Serranópolis de Minas, Porteirinha e Janaúba – Por um bom tempo, Almecy Felipe de Souza, de 47 anos, natural de Serranópolis de Minas, no Norte do estado, se juntou a outras centenas de moradores da sua região para passar grande parte do ano – entre maio e agosto – longe de casa. O destino: a safra do café, ora no Sul de Minas, ora no Alto Paranaíba, ora no interior de São Paulo. Mas, da experiência de ex-trabalhador na lavoura cafeeira, Almecy cultivou um fruto muito mais precioso: tornou-se ele mesmo um produtor do grão – e ainda foi premiado pela qualidade do que colhe.


Durante 21 anos, a rotina foi bem outra. Mas, depois de mais de duas décadas se deslocando para o trabalho temporário nas ruas café em outras regiões, em 2017 o trabalhador resolveu pôr fim à migração. Após trabalhar por um curto período no setor de assistência social da Prefeitura de Serranópolis de Minas, decidiu aproveitar o que aprendeu no batente das lavouras distantes para se dedicar ao mesmo tipo de cultura, mas não mais como empregado.


Com dinheiro que reuniu colhendo nos cafezais longe de casa, comprou um terreno de 16 hectares na localidade de Curral de Pedras, a 42 quilômetros da sede do município de 4,39 mil habitantes. Ali plantou a semente do seu sonho. E ela brotou: virou proprietário da lavoura, percebendo que, embora esteja no semiárido, a localidade onde nasceu tem condições climáticas favoráveis ao cultivo do café, por estar na Cordilheira do Espinhaço.


“Eu acabei descobrindo que o ouro (o clima favorável para o plantio de café) estava perto de mim e eu não conseguia ver. Precisei trabalhar mais de 20 anos para outras pessoas, longe de casa, para descobrir que ser produtor de café era o melhor para mim”, afirma Almecy, lembrando que cerca de 60 outros pequenos agricultores do município hoje também estão investindo na cultura cafeeira.

 


E já tem prêmio?


O produtor conta que fez o primeiro plantio de café – de um hectare – há quatro anos. Logo após a primeira safra, na qual colheu 30 sacas (1.800 quilos), recebeu uma distinção em concurso pela qualidade do produto. Em outubro de 2025, o pequeno agricultor foi premiado na Semana Internacional do Café, em Belo Horizonte: a produção foi reconhecida pela excelência na categoria regional Chapada de Minas – Café natural.


“Ainda estou na fase inicial, mas já estou ampliando minha área do cafezal para dois hectares”, comemora o pequeno cafeicultor, lembrando que quase dobrou a quantidade de pés de café: de 4.500 para 8 mil. Nesse quantitativo estão incluídos 800 pés de uma área de experimento sobre a adaptação da planta ao clima da região, realizado pela Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado de Minas Gerais (Epamig).


Para irrigar a lavoura, Almecy faz captação de água no Rio Curral de Pedras, que passa no fundo da propriedade. “O plantio do café é uma cultura que exige muitos cuidados e muita técnica”, diz o pequeno produtor, ao destacar a importância da assistência técnica que recebe do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar Minas/Sistema Faemg), por meio do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG Café Mais Forte). Ele outros pequenos agricultores recebem a visita mensal da técnica do programa Jaciara Soares, que, entre outras coisas, orienta sobre o uso de adubo, correção de solo, combate a doenças e controle de pragas.


“O apoio da técnica foi um divisor de água para mim. Ela foi essencial. Se continuasse sozinho, sem acompanhamento profissional, eu não conseguiria a produção que alcancei”, avalia o cafeicultor, que é solteiro e mora na propriedade com sua mãe, Francisca Barbosa da Silva, de 77.


Almecy conta que vendeu sua produção por meio de um negociante de café da Bahia. Mas seu sonho é que seja criada uma cooperativa entre os produtores da região. “Onde tem cooperativa, tem outro patamar – um ajuda o outro e as coisas ficam mais fáceis. O produtor pode depositar o seu café para vender por meio da cooperativa, que também facilita a compra de adubos e defensivos”, destaca o agricultor, que troca experiências em grupo de WhatsApp com outros plantadores da região.

Mais trabalhoe renda local


A cafeicultura também se expande para outras partes do Norte de Minas. Uma delas é a microrregião do Alto Rio Pardo, com uma área plantada de 8 mil hectares, abrangendo os municípios de Taiobeiras, Rio Pardo de Minas, Berizal, Indaiabira, Ninheira e Águas Vermelhas. O plantio é feito por médios e grandes agricultores, que irrigam suas lavouras com água da Barragem Machado Mineiro, construída no Rio Pardo. Usam também água de outros barramentos construídos no mesmo manancial, com a técnica conhecida como soleira de nível.


As fazendas garantem emprego para trabalhadores da região que antes saíam para as colheitas nos cafezais do Sul de Minas e do Alto Paranaíba. O empresário Denerval Cruz (também prefeito de Taiobeiras) é responsável por uma delas, que conta com 130 hectares de café cultivados. Se antes as pessoas partiam do Alto Rio Pardo em busca de ocupação em lugares distantes, hoje sobram vagas de emprego na microrregião. “Estamos com dificuldade para plantar novas áreas, porque não existe mão de obra suficiente”, constata Denerval.


