Vestindo uma camisa com a frase “Justiça para as 272 mortes da barragem da Vale em Brumadinho”, Flávia Coelho que perdeu o pai, Olavo Henrique Coelho, de 63 anos, funcionário mais antigo da Vale em Brumadinho, com 40 anos de serviços prestados, além de dois primos, Edymayra Samara e Anízio Coelho, vive entre o luto e a luta. Ela integra a Associação de Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Mina Córrego do Feijão – Brumadinho (Avabrum), participando ativamente das decisões relacionadas à tragédia, que completou sete anos em 25 de janeiro.


“Com sete anos de caminhada junto à Avabrum, buscamos justiça. Essa sensação de impunidade faz o nosso luto aumentar, assim como a dor e o adoecimento psicológico. Estamos trabalhando com base em informações reais de que o que ocorreu aqui foi um abuso contra a vida humana e contra a preservação do meio ambiente, fatos que já foram entregues à Justiça”, afirma.


O processo penal segue em andamento, sem que, até o momento, ninguém tenha sido punido. Em 12 de setembro de 2019, Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Barragem de Brumadinho instaurada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) aprovou, por unanimidade, seu relatório final. O documento responsabiliza a mineradora e pede o indiciamento de 13 pessoas.


Segundo a CPI, após seis meses de investigação, “ficou claro que a Vale sabia dos riscos de rompimento da estrutura e, ainda assim, deixou de adotar as medidas necessárias para evitar uma das maiores tragédias da história recente do país”. O relatório aponta ainda que a empresa tinha conhecimento de que numa eventual ruptura da barragem a evacuação das instalações administrativas e o refeitório da Mina Córrego do Feijão teriam que ser evacuados em, no máximo, um minuto.

SOBRECARGA


Para a presidente da Avabrum, Nayara Cristina Dias, viúva de Everton Lopes Ferreira, morto aos 32 anos e pai de uma menina de 11, não houve tempo para o luto. “Havia outras pessoas para cuidar”, explica, ao mencionar a irmã, que também perdeu o marido. “Ela já enfrentava uma depressão severa e, depois dessa perda, meu medo aumentou ainda mais. Como eu poderia pensar em mim? Não tive tempo para o luto”, relembra.


E continua: “Entrei na luta com a Avabrum porque acredito que meu marido não esperaria menos de mim. Nunca fui de ficar quieta, de ‘engolir o abacaxi’ facilmente. Então passei a viver isso todos os dias. Essa transformação do luto em luta precisou acontecer. Acho que o luto me levou à luta.”


Segundo Nayara, a Vale nunca forneceu informações diretas aos familiares. “Nunca recebemos uma ligação. Nenhum diretor me procurou para dizer: ‘Seu marido deu entrada aqui às 7h, estava aqui, não temos notícias ainda, mas estamos buscando’.Nada.”


Ela afirma que todos os direitos conquistados foram resultado de muita mobilização. “Coisas básicas, como convênio médico para os pais. Muitos são idosos, desenvolveram doenças, ficaram profundamente abalados. Os trabalhadores tinham convênio, assim como seus dependentes, mas, após a morte, (as famílias) perderam esse suporte.”


REUNIÕES E AUXÍLIO


Em comunicado à imprensa, entretanto, a Vale informa que, entre 2022 e 2025, realizou mais de 1.400 reuniões com o objetivo de se aproximar da comunidade de Brumadinho, com a participação de mais de 15 mil pessoas. A empresa destaca ainda que atua em “ações que incluem a recuperação socioambiental, a garantia de abastecimento hídrico e iniciativas para diversificação econômica”.

No mesmo ano da tragédia, foi acordado entre a Vale e instituições da Justiça o pagamento de um auxílio emergencial às pessoas atingidas em Brumadinho e comunidades situadas a até 1km da calha do Rio Paraopeba. Os valores mensais, pagos por um ano, foram fixados em um salário mínimo para adultos, meio para adolescentes e um quarto de salário mínimo para crianças.


Com o encerramento do auxílio, foi criado o Programa de Transferência de Renda (PTR), uma das medidas estabelecidas no acordo de reparação firmado em 2021 entre a Vale, o governo do estado, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública do Estado (DPMG).


O programa, apresentado como substituto do auxílio emergencial, ou seja, mantendo o valor de antes, contou com um aporte de R$ 4,4 bilhões, cerca de 11,7% dos R$ 37,68 bilhões previstos no Acordo Judicial para Reparação Integral, tendo a Fundação Getulio Vargas (FGV) como gestora do benefício.


Previsto inicialmente para terminar em abril deste ano, o valor do PTR começou a ser reduzido pela metade em março de 2025 e seria encerrado em outubro, sob a justificativa de escassez de recursos. No entanto, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) determinou que a Vale voltasse a fazer os repasses mensais sem redução, considerando que a comunidade ainda não conseguiu retomar atividades geradoras de renda, como a pesca no Rio Paraopeba.


DIVISÃO


Ao mesmo tempo, Nayara relata o isolamento vivido pelos familiares na cidade, intensificado após a concessão do auxílio emergencial. “O dinheiro dividiu as pessoas. Muitos passaram a abraçar apenas a causa do benefício financeiro e começaram a abandonar os familiares (dos que morreram), porque achavam que nós atrapalhávamos o recebimento do auxílio com a nossa luta por justiça. Só que ninguém entende que não queríamos estar nessa situação. Eu perdi meu marido, e teve gente que perdeu vários familiares. Ninguém queria isso.”


