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Estado de Minas

Primeira escola feminina de Minas Gerais comemora 162 anos

Fundada por religiosas francesas, o Colégio Providência de Mariana mantém hoje grupos mistos


postado em 03/03/2012 06:00 / atualizado em 03/03/2012 07:07

Aberta em 10 de março de 1850, unidade foi ampliada em 1930 e ocupa hoje 12 mil metros quadrados e um quarteirão inteiro(foto: Beto Novaes/EM/D.A.Press)
Aberta em 10 de março de 1850, unidade foi ampliada em 1930 e ocupa hoje 12 mil metros quadrados e um quarteirão inteiro (foto: Beto Novaes/EM/D.A.Press)
 

Primeiro de navio, depois a cavalo e, finalmente, com os pés bem firmes na terra para erguer um dos pilares fundamentais da educação em Minas Gerais. Em meados do século 19, depois de três meses atravessando o Oceano Atlântico, vindas da Europa, e trilhas nas montanhas, desde o Rio de Janeiro, 12 freiras francesas da congregação das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo chegavam a Mariana, na Região Central, para cuidar de meninas órfãs e fundar a primeira escola feminina do estado. Eram tempos difíceis, sem recursos, e a empreitada deu certo. No próximo sábado, coincidentemente na semana de comemorações do Dia Internacional da Mulher, o Colégio Providência, no Centro Histórico da cidade, vai completar 162 anos, sempre com o lema de “tradição e renovação”, palavras que podem soar antagônicas mas, na prática, se complementam para garantir ensino de qualidade.

A trajetória começou pelas mãos do então bispo da Arquidiocese de Mariana, dom Antônio Ferreira Viçoso (1787-1875), responsável pelo convite direto à congregação, com sede em Paris, para desenvolver trabalhos no Brasil. Convite feito, convite aceito, e as religiosas vicentinas chegaram em 3 de abril de 1849, dando início ao projeto educacional no ano seguinte. Enquanto aprendiam português, as missionárias visitavam pobres e doentes. “O Colégio Providência, antes Casa da Providência, se tornou o berço das Filhas da Caridade no país”, diz, com orgulho, a irmã Edvanir Leôncio Lopes, há 11 anos na direção da escola. Ela conta que a instituição teve início modesto, numa casa “muito simples e pobre” da Rua Barão de Camargos, no mesmo quarteirão onde hoje está a escola. “O prédio ampliado, datado de 1930, tem hoje 12 mil metros de área construída, a maior do município, ocupando um quarteirão inteiro.”

Caminhar pelos longos corredores revestidos de ladrilhos hidráulicos, rezar nas três capelas, conhecer o museu com peças da época das pioneiras ou ver a movimentação dos alunos é entrar, de corpo inteiro, na atmosfera do colégio pintado de azul e branco. Muitas datas, em 2012, marcam a sua escalada, lembra Edvanir: há 110 anos, o Providência se tornava Escola Normal para formar professoras, equiparando-se à Escola Normal Modelo, atual Instituto de Educação de Belo Horizonte; e há quatro décadas, os meninos recebiam sinal verde para estudar, ao mesmo tempo que o internato deixava de existir. “O nosso diferencial é a formação humana e cristã. Nós nos preocupamos com a ética e os valores morais, conforme a filosofia vicentina e dentro do conceito da sustentabilidade”, afirma a diretora. O colégio está vinculado à Província da Associação das Filhas de Caridade de São Vicente de Paulo em Belo Horizonte.

"Somente o trabalho sério e de qualidade pode oferecer uma escola consistente, justa e aberta a todos os que buscam uma proposta educacional eficiente" - Irmã Edvanir Leôncio Lopes, diretora do Colégio Providência


De tão importante, o Providência já figurou em tese de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). No seu estudo, a professora do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH) Ana Cristina Pereira Lage verificou que a congregação se implantou primeiro no Brasil e só oito anos depois em Portugal. “O objetivo inicial de dom Viçoso, um grande reformador da educação, era ter gente para cuidar das órfãs, pois não havia instituição específica. Sem recursos, as irmãs acreditavam que a futura construção da escola seria auxiliada pela providência divina”, explica. O governo provincial ajudou com algum dinheiro e o bispo saiu a campo atrás de novas quantias.

