagem” aprende o significado de Cartuxa, que se refere à ordem religiosa (os monges cartuxos vivem em clausura) fundada por São Bruno, no século 11, de quem dom Viçoso era devoto.
Importante destacar, no trabalho de dom Viçoso, a preocupação com a educação e o futuro das jovens. Em 1848, trouxe da França as irmãs vicentinas para criar, em Mariana, o Colégio Providência, primeira escola feminina de Minas. É dele a frase: “Somente educando a mulher, oferecendo-lhe uma boa condição cultural, é que teremos uma sociedade mais civilizada e preparada para dar à pátria cidadãos completos. Não vos esqueçais de que a mulher, sobretudo a mãe, será sempre a primeira mestra.”
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Simplicidade
O lugar onde dom Viçoso gostava de ficar é simples. Os visitantes podem ver alguns pertences, como um baú e a cama, sobre a qual está escrito: “Nesta cama, dom Viçoso descansou o corpo e entregou a Deus o seu espírito”. Em Mariana, os moradores costumam dizer “subir a Cartuxa”, um misto de sacrifício e busca de paz. A dom Viçoso, o mineiro de Itabira Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) dedicou o poema “Santo particular”.