“Ficamos sozinhos em Brumadinho. O Centro de Convivência dos Familiares surgiu por isso. Havia dificuldade até para ir ao médico, à fisioterapia ou ao psicólogo, porque você chegava e ouvia comentários como ‘a Vale está pagando’. Falava-se muito sobre como o dinheiro era bom para a cidade, como era vantajoso recebê-lo. O espaço foi construído pelos familiares e para os familiares, que entendem essa dor inigualável.”


Para a psicóloga Luana Carola, professora e doutora do Departamento de Psicologia da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), o luto em Brumadinho ultrapassa a perda individual. “Não é apenas o luto por alguém que foi embora, é o luto do território. Há uma dificuldade de reconstrução da identidade: onde eu estou, eu não estou mais; quem estava comigo, algumas pessoas não estão. Soma-se a isso o julgamento social, a ideia de que as pessoas são aproveitadoras ou que vivem melhor do que antes. São violências psicossociais que agravam ainda mais a situação.”


“MINEIRADOS”

Kenya Lamounier, idealizadora do Memorial Brumadinho, espaço dedicado à memória dos que morreram no rompimento da barragem, é psicóloga e viúva de Adriano Aguiar Lamounier, com quem viveu por 37 anos e teve dois filhos. Para ela, a questão financeira tornou-se um divisor de águas, pois “se a empresa pagou e paga, então está tudo bem”.


De acordo com a Vale, até dezembro de 2025, mais de 17,5 mil pessoas receberam indenizações cíveis, extrajudiciais e trabalhistas, totalizando R$ 4 bilhões. Esses valores não integram o Acordo de Reparação.


“A vida não tem valor. Por isso vamos a feiras de mineração falar com associações, para tentar mudar esse pensamenta. A mineração precisa preservar a vida. Eu uso a palavra ‘mineirados’, porque eles foram peneirados por essa dinâmica. As pessoas perguntam: ‘Mas vocês receberam indenização?’ E me recuso a responder. Pergunto: se alguém te der R$ 10 milhões, você deixa essa pessoa passar o carro em cima de você? Vida é isso?”


Questionada se sua formação em psicologia ajudou a lidar com a dor, Kenya responde que ‘não’. “Há momentos em que reconhecemos as fases do luto e outros em que negamos tudo isso. O sentimento não cabe no currículo. Pensar no memorial foi uma saída ética para lidar com a dor, mas não facilitou o meu transitar pelo luto.”


Kenya afirma que lembra de Adriano como um pai dedicado, marido amoroso e filho presente, mas ressalta que a impunidade atravessa essas memórias. “Por mais que existam boas lembranças, há sempre a marca da impunidade. Até hoje ninguém foi preso. Isso mina tudo.”


ROMPENDO BARREIRAS


“Para nós, todo dia é 25 de janeiro”, afirma Helena Taliberti, mãe de Camila e Luiz Taliberti e presidente do instituto que leva o nome dos filhos, cujo lema é: “Tentaram nos enterrar, mal sabiam que éramos sementes”. Helena relata que ela e os filhos são de São Paulo, mas que Luiz morava na Austrália e os jovens estavam em visita turística a Brumadinho. “Essa é uma tragédia que não é só de Minas Gerais, é uma tragédia nacional.”
Além de Camila e Luiz, a família perdeu Fernanda Damian, esposa de Luiz, grávida de cinco meses do primeiro neto de Helena, além do ex-marido de Helena, pai dos jovens, que também estava na viagem. A madrasta deles, Maria de Lurdes da Costa Bueno, de 59 anos, também hospedada na Pousada Nova Estância, foi reconhecida no ano passado, após o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) encontrar um fêmur com prótese.


Camila conta que, assim como no Memorial de Brumadinho, onde foram plantados 272 ipês como símbolo de florescimento na adversidade, a perda dos filhos também a levou a conhecê-los ainda mais. “Os amigos até hoje me contam histórias que eu não sabia. É uma memória viva. A presença desses amigos em datas comemorativas mantém Camila e Luiz presentes.”

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Abastecimento hídrico

Para minimizar os impactos do desastre sobre o Rio Paraopeba, até o ano passado foram entregues 4,4 bilhões de litros de água potável, além da perfuração e reativação de 100 poços, da construção de mais de 500 estruturas hidráulicas, da implantação de 190 sistemas de tratamento de água e da operação de quatro adutoras (Brumadinho, Pará de Minas, Nova Lima e Belo Horizonte – Carlos Prates), informa a Vale. De acordo com a empresa, a água fornecida também é utilizada para a manutenção das atividades agropecuárias em 815 propriedades, que recebem ainda alimentação para os animais. Ao todo, foram entregues 612 milhões de quilos de produtos. Outra frente prevista no Acordo de Reparação é a execução de obras de abastecimento de água na Região Metropolitana de Belo Horizonte e na Bacia do Paraopeba, com mais de 550 obras que beneficiam cerca de 5 milhões de habitantes.

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