CIÊNCIA

Nova espécie de libélula é descoberta no Pico do Itambé

Identificada no Vale do Jequitinhonha, Hetaerina giselae vive em áreas preservadas; Minas é o estado com maior diversidade do inseto no Brasil

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Uma nova espécie de libélula foi identificada durante a realização de uma pesquisa científica em Minas Gerais. A descoberta aconteceu no Parque Estadual do Pico do Itambé, Vale do Jequitinhonha, entre os municípios de Diamantina e Serro, em uma área marcada por campos rupestres, cursos d’água e fragmentos de Mata Atlântica. 

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A nova espécie, batizada de Hetaerina giselae, pertence ao grupo das chamadas donzelinhas, insetos aquáticos associados a ambientes de água limpa e bem preservados. Os exemplares foram coletados em riachos, cachoeiras e áreas de vegetação marginal dentro do parque estadual, ambiente considerado estratégico para pesquisas científicas devido a sua alta diversidade biológica e ao ótimo grau de conservação.

A descrição da espécie foi publicada em uma revista científica internacional especializada. O estudo contou com a participação de pesquisadores do Instituto Federal do Sul de Minas Gerais (IFSuldeMinas) - Campus Inconfidentes, do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) - Campus Bambuí, da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e da Universidade de São Paulo (USP) - Campus Ribeirão Preto. 

Ao analisar os exemplares de libélula coletados, os pesquisadores perceberam diferenças sutis em relação a outras espécies já registradas na região, o que levantou a suspeita de que se tratava de um exemplar ainda não descrito pela ciência. No caso das libélulas, a genitália do macho desempenha um papel fundamental na identificação das espécies, por apresentar variações muito específicas que funcionam como um dos principais critérios para diferenciar o grupo.

“Essas estruturas mostraram diferença para as espécies já descritas. Então, essa foi a primeira informação que nos levantou a hipótese de que se tratava de uma espécie nova. Mas as diferenças não eram tão gritantes assim. Então, poderiam ser variações da população dessa espécie, das espécies já conhecidas. Às vezes a morfologia é tão diferente que ela já é o suficiente para dizer que é uma espécie nova. Mas nesse caso as diferenças não eram tão evidentes. Por isso que a gente recorreu também à análise de DNA” disse o pesquisador do IFSuldeMinas, Marcos Magalhães de Souza, que trabalha com inventário de espécies há 20 anos. 

Os exames de DNA corroboraram as diferenças morfológicas observadas, confirmando que aquelas características correspondiam, de fato, a uma nova espécie. Então, foi a hora de batizá-la: a Hetaerina giselae foi nomeada em homenagem a dona Gisela, mãe de um dos pesquisadores envolvidos no estudo, Tomás Dias de Oliveira, mestrando na USP - Ribeirão Preto. 

Maior diversidade de libélulas do mundo

De acordo com o pesquisador Marcos Magalhães de Souza, a Hetaerina giselae foi a oitava espécie de libélula identificada no Brasil nos últimos 15 anos. A descoberta se deu durante a realização de um estudo, iniciado em 2024, para inventariar as espécies de insetos e aracnídeos presentes no Parque Estadual do Pico do Itambé.

Além da descoberta da Hetaerina giselae, o trabalho catalogou outras 58 espécies de libélulas, que incluíram quatro novos registros para o estado de Minas Gerais. Ou seja, foram registradas quatro espécies já conhecidas pela ciência, mas que, até então, não haviam sido encontradas em Minas.

O número representa um valor considerável em termos de biodiversidade mundial. A área com o maior número de espécies de libélulas no mundo é a Serra de São José, próxima ao município de Tiradentes, Região Central, onde já foram identificadas 128 espécies. O Brasil é o país com a maior diversidade de libélulas do mundo, com mais de 900 espécies já registradas. 

Preservação

O pesquisador Marcos Magalhães reforça a importância da pesquisa científica e das unidades de conservação para a construção do conhecimento sobre nossos biomas: “A gente está no século 21. Até então, a gente poderia imaginar, segundo o senso comum, que todas as espécies que deveriam ser descobertas já foram. Na verdade, não. A gente tem muitos grupos de organismos que ainda sofrem com uma deficiência de informação. Então, por exemplo, a gente trabalha com as libélulas. O estado de Minas Gerais, hoje, é o estado mais bem amostrado para esses insetos. Mas, ainda assim, há muitas áreas que não têm informação. Por isso que a gente consegue descobrir essas espécies novas ", diz o professor que ressalta ainda a importância das áreas de preservação ambiental para o trabalho de pesquisa.

“Isso se torna mais relevante frente à perda dos ambientes naturais. A mata Atlântica e o cerrado estão desaparecendo no estado de Minas Gerais. Isso é histórico e continua acontecendo. E o campo rupestre é mais delicado ainda, porque quase ninguém conhece o campo rupestre como um bioma. E ele ocorre em Minas Gerais, nessas áreas em que a mineração pressiona muito. Então, quando a gente descobre uma espécie, como no Parque Nacional Estadual do Pico do Itambé, a gente pode dizer para a sociedade: ‘está vendo?’ É necessário, sim, investimento público para manter essa unidade de conservação. Porque, se ela não for protegida, nós podemos perder essas espécies.”

O professor ainda reforça a importância que os insetos desempenham para a manutenção da vida na terra: “nós podemos utilizá-las como predadoras no controle biológico, monitoramento de qualidade da água e o próprio funcionamento do ecossistema. Se a gente começar a perder essas espécies, nós também vamos sofrer com isso. Então é importante que a sociedade entenda a relevância desse tipo de estudo”, finaliza.

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*Estagiária sob supervisão da subeditora Juliana Lima 

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