Como os recursos não foram suficientes, as portas foram abertas para meninas ricas, que, no entanto, não ficavam com as orfãs, diz a professora, lembrando que nessa época os anseios da sociedade estavam mudando: “Para os pais, era importante ter filhas estudando com religiosas francesas, então as mandavam para o colégio”. Na sua pesquisa, Ana Cristina constatou que o segundo colégio feminino em Minas foi o de Macaúbas, em Santa Luzia, na Grande BH. Antes recolhimento, ele teve salas de aula de 1863 a 1926 até se tornar mosteiro.

Formação para a vida

Com 900 alunos, nas modalidades educação infantil, ensinos fundamental e médio, 47 professores e 28 funcionários na parte administrativa, o Providência mantém parceria com a Faculdade Educacional de Mariana (Femar), que oferece cursos de graduação em administração e engenharias de produção e ambiental. “Em mais de um século e meio, formamos alunos que se tornaram médicos, engenheiros, políticos, professores e sacerdotes. Além disso, temos ações de inclusão social, com alunos bolsistas, clínica de atendimento psicopedagógico, pastoral escolar, para socorrer os carentes e outros programas”, conta a irmã Edvanir. Se fosse definir em poucas palavras o seu sentimento em relação ao colégio, a ex-aluna e atual assessora de administração contábil Kátia Simone dos Santos diria “formação para a vida”. Ela estudou de 1979 a 1990 como bolsista e enaltece a instituição, que sempre considerou como sua segunda casa. “Aqui temos a autoestima elevada”, revela Kátia, lembrando que a gestão da escola, antes restrita às irmãs, está também nas mãos de leigos.

BAÚ DE LEMBRANÇAS

Na primeira construção do colégio, do século 18, está o Museu Casa da Providência, que conta muito da história da instituição e da vida das missionárias pioneiras. Num armário, por exemplo, estão perfumes, essências e outros produtos que as freiras francesas faziam para obter recursos e manter a escola. Criado em 1999, o museu temático abriga montarias originais da primeira viagem das religiosas, livros, baús, tapetes, documentos, paramentos, o diário de bordo da irmã Du Bost, a primeira diretora, e até um quarto de dormir como no século 19. Todo o ambiente retrata os primeiros tempos da vida das vicentinas em Mariana. O local fica anexo à Capela de Nossa Senhora da Encarnação, que está bem conservada. Por enquanto, segundo a irmã Edvanir, o museu não está aberto à visitação, disponível apenas para a comunidade escolar, ex-alunos e pais. A expectativa é de que, assim que forem instaladas câmeras de segurança e o espaço se adequar às normas do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), mais pessoas possam vê-lo.

Na fase áurea, coral do Seminário São José se apresentou em festividade no pátio do colégio
Na fase áurea, coral do Seminário São José se apresentou em festividade no pátio do colégio

 

 

LINHA DO TEMPO

1849 – Em 3 de abril, chegam ao Brasil 12 irmãs francesas da congregação das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo

1850 – Em 10 de março, é fundado o Colégio Providência, o primeiro do estado para meninas, com funcionamento em regime de internato

1902 –Colégio se torna Escola Normal, equiparado à Escola Normal Modelo, hoje Instituto de Educação de Belo Horizonte

1930 – Ampliada a sede do colégio, que ocupa atualmente área de 12 mil metros quadrados

1946 – Começa a funcionar o curso ginasial (últimas quatro séries do ensino fundamental). No ano seguinte, é a vez do ensino médio

1972 – Providência passa a ter turmas mistas e deixa de ser internato. Nesse ano, é criado um pensionato que, tempos depois, dá origem ao Hotel Providência

1999 – Prédio do colégio é restaurado e ganha um centro de convenções para eventos e atividades culturais

2011 – Em outubro, a madre superiora geral Evelyne Franc, das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, com sede na França, visita o colégio


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