Novos horizontes


Outro município do Norte de Minas que teve queda populacional e que espera inverter o processo com o avanço da cafeicultura é Grão Mogol, também situado na Cordilheira do Espinhaço. Conforme a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-MG), o município já conta com 5 mil hectares da cultura em produção. Outros 3 mil estão em fase de implantação.


Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Grão Mogol, que era de 15.026 habitantes em 2010, diminuiu para 13.901 em 2022, uma queda de quase 7,5%. Mas o empresário Walter Abreu, que investe no plantio do café, afirma que a cidade já experimenta o retorno de pessoas que migraram em busca de emprego em outras regiões, devido às oportunidades agora oferecidas na terra natal.


“Podemos considerar que a falta de oportunidades de trabalho e desenvolvimento contribuiu para a migração interna, principalmente para Montes Claros e outras cidades maiores. Mas, hoje, está acontecendo um movimento inverso, trazendo grandes oportunidades de trabalho, renda e empreendedorismo, não apenas na lavoura de café, mas em toda a cadeia produtiva do setor e na economia como um todo”, afirma.

 

"Percebi que os agricultores não tinham onde comprar as mudas, que vinham de lugares distantes, além de chegarem estragadas", Marcos Antonio Batista Rocha, de 27 anos, ex-retirante que voltou para a comunidade de Olhos D’Água, na zona rural de Porteirinha, no Norte de Minas, e virou produtor de mudas

Luiz Ribeiro/EM/D.A Press


Exemplo para outros


Aos 18 anos, ele deixou a casa da família, na zona rural. Mudou-se de cidade e entrou para o Exército, mas acabou voltando para o lugar de origem. Hoje, a trajetória de Marcos Antonio Batista Rocha, de 27 anos, morador da comunidade de Olhos D'Água, na zona rural de Porteirinha, no Norte de Minas, virou exemplo que estimula a produção no campo.


Ele partiu para Montes Claros, cidade polo do Norte de Minas, a 130 quilômetros de distância, com a intenção de cursar educação física. Acabou entrando na carreira militar, em que permaneceu por quatro anos. “Mas deu vontade de voltar para minha terra, ficar perto da minha família, produzir alguma coisa”, explica.


Na casa da família, na zona rural, Marcos pretendia ter uma criação de galinhas caipiras. Porém, acabou montando um viveiro de mudas – principalmente de hortaliças, que abastecem pequenos produtores da região. “Percebi que os agricultores não tinham onde comprar as mudas, que vinham de lugares distantes, além de chegarem estragadas”, relata.


Hoje o ex-soldado do Exército é casado e pai de dois filhos – a esposa, Isabella, está grávida do terceiro. Satisfeito com o retorno, não pretende mais morar na área urbana. “Hoje, para quem tem um pedacinho de terra na roça, mesmo com pouca água, dá para investir e trabalhar em uma diversidade de coisas. As pessoas vão para a cidade em busca de melhorias, que nem sempre encontram”, comenta.


Ele destaca ainda a importância de retornar para a terra dos familiares. “É muito bom a gente estar pertinho do pai e da mãe. Aqui também é muito mais tranquilo para criar os filhos do que na cidade”, testemunha.

 

"A qualidade de vida aqui é muito melhor. A gente mora junto da família e temos um clima com ar puro, sem poluição", Douglas Martins da Silveira, de 36 anos, ex-migrante e hoje criador de aves em Janaúba, no Norte de Minas 

Luiz Ribeiro/EM/D.A Press


Ganhos e gastos


“O mundo lá fora é ilusão. Muita gente sai de casa achando que vai ganhar muito dinheiro. A pessoa pode até ganhar alguma coisa, mas tem muitos gastos.” A experiência de ex-migrante de Douglas Martins da Silveira, de 36 anos, morador de Janaúba, no Norte de Minas, reforça a percepção do militar que virou produtor de hortaliças.


Em 2012, aos 23 anos, Douglas deixou a terra natal à procura de ocupação e renda. Correu trecho. Encarou o corte de cana em Santa Albertina (SP) e a colheita de café no Sul de Minas. Também pegou no pesado como chapa de caminhão em Osasco (SP). Depois de virar churrasqueiro em restaurante de Uberlândia (Triângulo Mineiro), decidiu que era hora de voltar para a casa da família, em 2018.


Desde então, trabalha por conta própria: tem uma criação de frango caipira em um pequeno terreno na comunidade de Jataí, a quatro quilômetros da sede de Janaúba. E não se arrepende. “A qualidade de vida aqui é muito melhor. A gente mora junto da família e temos um clima com ar puro, sem poluição”, afirma Douglas, casado e pai de três filhos.

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O ex-retirante também destaca que um dos fatores que viabilizaram o sustento na volta para casa foi o acesso ao crédito, via financiamento do programa Agroamigo, do Banco do Nordeste. “Comecei com R$ 500 e, por último, investi R$ 10 mil. O empréstimo foi o que permitiu empreender, pois sem dinheiro a gente não faz nada”, observa Douglas, acrescentando que produz e vende de 100 a 150 frangos por mês. “Mas quero expandir o negócio”, projeta.

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