Minas Gerais começa a vacinar contra a chikungunya, arbovirose transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, nesta segunda-feira (23/2). As primeiras cidades a receber o imunizante são Sabará (MG), na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e Congonhas, na Região Central do estado. A partir de quarta-feira (25/2), Santa Luzia e Sete Lagoas, também na Grande BH, receberão as doses da vacina.
O imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan, em parceria com a farmacêutica franco-austríaca Valneva, pode ser aplicado em pessoas de 18 a 59 anos que sejam moradoras das cidades em questão. As pessoas também devem atender os seguintes critérios: não ser gestante e/ou lactante; não possuir imunodeficiências ou imunossupressão; não estar fazendo quimioterapia ou radioterapia, nem ter feito transplante; não possuir comorbidades mal controladas, ou mais de uma comorbidade.
Até sexta-feira (20/2), 1.535 casos prováveis de chikungunya foram contabilizados neste ano, sendo 1.001 confirmados. Apesar de não haver mortes em decorrência da doença, a situação acende um alerta. Segundo dados do Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde, entre 2024 e 2025 Sabará contabilizou 590 casos de chikungunya, enquanto Congonhas teve 73.
Além dos municípios mineiros, cidades de Sergipe e Ceará, no Nordeste, também receberão o imunizante, que começou a ser aplicado em São Paulo no início de fevereiro. Os municípios foram selecionados a partir de um estudo epidemiológico, que utilizou um modelo matemático para predizer as regiões com maior risco de apresentar surtos de chikungunya entre 2025 e 2027.
Durante a aplicação da vacinação em Sabará, na Grande BH, o secretário de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), Fábio Baccheretti, disse que o cenário não é preocupante no estado, mas é importante que a população se vacine para prevenir uma epidemia.
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"Hoje [o quadro da doença] não é preocupante, se concentra muito no Triângulo Mineiro. Ainda estamos na época de aumento das arboviroses", disse o chefe da pasta.
Iniciativa bem-avaliada
Até 10h desta segunda-feira, 19 pessoas foram vacinadas na Unidade Básica de Saúde Campo Santo Antônio. Dentre elas, funcionários públicos e até pessoas que estavam no local para consultas. É o caso do auxiliar de produção Mário Duarte Arruda, que acompanhava a esposa em uma consulta quando foi informado sobre a vacinação.
"Estou contente, vim ao médico com a minha esposa, mas ela não pode tomar porque tem umas comorbidades. A médica avisou que eu poderia, então aproveitei", conta Mário, que viu o sogro, de 92 anos, sofrendo com os sintomas da doença no ano passado.
O primeiro vacinado contra a chikungunya foi o publicitário Luiz Felipe Azeredo, que ficou feliz por ter tomado o imunizante, já que tem familiares que contraíram a doença no passado e sentem dores até hoje.
"A gente está tendo a oportunidade de ser a primeira cidade a ser contemplada. Quem não tomou ou tem algum preconceito com a vacina, que venha se vacinar. A sensação é de dever cumprido", contou.
A funcionária pública Thaís Stéphane, também avalia positivamente a vacinação pioneira. Ela não esperava receber o imunizante tão cedo e conta que enfrenta o medo de agulha para tomar qualquer vacina, pois reconhece a importância.
"Não estava na expectativa, pois morro de medo de agulha. Mas acho muito importante tomar para prevenir da doença. Espero que todos possam se vacinar", disse.
Como funciona a vacina?
A vacina do Butantan contra a chikungunya é a primeira do mundo a ser disponibilizada para prevenir a doença. Aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em abril de 2025, ela teve sua segurança e capacidade de gerar anticorpos comprovados em estudos clínicos feitos nos Estados Unidos e publicados na revista científica The Lancet. Dos quatro mil voluntários adultos que participaram da pesquisa, 98,9% produziram anticorpos neutralizantes. Além do Brasil, o imunizante também foi aprovado para uso no Canadá, Reino Unido e Europa.
Por ser desenvolvido com tecnologia de vírus atenuado, o imunizante não é indicado para pessoas imunodeficientes ou imunossuprimidas, pessoas que tenham mais de uma condição médica crônica ou mal controlada (comorbidades) e mulheres grávidas ou que estejam amamentando. Entre as principais reações adversas que podem ocorrer após a aplicação da vacina estão dor de cabeça, enjoo, cansaço, dor muscular, dor nas articulações, febre e reações no local da injeção, como sensibilidade, dor, vermelhidão, endurecimento, inchaço.
