LUTA PELA PROTEÇÃO ÀS MULHERES

Cruzes lembram vítimas de feminicídio em ato na Praça da Liberdade

Instalação com 159 cruzes marca o 8 de março em BH e denuncia avanço da violência contra mulheres em Minas

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Quem passou pela Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, neste domingo (8/3), encontrou uma intervenção que transformou um dos cartões-postais da capital mineira em um convite à reflexão sobre a violência contra as mulheres. Espalhadas próximo ao coreto, 159 cruzes exibiam nomes femininos, representando vítimas de feminicídios registrados em Minas Gerais. Nesta mesma data em que se celebra o Dia da Mulher, uma mãe foi morta a facadas dentro de casa, diante dos três filhos ainda crianças.

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A ação na Praça da Liberdade foi organizada pela Casa das Marias, rede de acolhimento e empoderamento feminino que atua no apoio a mulheres vítimas de violência. A instalação foi montada justamente no Dia Internacional da Mulher, data historicamente associada à luta por direitos e igualdade de gênero, até mesmo como forma de chamar a atenção para a escalada da violência de gênero no estado, também como forma de chamar atenção para a escalada da violência de gênero no estado.

As cruzes estavam presas por fios e distribuídas entre bancos e árvores, próximos ao coreto. Cada uma trazia um nome feminino escrito em branco sobre o papel preto. Na base de uma das árvores, um cartaz fixado no tronco sintetizava a mensagem da intervenção: “Para celebrar nosso dia, precisamos estar vivas”. Outros cartazes foram espalhados pela praça com frases como: “Não são monstros e nem psicopatas, são homens e estão nos matando” e “Vivemos uma epidemia de feminicídios”.

“Hoje a gente trouxe 159 nomes em formato de cruzes, que representam mulheres vítimas de feminicídio em Minas Gerais só em 2025 e em 2026 até agora. A gente está vivendo uma epidemia de feminicídio, uma verdadeira escalada com uma piora dos casos a cada dia”, afirmou Laura Costa, diretora de Relações Institucionais da Casa das Marias.

A proposta era evidenciar que, por trás das estatísticas, existem vidas interrompidas e que nenhuma mulher está imune a esse risco. “A gente tentou não expor as vítimas reais, mas colocou nomes de mulheres comuns. Justamente para dizer que as vítimas podem ser qualquer uma de nós a qualquer momento”, explicou.

A intervenção ganhou ainda mais peso simbólico por causa de um caso registrado poucas horas antes do ato. Na madrugada deste domingo, uma mulher de 30 anos foi assassinada dentro da própria casa em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A vítima, identificada como Mariana Camila de Oliveira Santos, foi morta a facadas no Bairro Baronesa. O principal suspeito do crime é o companheiro dela, de 33 anos, que fugiu após o ataque e ainda é procurado pela polícia.

Quando os policiais chegaram ao imóvel, encontraram a mulher no quarto do casal, desacordada e com diversos ferimentos pelo corpo, incluindo um corte profundo no pescoço. Os três filhos da vítima, de 10, 8 e 5 anos, estavam na residência no momento do crime. Segundo a Polícia Militar, o mais velho presenciou o ataque, ligou para o 190 e correu até a casa de um vizinho em busca de ajuda.

Para Laura Costa, a coincidência entre o crime e o ato reforça a urgência do debate. “A gente estava aqui hoje de manhã e recebeu a notícia de mais um caso. Uma mulher que foi vítima de feminicídio em Santa Luzia, morta com mais de 30 facadas. Então é constante, é diário, inclusive no Dia das Mulheres”, afirmou.

Ela ressalta que a data, tradicionalmente associada a homenagens e celebrações, também precisa ser encarada como um momento de mobilização política. “Eu costumo dizer que, para poder comemorar o 8 de março, as mulheres precisam primeiro estar vivas. É uma data de luta, de reivindicação de direitos. Muito mais do que flores, a gente quer direito, quer segurança. Quer poder terminar um relacionamento em paz e voltar para casa sem achar que vai morrer”, destacou.

Escalada de violência

Os números ajudam a dimensionar o problema. Em 2025, Minas Gerais registrou 139 casos de feminicídio, tornando-se o segundo estado brasileiro com mais ocorrências desse tipo de crime. No mesmo período, o país contabilizou 1.568 vítimas, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O levantamento mostra ainda um padrão recorrente: a maioria das vítimas são mulheres negras, assassinadas dentro de casa e, na maior parte dos casos, pelo próprio parceiro ou ex-companheiro.

Outro dado que chama atenção é o fato de que muitas vítimas já haviam buscado ajuda antes de serem mortas. Uma em cada oito mulheres assassinadas no país possuía medida protetiva de urgência em vigor no momento do crime. O estudo analisou 1.127 feminicídios registrados em 16 estados e identificou que, em 148 casos, a vítima já havia acionado o sistema de Justiça.

A violência, no entanto, começa muito antes do desfecho fatal. Somente em janeiro deste ano, quase 14 mil mulheres foram vítimas de algum tipo de violência doméstica em Minas Gerais, segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG). O número equivale a cerca de 19 ocorrências registradas por hora.

Nos últimos cinco anos, os casos de feminicídio cresceram mais de 17% no estado. Dados da Sejusp-MG apontam que, em 2025, Minas registrou 170 feminicídios consumados e 209 tentados. No ano anterior, foram 248 assassinatos e 169 tentativas. Já os registros gerais de violência doméstica e familiar somaram 157.837 ocorrências em 2025, contra 154.689 em 2024.

Quando se observa uma série histórica mais longa, o crescimento também aparece. Entre 2014 e 2025, os registros de violência doméstica e familiar aumentaram cerca de 20% em Minas Gerais. Em Belo Horizonte, o cenário segue a mesma tendência. Em 2025, foram contabilizados 18 feminicídios consumados e 31 tentados. No ano anterior, haviam sido 13 assassinatos e 35 tentativas. Já os registros de violência doméstica chegaram a 18.298 ocorrências em 2025.

Acolhimento às vítimas

Diante desse contexto, a Casa das Marias aposta em estratégias que vão além do atendimento emergencial às vítimas. A organização, criada em 2021, trabalha com acolhimento psicológico, formação profissional e ações de conscientização.

“A Casa das Marias é uma rede de empoderamento feminino que acolhe mulheres vítimas de violência e trabalha muito com prevenção, que é o que vem antes”, explicou Laura.

Entre as iniciativas estão cursos profissionalizantes voltados à independência financeira das mulheres. Um deles é o de massoterapia, que terá uma nova turma formada no próximo dia 21 de março, no Bairro Serra, Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

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“A independência financeira é fundamental para que muitas mulheres consigam sair de ciclos de violência. A gente oferece cursos para que elas tenham acesso à renda, além de atendimento psicológico e rodas de conversa pela cidade inteira”, disse.

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