Jeremias dos Santos no canavial em sua propriedade: sofrida rotina do corte de cana em lavouras distantes frutificou em produção no Jequitinhonha crédito: Luiz Ribeiro/EM/D.A Press
Araçuaí – “A gente trabalhava de sol a sol. Pegava no batente às 7 da manhã e ia até as 5 horas da tarde e só tinha o intervalo de uma hora de almoço. Quando chegava a noite, eu deitava e, de tão cansado, não conseguia nem mexer na cama.” O relato é de Jeremias dos Santos, de 43 anos, ao recordar o sofrimento do tempo em que migrava para a colheita da cana no interior de São Paulo e outras regiões do país. Mas, de cortador, Jeremias se tornou plantador de cana, deixou o sofrimento para trás e hoje leva uma vida confortável no lugar de origem, em terreno de sua propriedade na localidade de Tesouras, na zona rural de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha.
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Assim como o Norte de Minas, o Jequitinhonha historicamente exportou mão de obra para outras regiões do país, com a saída de levas de trabalhadores para lugares distantes, em busca de sobrevivência, de emprego e renda em diferentes tipos de “trampo”, seja no serviço doméstico, em lavouras diversas, na colheita de café ou no corte de cana. Mas o caminho contrário trilhado por Jeremias vem se tornando mais frequente: a trajetória de moradores do semiárido que partiram para trabalhar longe de casa e, com o que ganharam, voltaram para a terra natal, onde se fixaram novamente e retomaram a atividade no campo, levando uma vida mais digna, junto de suas famílias.
Para isso, contam com novos instrumentos que garantem a sustentabilidade e a convivência com a seca, tais como pequenas barragens de contenção de água da chuva, adoção de novas tecnologias e acesso ao microcrédito. São esses fatores que favoreceram o regresso à terra natal e a produção do ex-retirante e agricultor familiar Jeremias dos Santos, que relata seu roteiro no início deste texto. Hoje ele planta e colhe aproveitando a água da Barragem do Calhauzinho, que ajudou a melhorar a vida dele e de outros pequenos produtores da região.
Partidas e “viúvas”
Mas nem sempre foi assim. O agricultor conta que deixou o lugar de origem pela primeira vez aos 19 anos, em 2002, para trabalhar no corte de cana em usinas de açúcar e álcool no interior de São Paulo, no Rio de Janeiro e no Triângulo Mineiro. “Eu sempre ficava fora de 10 meses a um ano. Depois voltava para casa”, diz Jeremias, descrevendo uma situação comum a milhares de homens do Jequitinhonha, que, ao longo de décadas se ausentaram do lar na maior parte do ano, deixando para trás filhos e mulheres, as popularmente chamadas de “viúvas de marido vivo”.
“Era muito sofrido, um serviço muito pesado. Teve colega que foi até parar no hospital para tomar soro, desidratado. Mas, a gente encarava, porque precisava juntar um dinheirinho e voltar para casa no fim do ano”, recorda-se Jeremias
Ele relata que, depois de completar cinco anos seguidos na lida da cana, quando já era casado, decidiu não sair mais do lugar onde nasceu. “Eu fui criado praticamente trabalhando nas terras dos outros. Fui trabalhar fora, mas, com o dinheiro que ganhei, graças a Deus, pude comprar um terreno aqui. Foi um sonho realizado. Desde então, não precisei sair mais para cortar cana. Passei a produzir e trabalhar para mim mesmo”, descreve o ex-retirante.
Na sua propriedade de 17 hectares, além de cana para produção de rapadura e cachaça, Jeremias planta milho, feijão e mandioca. “A gente também cria galinhas e umas vaquinhas para tirar o leite. Tudo o que a gente produz é na base da sustentabilidade da agricultura familiar”, ressalta o pequeno produtor.
Ele ressalta que, para tocar a produção, contou como crédito do Banco do Nordeste, por meio do Programa de Financiamento da Agricultura Familiar (Pronaf). “Primeiro, peguei R$ 2,5 mil. Mas, no ano passado, recebemos um financiamento de R$ 20 mil”, contabiliza.
