Do alto da Avenida Afonso Pena, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, dezenas de carros começaram a se deslocar lentamente rumo a diferentes pontos da cidade na manhã desta quinta-feira (12/3). A mobilização fez parte de uma carreata organizada por instituições públicas, movimentos sociais e organizações civis após a repercussão nacional do caso de estupro de uma menina de 12 anos em Indianópolis.

Enquanto o cortejo avançava, mulheres que passavam pelas ruas acenavam em apoio à mobilização em defesa da proteção de mulheres e meninas.

A carreata foi organizada pela Rede de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres de Minas Gerais (RedeMG) e reuniu representantes do sistema de justiça, organizações da sociedade civil e coletivos feministas. 

A concentração ocorreu em frente ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). De lá, os participantes seguiram em direção a outros pontos considerados estratégicos da rede de proteção, como a Prefeitura de Belo Horizonte, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher e o Fórum Lafayette. O encerramento foi realizado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, onde as entidades entregaram uma carta unificada de reivindicações elaborada coletivamente.

Violência contra mulheres

A mobilização ocorre em um contexto de alerta sobre a violência de gênero. Segundo o Relatório de Feminicídio 2025, divulgado pela ONU Mulheres e pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, cerca de 83 mil mulheres e meninas foram mortas intencionalmente no mundo no último ano. Aproximadamente 60% dessas mortes, cerca de 50 mil foram cometidas por parceiros íntimos ou familiares, o que representa, em média, uma vítima a cada dez minutos.

No Brasil, o cenário também preocupa. Em Minas Gerais, o estado registrou 146 feminicídios em 2025, ficando em segundo lugar no ranking nacional, atrás apenas de São Paulo, com 268 casos. O número representa aumento de 9,77% em relação a 2024. Minas também contabilizou 143 tentativas de feminicídio no período, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Mobilização coletiva

A cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil, Eliana Tameirão, afirmou que a participação do movimento na carreata já se tornou uma tradição nas mobilizações em defesa dos direitos das mulheres. Segundo ela, o grupo participa do ato há vários anos e a mobilização busca unir diferentes organizações da sociedade civil em torno da defesa da causa feminina.“Essa já é uma tradição. O Grupo Mulheres do Brasil participa anualmente e estamos agora na sétima carreata”, disse.

Para Eliana, a união entre movimentos sociais fortalece a capacidade de pressionar por mudanças e ampliar a conscientização sobre a violência de gênero. "A ideia é unir todos os movimentos em prol da causa das mulheres. Quando a sociedade civil se mobiliza de forma unida, conseguimos transformar o país e a nossa comunidade.”

Além da mobilização social, representantes de instituições destacaram a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à proteção das mulheres. A presidente da Comissão de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher da OAB,  Isabel Araújo Rodrigues, afirmou que o ato também busca chamar atenção para a necessidade de ampliar investimentos nessa área.

Segundo ela, uma das principais reivindicações da carta entregue à Assembleia Legislativa é o aumento do orçamento destinado às políticas públicas para mulheres no estado.

“Hoje o orçamento para políticas para mulheres em Minas Gerais gira em torno de R$ 7 milhões. Para um estado desse tamanho, é um valor muito pequeno. Isso não permite aprimorar medidas fundamentais, como políticas de abrigamento e monitoramento eletrônico de agressores e de proteção às vítimas.”

“Meu silêncio seria vitória para o agressor”

Entre as participantes da carreata estava a advogada Verônica Suriani, sobrevivente de uma tentativa de feminicídio ocorrida em 2022 em Belo Horizonte. Na ocasião, ela foi atacada pelo ex-namorado quando saía do prédio onde mora com os dois filhos e sofreu diversos golpes de faca, mas conseguiu sobreviver após ser socorrida.

Segundo Verônica, participar de mobilizações públicas também faz parte do processo de reconstrução após a violência. “Revisitar essas imagens não é fácil. É um processo que estou enfrentando com muita terapia e com o apoio de uma rede que se formou ao meu redor”, afirmou.

Atualmente integrante da Rede de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres de Minas Gerais e da Indômitas Coletiva, ela disse que permanecer ativa nos movimentos representa uma forma de resistência. “O principal motivo de fazer parte disso tudo é não dar vitória ao agressor. Ele não tirou a minha vida nem a minha vontade de resistir. Meu silêncio seria vitória para o agressor.”

Histórias como a de Verônica se somaram a outros relatos de mulheres que transformaram experiências pessoais em atuação coletiva durante a mobilização. Uma delas é a ativista Jade Muniz, fundadora do coletivo Clã das Lobas.

Natural do Maranhão, ela trabalhou por mais de 20 anos como profissional do sexo e criou o coletivo em Belo Horizonte para apoiar mulheres em situação de vulnerabilidade, especialmente trabalhadoras sexuais. “Eu entrei no ativismo depois que uma amiga foi assassinada. Pensei que, se eu não me mexesse, a morte dela seria banalizada”, afirmou.

Segundo Jade, mulheres que atuam na prostituição também precisam ser incluídas nas políticas públicas de proteção. “Eu sou trabalhadora sexual, mas também sou filha, mãe e tia. Somos mulheres como qualquer outra e também precisamos de proteção.”

A mobilização ocorreu em meio à repercussão de um caso que reacendeu o debate sobre a aplicação das leis de proteção a crianças e adolescentes no país. O episódio aconteceu em Indianópolis (MG), no Triângulo, e envolve o crime de estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos. O homem de 35 anos acusado do abuso e a mãe da adolescente foram condenados em primeira instância a nove anos e quatro meses de prisão.

Segundo as investigações, a menina morava com o suspeito com autorização da mãe e havia deixado de frequentar a escola. O homem foi preso em flagrante em abril de 2024 e admitiu, na delegacia, manter relações sexuais com a vítima. A mãe afirmou que havia permitido que o homem “namorasse” a filha.

Posteriormente, o desembargador  Magid Nauef Láuar do Tribunal de Justiça de Minas Gerais chegou a absolver os réus sob o argumento de que existiria um vínculo afetivo entre o homem e a adolescente. A decisão gerou forte reação pública e levou o Ministério Público de Minas Gerais a recorrer.

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Em nova análise, a 9ª Câmara Criminal do tribunal restabeleceu, por unanimidade, a condenação de primeira instância. Em meio à repercussão do caso, o magistrado responsável pela decisão inicial foi afastado pelo Conselho Nacional de Justiça e passou a ser investigado.

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