De acordo com o secretário de saúde, o objetivo é vacinar toda a população dessas cidades, mas as 28.800 doses recebidas são suficientes para imobilizar metade dessas pessoas. Dessas, 19.200 foram destinadas à Sabará e 9.600 para Congonhas. Na medida em que as doses forem aplicadas, os municípios receberão novas remessas.
"Essa vacina fora do país é muito cara, então estamos fazendo a incorporação com uma nova tecnologia para que ela caiba no modelo brasileiro, que é o Sistema Universal de Saúde (SUS) para todo brasileiro. Então é essa a grande vantagem que o governo faz, de baratear essa vacina e deixar ela acessível para a população", explicou Bacheretti.
Quais são os sintomas da doença?
- Febre
- Dores musculares
- Dor de cabeça
- Dores intensas nas articulações
- Manchas vermelhas pelo corpo
- Dor atrás dos olhos
- Dor nas costas
- Conjuntivite não-purulenta
- Náuseas e vômitos
- Edema nas articulações (geralmente as mesmas afetadas pela dor intensa)
- Prurido (coceira) na pele, que pode ser generalizada, ou localizada apenas nas palmas das mãos e plantas dos pés
- Diarreia e/ou dor abdominal (manifestações do trato gastrointestinal são mais presentes em crianças)
- Dor de garganta
- Calafrios
Como é feito o tratamento da chikungunya?
O tratamento da doença é feito de acordo com os sintomas. Até o momento, não há tratamento antiviral específico para a doença e, por isso, a terapia utilizada é analgesia e suporte. De acordo com o Ministério da Saúde, é necessário estimular a hidratação oral dos pacientes e a escolha dos medicamentos devem ser realizadas depois de uma avaliação do quadro clínico do paciente.
Em casos de comprometimento musculoesquelético importante, e sob avaliação médica, pode ser recomendada a fisioterapia. A doença é conhecida por causar fortes dores nas articulações, se tornando crônica e com duração de meses a anos em algumas pessoas e, consequentemente, dificultar a realização das tarefas do dia a dia. A vacinação em massa pode ajudar a impedir o quadro grave da chikungunya, como ocorreu a arquiteta Jéssica Bretas.
A moradora de Santa Bárbara (MG) contraiu chikungunya em abril de 2023 e afirma que as dores marcaram sua rotina por meses. O primeiro sintoma foi uma forte dor no peito, seguida por manchas vermelhas pelo corpo. No dia seguinte, vieram dores intensas nas articulações e na cabeça.
Ela ficou cerca de duas semanas acamada. Só se levantava para levar a filha à escola. “Meu tornozelo e meu joelho doíam muito. Para descer a escada de casa era uma tristeza”, relata.
Após a fase mais aguda, tentou retomar as atividades domésticas, mas as dores voltavam no dia seguinte. O ciclo de melhora e recaída durou cerca de um mês. A principal sequela foi no tornozelo: por quase um ano, sentiu dor ao pisar. Três anos depois, o incômodo ainda aparece ocasionalmente.
Cenário de outras doenças em Minas
Em relação a outras doenças, o secretário de saúde afirmou que a situação está normalizada. Segundo Baccheretti, com a aplicação da vacina Qdenga, é previsto que, daqui cerca de três anos, boa parte da população já esteja vacinada. Dessa forma, haverá queda na quantidade de casos da doença, assim como melhora nos casos de dengue grave.
"A vacina contra a dengue é até 59 anos. Há uma vacina nova para pessoas a partir dos 60 anos, porque o público mais vulnerável é o idoso. A vacinação impede a transmissão", disse.
Já em relação à mpox, cujos casos começam a aumentar no Brasil, o chefe da saúde afirmou que não há necessidade de preocupação, pois a doença é de contato físico e, por isso, não tem transmissão de larga escala, como as doenças respiratórias. Neste ano, 48 pessoas foram contaminadas por mpox, sendo três em Minas Gerais.
"Sintomas dessas doenças vinculadas à transmissão de contato, [deve-se] buscar o posto de saúde, porque no tratamento imediato o risco de óbito é praticamente zero. Os casos que tivemos em Minas Gerais estão todos bem, mas nada fora da nossa curva", reforça.
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No entanto, Baccheretti chama a atenção para as doenças sazonais que começam nesta época do ano, como as respiratórias. O secretário citou a bronquiolite, que tem uma nova vacina disponível no país, mas reforça que ainda não deu tempo de vacinar todas as gestantes no estado e, por isso, ainda pode haver casos da doença.