Alívio para elas
O retorno para casa em definitivo de ex-cortadores de cana como Jeremias dos Santos também representa alívio para as companheiras deles, que deixam para trás o estigma de ser “viúvas de maridos vivos”. A expressão pejorativa ao longo de décadas foi usada para se referir àquelas que eram deixadas sozinhas no Vale do Jequitinhonha na maior parte do ano, enquanto companheiros buscavam sustento em lavouras distantes. Adilane Luiz Ramalho, de 34, mulher de Jeremias, afirma que, assim que casou, teve que lidar com o sacrifício do companheiro. “Era muito difícil. A gente ficava só, com a esperança de que o marido conseguisse uns trocadinhos e voltasse logo”, conta. “Hoje nossa vida melhorou demais”, declara ela, que ajuda nas atividades na roça, além dos afazeres da casa e dos cuidados com os três filhos do casal. Mirailde Dias Luiz dos Santos, de 44, conta que, durante a primeira década do seu casamento, o marido, José Natalino dos Santos, permanecia até 8 meses por ano no corte de cana. “Era ruim, mas não tinha serviço na região. Ele tinha que sair para conseguir trabalho e sustento”, diz a mulher, que celebra a nova rotina de José Natalino. “A vida melhorou 100%”, comemora a mãe da menina Yasmin, de 12.
José Natalino dos Santos mostra plantação no terreno que cultiva em sua cidade, Araçuaí, depois de sair de casa por anos para trabalhar em São Paulo: "Hoje, tenho vida mais digna" Luiz Ribeiro/EM/D.A Press
Água boa para irrigar sonhos
O pequeno agricultor também destaca a importância do acesso à água, viabilizada pela Barragem de Calhauzinho, com a qual conseguiu irrigar seu sonho. “Antes, era muito difícil. Aqui chove pouco. Agora, podemos contar com a tecnologia da irrigação, com a água da barragem”, ressalta. “A única dificuldade que a gente precisa superar é a falta de mão de obra”, constata.
Mas, como fruto do seu trabalho e da estrutura de fomento, hoje o agricultor familiar comemora a melhoria de vida. Atualmente, mora em uma casa confortável, com geladeira, televisão e outros eletrodomésticos. Mas considera sua grande conquista poder produzir e morar no lugar de origem, junto da a mulher, Adilane, e dos três filhos: Josué, de 18; Adriele, de 13; e Joesley, de 8. “Eu só tenho a agradecer muito a Deus por morar junto da minha família e nunca mais precisar sair de casa. Estou muito feliz por isso.”
Uma outra vida
“Hoje, tenho uma vida mais digna.” A afirmação que resume um enredo parecido com o do conterrâneo é de José Natalino dos Santos, de 45 anos, da localidade de Barra das Tesouras, também na zona rural de Araçuaí, ao comparar sua condição atual de agricultor no mesmo Jequitinhonha ao período em que, anualmente, deixava a terra natal para o sofrido corte de cana em lugares distantes.
Durante 16 anos, entre 1995 e 2011, Natalino enfrentou a árdua jornada, trabalhando de sol a sol em áreas de usina de açúcar e etanol no interior de São Paulo e no Triângulo Mineiro. “Na primeira vez que saí para o corte de cana, eu tinha 15 anos”, lembra-se. “A gente acordava e tinha que fazer comida. Pegava no serviço muito cedo, 5, 6 da manhã, e trabalhava até as 4 da tarde. Era muito pesado, bruto mesmo”, descreve.
Natalino conta que, em 2011, após a morte do pai, José Osvaldo dos Santos, decidiu interromper as saídas anuais para o corte de cana e investir em culturas de subsistência no terreno da família. “Primeiro, plantei em uma pequena área sementes de quiabo, abóbora, maxixe e mudas de banana. Logo depois, iniciei uma lavoura de mandioca em uma área de menos de meio hectare”, afirma.
O tempo passou e o cultivo foi se ampliando e se diversificando. “Hoje, a gente planta de tudo um pouquinho. Tem mandioca, um pouquinho de cana, umas 'covas' de banana. Planto também sementes de abóbora”, informa.
Assim como Jeremias, Natalino usa a “água encanada”, captada na Barragem do Calhauzinho, para manter a lavoura no período em que falta chuva – ou seja, na maior parte do ano na região. Também teve um “empurrãozinho” do microcrédito. “O primeiro valor que peguei foi de R$ 2,5 mil e o último foi de R$ 10 mil. A gente sempre segue plantando e pagando”, disse.
Ver a família crescer
Hoje Natalino mora com a mulher, Mirailde, de 44; e a filha do casal, Yasmin, de 12. Com o dinheiro que brota da produção própria, o ex-retirante não somente ganhou vida mais digna, como descreve: também conseguiu ampliar a área de produção. Ele conta que comprou as partes de três dos nove irmãos no terreno deixado como herança pelo pai. Com isso, hoje conta com uma propriedade de 15 hectares.
O agricultor salienta que antigamente, as pessoas precisavam sair de Araçuaí para buscar melhoria de vida em lavouras distantes, porque não encontravam serviço no Jequitinhonha. Hoje, constata, é o contrário: está faltando mão de obra na zona rural da região.
O ex-retirante assegura que está muito satisfeito por morar e produzir junto da família, em sua terra natal. “É muito bom a gente poder trabalhar e ver a família crescer”, diz. Com o resultado, recomenda a outras pessoas que deixaram a zona rural em busca de renda em lugares distantes que sigam o exemplo e regressem às suas origens.
“Para quem tem algum pedaço de terra – até mesmo quem não tem –, eu recomendo voltar. Hoje em dia, graças a Deus, nossa região tem bastante serviço e todo mundo que tem um pedacinho de chão pode plantar e colher, pois também tem a água da Barragem do Calhauzinho”, diz o ex-cortador de cana.
Da cana ao peixe
O que Jeremias e Natalino descrevem com palavras simples é fruto da melhoria da atividade agrícola, com novos conhecimentos e o surgimento de arranjos produtivos locais, o que criou oportunidades de renda no Vale do Jequitinhonha e possibilitou a volta de ex-cortadores de cana para o lugar de origem. A opinião é do presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Araçuaí, Ernani Martins Gomes.
“O Vale do Jequitinhonha, ao longo da história, ficou marcado como uma região de poucas oportunidades e pouco investimento do poder público. Isso fez com que a maioria dos homens da região fosse buscar fonte de rendimento fora, principalmente na região canavieira de São Paulo”, diz Ernani Gomes. “Mas, entre 2000 e 2020 essa realidade mudou: as pessoas começaram a permanecer aqui.”
“Apesar de ser uma região de desafios, o Vale do Jequitinhonha oferece muitas oportunidades. Muitas pessoas que saíam para o corte de cana, hoje estão trabalhando na cadeia produtiva da cana na própria região, com a produção de cachaça artesanal de alambique, de rapadura ou doce”, afirma o líder do Sindicato dos Produtores Rurais.
Ernani Gomes recorda que, até o começo dos anos 2000, somente da região de Araçuaí já chegaram a partir 8 mil trabalhadores, em cerca de 200 ônibus por ano, para o corte de cana. Um número que, atualmente, diminuiu bastante – é preciso considerar também que usinas de São Paulo e outros estados investiram em mecanização, substituindo em muito a mão de obra braçal.
O líder ruralista ressalta ainda que o Vale do Jequitinhonha, sobretudo por conta da construção de barragens, como a do Calhauzinho, ampliou e diversificou a atividade agrícola. “Hoje, a região conta com várias cadeias produtivas, com o destaque para o leite e derivados. Na área de fruticultura, Araçuaí está se tornando um dos maiores produtores de banana do estado. E também contamos com a produção de tilápias.”